Como devo agir?

1925 Palavras
Acordei cedo na manhã seguinte, antes mesmo que o despertador. Estava de bom humor, mesmo que fosse uma segunda feira. Isso era bem inesperado. Tomei um banho, vesti o uniforme da escola e fui tomar o café da manhã, enquanto assistia mais uma discussão dos meus pais. —Onde você estava esse final de semana todo, Roberto? —minha mãe perguntava pela terceira vez. Ela já sabia a resposta daquela pergunta. Tenho quase certeza disso. —Já falei, Anabele —respondeu ele irritado já se preparando para sair —Tive que trabalhar. Como acha que sustento essa casa? A espetada matinal. Ele trabalhava tanto por causa dela, para dar o melhor para ela e os filhos. Isso fazia minha mãe se sentir m*l, um peso na vida dele, como se tudo fosse culpa dela. —Eu sei, mas eu sinto sua falta —sua voz estava baixa e cansada. Triste. Ele tinha conseguido contornar a situação. Mais uma vez. —Também sinto a sua, querida —era mentira. Se fosse verdade, não faria o que faz —Mas estou cansado dessas suas cobranças e acusações. Terminei meu café e me levantei da mesa, sem ser percebida pelos dois, sair da cozinha. Essa era a parte que mais odiava, que era quando ele iria virar toda a situação para ela, que sairia como a culpada da história e no final, ela quem pediria desculpas a ele. Será que eu sou uma filha tão horrível por querer a separação dos meus pais? Só acho que esse relacionamento é tão tóxico para ela, mas, por algum motivo, ela parece presa nele. Pior, parece querer ficar presa nele. Como uma mulher aceita ficar com um homem que a trai? Eu não faria isso. Mas não deixaria meus pais estragarem meu humor. Não hoje. A escola era só um quarteirão de distância de minha casa, então ia caminhando, meus pensamentos a quilômetros de distância. Ou melhor, não a quilômetros, mas no que aconteceu ontem. Cristiano disse que me amava. Sinceramente, não conseguia acreditar nele, mas seus beijos e toques eram tão bons, causavam tantas sensações, que não importa se eu acredito ou não. Posso aproveitar só um pouco disso tudo? Não posso? Não é como se tivesse outra oportunidade dessas. Não fizemos nada além de nos beijar ontem e foi bom, imagina quando fizermos mais que beijar? Quando sentir sua pele sem toda aquela roupa entre nós? Meu rosto esquentou com os pensamentos que estava tendo no meio da rua. Ainda bem que as pessoas não podem ler pensamentos, do contrário iria querer morrer nesse momento. Balancei a cabeça, afastando tais pensamentos impuros. Tinha chegado a escola, onde Cristiano também estava ou logo chegaria e não queria o encarar com tais pensamentos. Ele não saberia o que estava pensando, mas só a possibilidade dele desconfiar me deixava morta de vergonha. Aliás, como vou o encarar depois de ontem? Como devo agir? Devo o cumprimentar? Ou não? Não conversamos muito ontem, quando paramos de nos agarrar já estava bem perto da minha mãe chegar e nem eu, nem ele queria que ela nos encontrasse no sofá de sua sala, então, tecnicamente, não conversamos sobre o que somos um para o outro. Antes não nos falávamos na escola, mas e a agora? Eu tinha que o cumprimentar? Ou não precisava? Será que ele me ignoraria se falasse com ele? —Mais um pouco e sua cabeça vai explodir —levei um susto com a voz atrás de mim e dei um gritinho, me virando para trás. —André, seu i****a —o xinguei batendo em seu peito enquanto ele caía na gargalhada —Você ainda vai me matar do coração. —Desculpa, desculpa —disse ele entre risadas —Você devia ver sua cara —o olhei irritada e ele passou o braço pelos meus ombros —Não fica brava comigo, Anna com A. Por favor. —Vou pensar no seu caso —disse fechando a cara, mas segurando o sorriso. Não conseguia ficar brava com ele e, infelizmente, isso não era um segredo. —Obrigada, meu anjo —beijou minha bochecha —Você é a melhor do mundo —revirei os olhos para seu exagero —Então o que estava quase fritando seu cérebro? —Oi? —o olhei confusa. —Você estava pensando com muito afinco agorinha —explicou ele. Me olhou de lado, preocupado —Alguma coisa te incomoda? Abri a boca, indecisa. Deveria lhe contar? Justo para ele? O cara que até sábado eu estava apaixonada? Eu não sei mais se estou ou não apaixonada por ele, minha cabeça estava cheia de pensamentos com Cristiano, pensamentos que nunca tive sobre André, mas também não gosto da ideia dele saber disso. Não sei o porquê. Antes que decidisse o que dizer, Rosa chegou e o assunto foi esquecido. Graças a Deus. —Preparados para mais uma semana no inferno? —perguntou Rosa se metendo entre nós dois, colocando um braço sobre o meu ombro e o de André. —Com certeza não —respondeu André suspirando —Vocês fizeram o trabalho de inglês? Sentir um formigamento em meu ombro e olhei para trás, mas ninguém me olhava, só vi Cristiano cumprimentando seus amigos, a tal da Helena também estava no grupo. Provavelmente ele chegou com Rosa, mas ao contrário dela, não achou necessário vim falar comigo. Acho que a minha dúvida estava respondida; não deveria falar com ele. —Eu fiz —respondi voltando minha atenção para meus amigos e esquecendo Cristiano. —Nossa salvadora —os dois falaram ao mesmo tempo se virando para mim, com os olhos brilhando —Nos deixa copiar? Olhei para os dois e balancei a cabeça. Esses dois não mudavam nada, sempre pedindo para copiar minhas respostas, mas eles não eram burros, só preguiçosos. Quando queriam, na verdade, conseguiam tirar notas até melhores que as minhas, principalmente Rosa. —Vocês vão se arrepender disso no futuro —os alertei, mas tirei o caderno da mochila, deixando Rosa pegar. —Quando esse futuro chegar, você diz: “eu avisei” —zombou Rosa procurando a matéria de inglês, então seguiu pra sala, com André atrás dela. Eles tinham 10 minutos até o começo da primeira aula, se fossem rápido conseguiriam copiar tudo. Os alunos começaram a entrar, mas como ainda tinha alguns minutos fui para o campo de futebol atrás da escola, gostava de ir para aquele lugar de manhã porque não tinha ninguém, assim se tornava silencioso e relaxante para ler um pouco. —Anna —pela segunda vez no dia me assustei com a aproximação de alguém, mas dessa vez não precisei virar para saber quem era. Cristiano tinha me seguido —Não deveria permitir que eles copiassem suas atividades. Não me surpreendi com sua repreensão sobre a lição. Não era a primeira vez que ele me repreendia por isso e no fundo, sabia que ele tinha razão, eu estava só atrapalhando os dois, mas não conseguia dizer não aos meus amigos. —Isso não é da sua conta —fui mais grossa do que pretendia, mas odiava quando ele usava esse tom de voz comigo, como se fosse o cara todo certo e eu toda errada —Também não é certo escutar as conversas dos outros. —Vocês que falam alto demais —debochou ele e virei em sua direção, irritada, mas antes que pudesse falar algo, ele me beijou. Passei meus braços ao redor de seu pescoço, ficando nas pontas dos pés para conseguir o alcançar. E ele passou os braços pela minha cintura, me puxando para mais perto. —Adoro te ver irritadinha —sussurrou ele contra meus lábios com um sorriso —E agora tenho uma ótima forma de te acalmar. —i****a —falei, mas estava com um sorriso bobo. Eu que era uma i****a. Ele riu contra meus lábios, então me abraçou mais apertado, escondendo seu rosto em meu pescoço. Não era muito fã de abraços, mas seus braços eram tão confortáveis que não me importaria de ficar ali para sempre. —O seu i****a —sussurrou ele em meu ouvido e isso fez meu coração i****a acelerar, mas ele continuou, sem saber como tinha me atingido —Podemos nos ver depois da aula? —Claro —respondi involuntariamente. O sinal avisando o início da aula tocou e nos afastamos, com um sorriso bobo no rosto, uma promessa no olhar. Estava ansiosa para o fim da aula daquele dia, ansiosa por mais tempo com ele. —Vamos para aula? —ele estendeu a mão, mas não a peguei, o sorriso sumindo do meu rosto. —Você pode ir na frente, eu tenho que... —Não completei a frase, não sabia mais o que dizer. Eu não tinha nada para fazer, mas não tinha coragem de pegar a mão dele. Só de pensar nos outros nos vendo juntos, começava a surtar. O que iriam pensar de ver uma garota como eu ao lado de um garoto como ele? Por que ele esperou para falar comigo quando estava sozinha? Ele também não queria ser visto ao meu lado, certo? Então por que agora me estendia a mão? —Não quer ser vista comigo, Anna? —perguntou ele sério, abaixando a mão. Sua expressão estava tão fechada, diferente de minutos atrás, então não conseguia saber o que pensava. —Não é isso —discordei balançando a cabeça. —Então o que é? —insistiu ele. —Eu... —Não sabia como lhe explicar. Estava com medo. Medo do que diriam ao lhe ver comigo. Em como ele reagiria se rissem dele por estar comigo. —Esquece —finalizou ele e se virou de costas para mim —Não tenho tempo para isso. A aula já deve ter começado. —Ainda vou te ver depois da aula? —perguntei nervosa. Tinha acabado de estragar tudo? Ele parou por um tempo, sem olhar para trás, então voltou a andar, sem nenhuma resposta além de um suspiro. Uma resposta muito clara. Depois dele sair, fui o mais rápido que pude para a minha sala, mas ainda cheguei depois do professor, que, por pura sorte, nem se importou com meu atraso. Assim que me sentei, Rosa me entregou meu caderno com um sorriso de agradecimento. E isso só me fez sentir pior por me lembrar do irmão dela. —Está tudo bem? —sussurrou ela preocupada vendo minha expressão. Queria falar com ela, falar de toda a confusão que estava minha cabeça desde que o irmão dela me beijou, que estava confusa sobre meus sentimentos e que não sabia, não entendia o que estava sentindo, mas não conseguia. Não era um momento apropriado e mesmo quando fosse, não sei se queria lhe contar. Por algum motivo, eu não queria divide isso com ela, mesmo que nunca tenha guardado nenhum segredo dela em toda minha vida. —Estou bem —forcei um sorriso que pareceu a convencer, mas André, que estava com a atenção em nós, balançou a cabeça, olhando em minha direção, como se quisesse dizer algo. Não lhe dei atenção, prestando atenção na aula. Precisava me distrair. Aula após aula, finalmente o dia chegou ao fim e na hora da saída, inventei uma desculpa para Rosa, já que sempre voltávamos juntas e fiquei vendo os outros alunos saírem. Eu sabia que ele não iria aparecer, mas não consegui me convencer a ir para casa. Fiquei até o último aluno sair e depois por mais meia hora, como uma i****a, mas ele não apareceu. É, eu tinha estragado tudo antes mesmo de começar.
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