Mensagem

1729 Palavras
—Ele conseguiu passar em primeiro lugar para medicina —dizia minha mãe toda orgulhosa a tia Helena —Estamos tão orgulhosos dele. Era domingo e eu tinha várias ideias do que seria ótimo estar fazendo naquele momento, mas, infelizmente, minha mãe discordava de mim e tinha me feito prometer a acompanhar para casa de tia Helena, para ficar as escutando falarem de seus filhos. —Que incrível —falou tia Helena com um sorriso falso. Tudo que ela queria dizer era que minha mãe se achava demais, mas isso só deixaria sua inveja mais evidente —Vamos ter um médico na família. E como estar, Lilian? E lá vai minha mãe, cheia de elogios para minha irmã, que estava em seu segundo ano na faculdade de engenharia civil, sem deixar de falar novamente do meu irmão que começaria seu primeiro ano na faculdade de medicina. É, meus irmãos eram simplesmente incríveis. —E a pequena Anna? —a parte que eu mais odiava chegou, quando a atenção se voltava para mim. Tia Helena me olhava com um sorriso vitorioso, já que eu era o seu bode expiatório quando queria lembrar a minha mãe que ela não era tão perfeita como queria parecer. Meus pais tiveram três filhos. Lilian, Fabrício e eu, apenas um ano de diferença entre cada. E enquanto meus irmãos são bons na escola, com a beleza exuberante dos nossos pais, fazem tudo certo, sendo o orgulho da família, eu não era nada disso. Minha maior nota na escola era 7, parecia estar sempre dizendo e fazendo as coisas erradas, sendo uma vergonha para meus pais. E claro, eu era acima do peso ideal, o que todos adoravam comentar sempre que me viam, o que deixava minha mãe muito envergonhada. —Está sendo a Anna —respondeu minha mãe por fim, dando de ombros —Você sabe como ela é. —Parece que ela engordou mais um pouco desde a última vez que a vi —odiava quando comentavam sobre meu peso, mas também não podia fazer nada. Todos diriam que se não quero ouvir tais comentários era só emagrecer —Está com quantos quilos, Anna? —88 —respondi sem me surpreender com sua cara de choque. E antes que ela pudesse soltar mais de seus venenos, me levantei —Preciso ir ao banheiro. Me retirei da sala, deixando as duas conversando, falando sobre o quanto sou uma vergonha para minha família ou minha mãe tinha voltado a falar dos meus irmãos, ela sempre gostava de deixar claro o quanto tinha orgulho dos seus filhos mais velhos, principalmente quando estava com Helena. Elas eram irmãs, mas agiam mais como rivais, sempre disputando em ser a melhor. Claro que nenhuma das duas admitia isso, mas era algo bem óbvio. E por isso eu odiava vim aqui com minha mãe, porque sempre sobrava para mim, por mais que ficasse na minha, tentando ficar invisível. —Quanto mais vou ter que aturar isso? —me questionei em voz baixa, enquanto entrava no banheiro. Não é como se me importasse com o desgosto da minha mãe ao falar de mim, há muito tempo que tinha desistido de conseguir a agradar, mas não deixava de ser irritante. Respirei fundo, buscando paciência e retornei para a sala, aliviada ao ver que tinham achado um assunto melhor para conversar, os filhos de tia Helena, Erick e Bruno. E assim passei a minha manhã. Depois do que pareceram anos, mamãe resolveu que estava na hora de voltar para casa, antes do horário do almoço, já que tinha que o preparar para meu pai, mesmo que no fundo soubesse que ele não ia chegar para comer, ele dificilmente vinha. Ele estava ocupado demais com suas amantes para lembrar de almoçar em família. Eu costumava pensar que minha família era perfeita, com um pai, uma mãe e dois irmãos. Me sentia a ovelha n***a da família, a única com defeito, principalmente com toda a pressão para ser como meus irmãos mais velhos, o que eu nunca conseguir fazer. Passei a minha infância toda buscando a aprovação dos meus pais, mas sempre fazia tudo errado, nunca era boa o bastante e tudo que fazia, meus irmãos já tinham feito 10 vezes melhor. Resumindo, por mais que tentasse, nunca conseguiria ser boa o bastante. Então eu cresci e entendi que não existe essa coisa de família perfeita e se existir, a minha está longe de ser. Meu pai trai a minha mãe com qualquer mulher que o aceitar em sua cama, minha mãe finge que não sabe de nada, preferindo acreditar nas mentiras que ele conta, mas sempre chora em seu quarto quando ele não volta para casa à noite ou não vem pra casa no final de semana. Eles estão sempre brigando, mas nunca se separam. Meus irmãos não aguentaram o inferno que é a nossa casa, todo esse fingimento, as brigas e todo o sofrimento que a nossa mãe causa a se mesma, então não pensaram duas vezes e saíram de casa assim que tiveram oportunidade, por mais que mamãe tenha implorado para eles não irem. E no final, só sobrou eu. Por isso tentava ficar o maior tempo possível com ela no domingo, porque não queria a ver triste, não a queria chorando, mas não tínhamos muito em comum, eu não a conhecia bem e ela não me conhecia. Quando tentava conversar, sempre acabava escutando coisas que não gostava, que me magoavam, então preferia quando fazíamos coisas que não precisavam de conversa, como assistir ou cozinhar juntas. E depois do almoço, ela sempre tinha coisas para fazer, por isso tinha o resto do domingo livre. Não éramos próximas, mas também não éramos distantes. No final, acho que não poderia reclamar de nossa relação, era melhor do que muitas por aí. ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ O dia estava muito entediante, era tudo o que conseguia pensar, deitada em minha cama. O domingo estava quase no seu fim e fora a manhã que passei na casa de tia Helena, que não contava como algo divertido, não tinha feito mais nada com meu dia. Rosa até tinha me chamado para sair com ela e seu namorado, mas tinha recusado. Rosa era a melhor amiga do mundo, sempre tentava me incluir em seus planos com o namorado, entretanto ser vela não era nada agradável, então sempre inventava desculpas para não ir. Agora, sem nada interessante para fazer, me sentia extremamente entediada. E isso era muito perigoso porque me fazia pensar no que vinha evitando o dia todo, Cristiano. Faz tantos anos que o conheço, mas nunca tinha dado um segundo pensamento a ele, simplesmente porque era ele. Não éramos amigos, nunca estudamos juntos apesar de sempre nos vermos pela escola e bem, em sua casa; nunca tivemos uma conversa por mais de 10 minutos e nenhuma palavra trocada poderia ser aproveitada, eram sempre xingamentos, meus e dele; sempre evitava de ficar muito tempo no mesmo lugar que ele se estivéssemos sozinhos. Eu o evitava. Por quê? Nunca tinha pensado muito sobre isso. Só parecia o certo. E ele sempre pareceu não gostar de mim, sempre incomodado quando estava por perto, implicando com tudo que me envolvia. Agora vem e diz que, na verdade, sempre gostou de mim? Não, não podia ser verdade, não podia ser sério. Será que era uma aposta com seus amigos? Será que naquele momento estava rindo de mim? Droga. Por isso não deveria ficar pensando nisso. Peguei o celular ao meu lado, vasculhando alguma coisa que poderia me distrair, algo que me tirasse do tédio, mas, para meu puro azar, isso só me fez lembrar que tinha o número dele. Por que eu tinha seu número? Rosa tinha o agendado, dizendo que um dia eu poderia precisar. Ela não poderia estar mais errada, nunca iria precisar ligar para ele, mas naquele momento só conseguia pensar no fato de que poderia lhe mandar uma mensagem. E quando tal pensamento surgiu, não consegui o tirar da minha mente. Será que ele me responderia? Ao menos, saberia que sou eu? Será que ele também tinha o meu número? Antes que pudesse pensar direito sobre tal atitude, abri o w******p em uma conversa com ele e lhe mandei um oi. Quase que tinha um infarto quando os dois pontinhos apareceram e quando ficaram azuis logo em seguida. Não acredito que fiz isso. Queria morrer nesse instante. Será que ele vai me responder? Aí, Deus, o que será que ele está pensando? Por que está demorando tanto? É um simples oi, para que demorar tanto para responder? Estava a ponto de surtar quando sentir o celular vibrar. Cristiano: Oi, Anna. Fiquei surpreso de receber uma mensagem sua. Está tudo bem? Sim, tudo bem Só estou entediada. Hmmm Quer ajuda para passar o tédio, é? Não Claro que não Nem sei o porquê falei com você, mas não vou lhe incomodar mais. Tchau Está sozinha? Sim. Por quê? Estou indo para aí. O que? Não precisa. Cristiano! Não vou abrir a porta para você! Estou falando sério. Cristiano! Ele parou de visualizar minhas mensagens. Droga. Droga. Droga. O que eu fui fazer? Por que eu falei com ele? E agora? Como iria sair dessa? Será que ele acreditaria que não estou em casa e iria embora se não abrir a porta? Mas assim iria parecer uma covarde. Ai meu Deus. Só faço burrada. Meus pais realmente deveriam me tirar meu celular. Não tive escolha além de me levantar e fui até meu guarda roupa, escolher algo mais apresentável que short e blusa de dormi. Aproveitei e também tomei um longo banho, não era como se quisesse ficar limpa para ele, mas também não poderia atender o cara fedendo, seria falta de educação. Quando terminei, vesti um short jeans e uma blusa de regata, amarrei os cabelos em um coque, então fiquei o esperando. Depois de cinco minutos, comecei a me sentir uma i****a. Qual era o meu problema? Ficar esperando por Cristiano? Me arrumar para o receber? Desde quando eu enlouqueci assim? Tinha algo muito errado comigo. Mas também quantas vezes algum cara disse gostar de mim? Nenhuma vez. É normal eu ficar confusa com sua declaração repentina. Ainda estava tentando entender o cara, ainda tentando saber qual era a dele e ainda tentando saber qual é a minha. É normal tudo isso. Eu acho. Ou ao menos, eu espero que seja normal.
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