Capítulo 11 — Alessia

1077 Palavras
Alessia Eu não lembro exatamente quanto tempo fiquei no chão depois que ele saiu, mas lembro da sensação de não conseguir me levantar, como se o meu próprio corpo tivesse desistido antes de mim. O silêncio da casa parecia mais pesado do que qualquer grito, mais sufocante do que qualquer ameaça, e a única coisa que passava pela minha cabeça era o som do choro da minha filha sendo levado embora, como se estivesse ecoando dentro de mim sem parar. Eu sabia que precisava reagir, sabia que ficar ali não mudaria nada, mas levar alguns minutos até conseguir me levantar foi mais difícil do que qualquer coisa que eu já tinha enfrentado. Eu tomei um banho sem nem perceber direito o que estava fazendo, deixei a água cair enquanto tentava organizar os pensamentos, mas nada vinha de forma clara. O medo era grande demais, a sensação de impotência era pior ainda, e, no meio disso tudo, uma única lembrança começou a se destacar de forma inevitável. Ele. A única pessoa que, naquele momento, tinha poder suficiente para fazer alguma coisa que realmente pudesse mudar o que estava acontecendo. Não era a decisão certa, não era algo que eu faria em qualquer situação, mas aquilo não era qualquer situação. Era a minha filha. Eu me arrumei sem pensar duas vezes, vesti a primeira roupa que encontrei e saí de casa com pressa, sem olhar para trás, porque eu sabia que, se parasse, não iria conseguir sair. O caminho até o hospital da máfia foi um borrão, minha mente não conseguia focar em nada além do que eu precisava fazer, e quando finalmente cheguei, a realidade bateu de novo. Aquilo não era um lugar onde qualquer pessoa entrava, não era um hospital comum, e os homens que estavam posicionados na entrada deixaram isso muito claro no momento em que bloqueavam o caminho. Eles não disseram nada no início, apenas se colocaram na minha frente, impedindo a passagem com a mesma naturalidade de quem já estava acostumado a controlar tudo ao redor. Eu senti o coração acelerar, mas não recuei. — Eu preciso falar com ele. Um deles me encarou com expressão neutra. — Não pode entrar. Eu respirei fundo, tentando controlar o desespero que começava a subir. — Então avisa que a Alessia está aqui. Houve um breve silêncio. Eles trocaram um olhar rápido, como se avaliassem a situação, e um deles entrou sem dizer mais nada. Eu fiquei ali, parada, sentindo cada segundo passar como se fosse uma eternidade, com a ansiedade crescendo de forma insuportável dentro de mim. Eu não sabia se ele iria me receber, não sabia se aquilo daria certo, mas eu não tinha outra opção. Quando o homem voltou, apenas fez um gesto com a cabeça. — Pode entrar. Eu não perdi tempo. Passei por eles sem olhar para trás e segui pelo corredor até o quarto indicado, sentindo o coração bater mais forte a cada passo. Quando entrei, ele já estava acordado, deitado na cama, com o corpo ainda limitado, mas os olhos atentos, observando tudo ao redor como se nada escapasse do controle dele. Eu parei por um segundo na porta. Respirei fundo. E então entrei. Ele não falou nada de imediato, apenas me observou, como se estivesse tentando entender o motivo da minha presença ali. Aquilo só tornou tudo mais difícil, porque eu não tinha tempo para hesitar, não tinha espaço para orgulho, não tinha escolha. — Levaram a minha filha. Minha voz saiu falha, mas firme o suficiente para ser entendida. A expressão dele mudou. Sutilmente. Mas mudou. Eu dei mais um passo para frente. — O pai dela invadiu a minha casa, levou ela à força e disse que, se eu não voltar com ele, vai sumir com ela. Vai sair do país. Eu não vou conseguir achar sozinha. O silêncio que se formou não era vazio. Era pesado. Ele continuava me encarando. E eu senti o controle escapando. — Eu sei que você pode fazer alguma coisa — continuei, com a voz mais baixa agora, mais carregada. — Eu sei que você tem gente, que tem poder, que consegue encontrar quem quiser. Ele não interrompeu. Não disse nada. E isso me obrigou a ir mais longe. — Você disse que me quer. As palavras saíram antes que eu pudesse recuar. — Então eu estou te fazendo uma proposta. Meu coração batia forte demais. Mas eu continuei. — Se você trouxer a minha filha de volta… eu fico com você. O silêncio ficou ainda mais denso. Eu senti o peso daquilo que tinha acabado de dizer, mas não recuei. — Eu faço o que você quiser. Minha voz falhou levemente. — Mas traz ela de volta pra mim. Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos que pareceram longos demais, analisando cada palavra, cada detalhe, como se estivesse avaliando algo muito além do que eu conseguia enxergar. Eu não sabia o que esperar, não sabia se ele iria rir, negar ou simplesmente me mandar embora, mas eu não conseguia parar de olhar para ele, porque, naquele momento, tudo dependia daquela resposta. Ele se moveu com cuidado, ignorando parcialmente o próprio estado, e se sentou na cama com esforço controlado. O olhar dele permaneceu fixo em mim, mais sério agora, mais focado, como se algo tivesse mudado dentro dele. — Quem é ele? A pergunta veio direta. — Lorenzo. Eu não hesitei. — Ele tem influência, tem dinheiro, mas não tem mais direito nenhum sobre ela. Mesmo assim, ele levou. Ele ficou em silêncio por um instante. Processando. — Onde ele estaria? — Eu não sei — respondi, sentindo a voz falhar de novo. — Ele só disse que, se eu não voltar, eu nunca mais vejo ela. Aquilo pareceu ser o suficiente. Ele passou a mão pelo rosto, pensativo, e então voltou a me encarar. — Para de chorar. Eu nem tinha percebido que estava chorando de novo. — Eu vou resolver isso. A forma como ele disse não foi impulsiva. Não foi vazia. Foi firme. Segura. Como se aquilo já estivesse decidido. Meu peito apertou. — Então você aceita? Ele manteve o olhar em mim por alguns segundos antes de responder. — Eu não preciso da tua proposta. Aquilo me pegou de surpresa. Mas ele continuou. — Eu vou trazer a tua filha de volta. Minha respiração falhou por um segundo. — Confia em mim. E, naquele momento, por mais absurdo que parecesse, foi exatamente isso que eu fiz.
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