O resto da noite tentei evitar Cristiano de qualquer jeito, não queria ficar sozinha com ele novamente porque só a ideia de isso acontecer me deixava nervosa e não só isso, mas esses outros sentimentos eu não queria analisar naquele momento ou em qualquer outro momento. Aquela situação toda era muito confusa e estranha. Não fazia o menor sentido. E o pior de tudo é que quando olhava em sua direção, seus olhos já estavam em mim e mesmo pego em flagrante, ele não desviava, o que me deixava mais nervosa.
Eu odiava a sensação de que ele tinha conseguido me atingir e que sabia disso. Odiava de verdade parecer fraca diante dele, por isso me neguei a sair correndo daquele lugar para me refugiar em casa. Se antes não podia sair por causa de Rosa, agora não podia sair para não deixar óbvio para ele que tinha conseguido me desnortear.
Quando a festa acabou passava da meia noite e Rosa me convidou para dormi em sua casa, mas ficar ali mais do que o necessário seria demais para a minha cabeça, por isso inventei uma desculpa qualquer para poder voltar para casa sem deixa-la desconfiada.
—Você não pode sair sozinha a essa hora, Anna —a resposta que já esperava da minha melhor amiga e de qualquer pessoa hoje em dia. Não importa se você é uma cidadã honesta, não tem direito de andar na rua a hora que quer.
—Vou pegar um táxi —a tranquilizei com um sorriso confiável.
—Nada disso —discordou ela decidida e se virou para a cozinha —Mãe, vem aqui rapidão. —e antes que pudesse falar qualquer coisa, sua mãe já colocava a cabeça na porta, olhando interrogativa para filha —A Anna quer ir para casa de táxi a essa hora. Coloque um pouco de juízo na cabeça dela. Por favor.
A atenção de sua mãe se virou para mim, no rosto um olhar amoroso que sempre recebi de sua parte. Ela sempre me tratou como uma de seus filhos.
—Querida, por que não dorme por aqui e amanhã de manhã vai para casa? Certeza que seus pais vão preferi desse jeito também.
—É que eu tenho um compromisso amanhã cedinho com a minha mãe —essa parte era verdade —e se eu dormi por aqui ou vou ter que sair umas 4 da manhã daqui ou vou me atrasar —essa era a mentira mais deslavada que tinha contado, mas tentei soar o mais convincente possível —Por isso é melhor eu ir logo.
—Hmm, eu entendo —concordou ela e antes que pudesse comemorar mentalmente, completou: —O Cristiano vai te levar, então —abri minha boca, mas ela balançou a cabeça —Sem discussão. Não vou deixar você ir para casa sozinha, Anna.
—Mas... —tentei negar, só que ela não me deu ouvidos, indo chamar o filho.
Como qualquer adolescente de 17 anos, Cristiano não deveria dirigir, mas isso não impediu seu pai de o ensinar a pilotar a moto e enquanto ele não for pego, pode sair nela quando quiser. Rosa também sabe e se fosse outra situação, insistiria para ser ela a me levar, mas sua mãe nunca deixaria duas garotas sair sozinha. Isso era bem irritante em minha opinião, mas tinha outra coisa para me preocupar no momento. Todas minhas tentativas de ficar longe pareciam ter me levado justamente para perto dele. E ainda por cima, estaríamos sozinhos sem ninguém por perto até chegar a minha casa. Deus do céu, como faço para sair dessa agora?
—Ai, Rosa, sua mãe não deveria ir atrapalhar seu irmão —comecei desconfortável. Minha atitude não era estranha já que não é um segredo que nós dois não nos demos bem —Ele vai ficar muito irritado, além de que deve estar morto de cansado, como você também.
—Relaxa, Anna —disse despreocupada —Sei que meu irmão é um i****a às vezes —a encarei e ela balançou a cabeça —ok, ok, quase sempre —me lançou um olhar irritado —mas também não é tão r**m. Ele é capaz de fazer algo bom de vez em quando —deu de ombros encerrando o assunto —Amei a noite, mas estou louca pela minha cama. Sério.
—É cansativo ser amada —brinquei a fazendo sorrir —Todas aquelas pessoas querendo um pedacinho seu.
—Absolutamente —concordou ela sorrindo e me olhou cúmplice —Mas não fui a única que arrasei hoje em? Te vi conversando com o André no começo da festa —me olhou curiosa —O que ele disse sobre... —apontou o meu corpo —...toda essa gostosura?
—Ele elogiou, por educação —e antes que ela pudesse refutar, completei: —E passou o resto da noite balançando o r**o para uma garota do terceiro ano, uma tal de Helena.
—Homens —balançou a cabeça como se estivesse decepcionada.
Antes que pudesse comentar mais alguma coisa, Edna voltou com seu filho no encalce. E assim, sem muitas opções e com o coração querendo sair pela boca, me despedir da minha amiga e de sua mãe, evitando o máximo olhar na direção dele, que também não falou nada, nem uma reclamação por ter que me levar. Estava estranhamente calado, o que me deixava mais nervosa e confusa sobre o que esperar dele.
Quando terminei de me despedir, fomos para a garagem e enquanto ele retirava a moto, o esperei do lado de fora. Tudo foi feito em completo silêncio, até quando colocamos os capacetes e subimos na moto. Não sabia o que queria que ele dissesse, nem se queria que dissesse alguma coisa, só que o silêncio era tão agoniante, parecia dizer tantas coisas e ao mesmo tempo, não dizia nada. E como eu não sabia o que falar para acabar aquela agonia, também fizemos o caminho até minha casa em silêncio.
Quando finalmente chegamos, ele parou a moto e eu desci na mesma hora, então devolvi seu capacete. Por um momento, não sabia o que fazer, só queria correr para casa, mas seria muita falta de educação. Muita mesma, já que tinha sido muita gentileza dele me trazer aqui.
—É... Obrigada —falei sem jeito.
—Não mereço um agradecimento melhor? —sua pergunta me surpreendeu e não consegui pensar em uma resposta, só abri e fechei a boca, como um peixe morrendo.
Dei dois passos pra trás quando ele desceu da moto. Foi uma reação involuntária, já que não tinha necessidade de ele descer da moto, nem a desligar. O que ele iria fazer? O que eu queria que ele fizesse? Não sabia qual das perguntas me assustava mais. Eu não estava bem, não estava agindo normal naquele dia.
—Eu preciso entrar —disse apressada —Obrigada de verdade por me trazer, mas eu...
—Anna —ele me interrompeu suavemente —Venha aqui.
Estava só a distância de um braço dele, que podia me agarrar quando quisesse, mas por algum motivo, queria que eu fosse até ele, que escolhesse ser beijada, porque eu sabia que era exatamente isso que iria acontecer e que poderia simplesmente lhe dar as costas, mas não conseguia me virar para ir embora.
—Cristiano, eu... —não sabia como completar aquela frase.
Sua resposta foi me estender a mão, seus olhos presos nos meus e por um momento, ele pareceu tão nervoso como eu. Nem parecia o cara que sempre implicou comigo e procurava qualquer coisinha para brigar, parecia outra pessoa, vulnerável até e foi essa descoberta que me fez segurar sua mão e dar aqueles passos até ele.
E como esperava, sua boca estava na minha antes que pensasse na idiotice que estava fazendo, antes que eu pudesse desistir, então resolvi só aproveitar aquele momento. Não ligava mais que era ele ali, apenas que um garoto estava me beijando, algo que pensei mesmo que nunca iria acontecer e fosse qual fosse a razão dele de fazer aquilo, queria fazer valer a pena todo o sofrimento de lembrar depois a burrada que estava fazendo. Só queria me sentir desejada e ser tocada por uma noite, experimentar aquelas sensações que Rosa tanto tentava me explicar.
E não, eu não sentia borboletas no estômago, nem me sentia flutuando e no primeiro momento, só pensei no quanto aquilo era nojento, aquela baba toda, mas ele foi me envolvendo, me tocando, usando a língua em alguns momentos e fui me acostumando com aquela nova sensação que até que não era tão r**m.
Cristiano levou as minhas mãos até seu pescoço, dando uma ordem indireta para o abraçar, o que eu fiz na mesma hora, ficando nas pontas dos pés já que ele era uns bons 10 cm mais alto que eu, mas isso logo foi resolvido quando nos virou, me encostando em sua moto. Fiquei com medo dela virar conosco, mas ele não parecia preocupado com isso, estava mais focado em subir o meu vestido o suficiente para se encaixar bem entre minhas pernas. Na mesma hora sentir o quanto ele estava me desejando naquele momento e por mais que isso tenha me assustado, também me deixou feliz, afinal já tinha escutado muitas coisas sobre homens e uma delas era que eles não conseguiam fingir sentir desejo por uma mulher tão fácil, já que a prova ficava tão evidente.
—Você não sabe o quanto sonhei com esse momento —ele afastou o rosto do meu, sua mão colocando uma mecha rebelde do meu cabelo atrás da orelha, enquanto a outra estava em minha cintura me mantendo perto —O quanto desejei te tocar —beijou meu pescoço, bem perto da minha orelha —Você não sabe o quanto é linda e maravilhosa, Anna. O quanto ficou linda nesse vestido.
—Não foi isso que disse mais cedo —o acusei de olhos fechados, era muito bom seus beijos leves em meu pescoço ou sua respiração causando arrepios quando tocava minha pele, causava sensações que respondiam diretamente no meu baixo ventre e me faziam querer mais dele, mais dos seus toques, mais do seu corpo.
—Porque eu odeio pensar na ideia de todos aqueles caras vendo tanto de você, do seu corpo —sussurrou ele contra minha orelha, mordendo levemente o lóbulo —Porque eu tenho medo que você saiba...
—O que não posso saber? —me afastei dele, puxando seu rosto para poder olhar em seus olhos.
—Que eu gosto muito de você, Anna —seu rosto ficou levemente vermelho ou talvez eu estivesse enxergando demais.
Não sabia o que dizer. Cristiano gosta de mim? Sério? Desde quando? Onde? Por quê? Isso não podia ser verdade. Ele deveria estar mentindo ou eu escutei errado ou ele poderia mesmo gostar de mim, mas isso parecia tão absurdo que acreditava mais nas duas primeiras opções.
—Eu realmente preciso entrar —falei depois de um longo silêncio e ele suspirou, parecendo decepcionado.
—Entendo —deu um passo para trás, me deixando sair.
Minhas pernas estavam meio molengas e precisei de uns segundos para ficar em pé, então ajeitei minha roupa e olhei para ele, que estava ocupado colocando o capacete sem nem olhar em minha direção. O clima, novamente, estava silencioso e desconfortável.
Dessa vez não precisei pensar em um cumprimento de despedida, assim que estava o suficiente longe, ele subiu em sua moto, a ligou e foi embora, sem nem um segundo pensamento. Não me surpreendi com o final, era algo esperado quando estávamos falando de nós dois, mas fiquei decepcionada por ele ir embora, por mais que odiasse admitir isso.