Festa parte 2

1819 Palavras
Eu tinha uma regra, uma que seguia desde que descobri que ser gorda significava que nenhum homem iria me amar, que não era atraente e que o máximo que podia fazer era me focar nos estudos e consegui uma boa profissão. Uma regra que me mantinha segura e impedia que eu me machucasse. Uma regra que eu quebrei assim que olhei no espelho, na hora que minha melhor amiga terminou a sua mágica ao me arrumar; eu me deixei criar expectativas. —E ai? —ela estava ansiosa por minha opinião —O que você acha? —Eu ... —não conseguia nem achar palavras. Mesmo que minha impressão do vestido tenha sido péssima em primeira mão, ele não ficou tão r**m como imaginava, até parece que não dei tanta atenção a primeira vez. Meu corpo era o tipo ampulheta, b***o e quadril praticamente na mesma medida e a cintura mais fina e aquele vestido se moldava ao meu corpo, realçando curvas que eu nem sabia que tinha. Nos cabelos ela me obrigou a soltar e deu uma hidratação nos cachos, deixando-os volumoso e lindos. Ela também tinha razão em relação as botas, era uma combinação perfeita para aquele vestido. E não é que alguns quilos de maquiagem em meu rosto fazem milagres? Eu estava me sentido bonita —Está bom, Rosa. —Não está bom, Anna—discorda ela contrariada —Está maravilhoso. Você está maravilhosa! —Não exagera —disperso ela com a mão, mas eu estava muito perto de acreditar nela. Por uma noite queria ser uma garota como as outras e queria me diverti. —Não estou exagerando —disse ela com um sorriso de canto a canto —Hoje o André vai finalmente te notar, vai por mim. —Não, não é para tanto —discordei dela com um sorriso envergonhado. No fundo do meu coração, a esperança que ela estivesse certa surgia em meu peito. Fazia 2 anos que eu era apaixonada por André, mas não tinha esperanças de algum dia ele me ver como algo além de apenas amiga. Bem, não tive esperanças até aquele momento. Eu estava me achando muito linda, então ele poderia pensar o mesmo, não é? E naquele momento me dei o direito de sonhar por mais do que uma gorda como eu merecia —Vou indo na frente, enquanto você terminar de se arrumar, ok? —Ansiosa para ver o André, não é? —provocou ela sorrindo e sentir meu rosto esquentar, mas só fiz lhe mostrar a língua e sair de seu quarto. Quando cheguei a sala, encontrei Edna com o irmão chato. Nossos olhos se encontraram automaticamente e vejo surpresa nos dele. Não esperava que eu ficasse tão bem, ne? —Uau, menina — fala Edna alegre —Você está linda, Anna. Não acha, Cris? Seus olhos ainda estavam em mim quando sua atenção foi chamada por sua mãe. Ele me deu um último olhar e se voltou para ela. Prendo minha respiração, ansiosa e espero um elogio que não vem. —Não sei onde, ela parece uma pamonha espremida —foi tudo que ele disse, antes de passar por nós, em direção ao seu quarto. —Cristiano! —sua mãe o repreendeu —Volte aqui agora e peça desculpas para Anna. Ele a ignorou. —Não ligue para isso, Edna —a tranquilizo com a voz calma —Sabemos como ele é —dou de ombros, como se não me importasse, mas me sinto decepcionada. Por que me sinto decepcionada? Nunca deveria esperar um elogio dele. E por que precisaria de seu elogio? Eu estou bonita, não estou? Sua opinião não me importa! Só que já não me sentia tão bem assim sobre aquela roupa. Eu era uma i****a. Por mais que quisesse ir para casa, não podia fazer isso com minha melhor amiga. Nos últimos meses, ela parecia uma criança de tão ansiosa com essa festa, sonhando em como seria tudo incrível e maravilhoso, não poderia a decepcionar saindo antes de tudo começar, além de que, talvez, esse fosse o último que poderia comemorar com ela, já que ano que vem iríamos para cidade diferentes, então não poderia deixar Cristiano me atingir, não hoje. Coloquei um sorriso no rosto e ajudei Edna com os últimos detalhes, até que os convidados começaram a chegar, então tentei ser um pouco sociável, o que eu não era, conversando um pouco com todos. Os meus colegas quase não me reconheceram naquelas roupas, alguns até disseram o quanto estava linda, o que me animou um pouco novamente. Outras pessoas eu só conhecia de vista, já que eram convidados de Cristiano, não de Rosa, mas os cumprimentei com um sorriso caloroso como a educada que era; alguns, tão educados como Cristiano, me ignoraram e outros responderam forçosamente. Bem a cara de amigos que ele teria. Menos de uma hora depois, eu já estava cansada daquele barulho, das pessoas conversando e da bagunça que faziam; sempre gostei mais do silêncio e ficar quieta em meu canto, o oposto da minha melhor amiga. Estava perdida em meus pensamentos, quando sentir alguém me abraçar por trás e meu coração quase sai pela boca, principalmente quando sentir o cheiro de seu perfume, um cheiro que sempre me deixava com as pernas bambas. —Não acredito que essa é a minha amiga favorita —sua voz grave faz os pelos do meu pescoço se arrepiarem e me afasto dele para consegui o encarar e, claro, soltar a respiração que estava segurando —Você está maravilhosa, Anna com A. Sorri com o apelido que André tinha me dando depois que o obriguei a assistir comigo toda a série “Anne With na E” em um final de semana. —Não exagera —respondi dando de ombros, fingindo que não me importava. Eu fazia isso bem, muito bem. —Não é exagero —disse ele colocando a mão em seu peito —Acho até que me apaixonei. —Deixa de ser b***a, menino —bati em seu ombro, ignorando o meu coração i****a que parecia querer sair pela minha boca. Sabia que ele não falava sério, só estava brincado, como sempre fazia. —Você sabe que me ama —deu um sorriso sacana e eu revirei os olhos. Antes que pudesse pensar em algo para lhe responder, seus olhos se focaram em alguém atrás de mim e sua expressão suavizou. Não me surpreendi ao me virar e ver que quem ele olhava era uma menina do 3º B, da turma de Cristiano. Ela era uma das mais lindas de sua sala, então claro que chamava a atenção de todos naquele ambiente. —Vai falar com ela —o incentivei com um sorriso falso. —Oi? —sua atenção se voltou para mim, parecendo confuso. —A lourinha ali —apontei com a cabeça, tentando não ser tão óbvia. Sua expressão continuava confusa e eu revirei os olhos —Você estava olhando para ela. —Não estava olhando para Helena —negou ele balançando a cabeça. —Estava sim —discordei, ignorando o fato de que ele até já sabia o nome dela. Provavelmente já se conheciam. —Não estava —discordou ele com um sorriso. Adorava discorda de mim, sabia que isso me irritava. —Estava sim e ponto —falei e antes que ele pudesse discordar de mim, completei: —Vai logo, André. Eu sei que você quer. —Chata —reclamou ele. —Você sabe que me ama —o imitei e ele apenas sorriu, indo em direção a tal de Helena. Suspirei cansada, sentido o tão familiar sentimento de decepção. Não sei por que quis acreditar que seria diferente, minhas noites nunca terminavam como eu queria, estava até acostumada já, mas será que é possível a gente se acostumar com a decepção? Quantas vezes precisamos nos decepcionar para isso acontecer? A festa estava no seu clímax e para onde eu iria? Cozinha, me empanturrar de comida. Que surpreendente. Não sei porque pensei que poderia ser de outra forma. Quão tola eu fui? Por isso tinha uma regra especifica sobre não criar expectativa, eu sempre acabava decepcionada. Quando iria aprender? Só queria encerrar aquela noite e ir para minha cama, mas como não poderia fazer isso, iria me esconder na cozinha e esperar que Rosa estivesse ocupada com todos seus convidados e não me procurasse até o final, quando iria aparecer e mostrar que não fui embora. Era um bom plano. Realmente um bom plano. Só tinha um problema. —Por que não me surpreendo de te encontrar aqui? —me irritava só de escutar sua voz —Na verdade, por que todos gordos que encontro em festas estão comendo? Cristiano. Ele tinha um poder sobrenatural de me encontrar quando só queria ficar quieta em meu canto. Parece que adivinha o pior momento para vim me azucrinar. —O que você quer? —perguntei soltando o brigadeiro que tinha acabado de pegar. Não estava mais com vontade. Ele tinha conseguindo estragar isso. —Preciso pedi sua permissão para entrar na minha própria cozinha? —respondeu ele, debochado —Também preciso da sua permissão para poder comer alguma coisa? —Vai se f***r, Cristiano —ele tinha conseguindo acabar com o pouco de humor que ainda tinha e me levantei da mesa, indo em direção a porta. Não queria ficar perto dele, não quando me sentia tão desanimada. —Espera —ele segurou meu braço —Desculpa, eu não quis te chatear. Eu só... —Não quis, mas fez —o interrompi e virei para ele —Solta o meu braço. —Mas estou pedindo desculpa —suas palavras me deixaram mais irritada. —E não sou obrigada a aceitar. —Por que você sempre tem que dificultar tudo, Anna? —perguntou ele irritado e eu o olhei confusa. Do que ele estava falando? Ele que estava dificultando a minha vida, sempre fazia isso. —O que você quer dizer? —perguntei o olhando confusa. —Isso —então me beijou. Isso me pegou totalmente de surpresa. Não sabia como agir, nem se deveria agir. Era o meu primeiro beijo e claro que tinha imaginando isso acontecendo algum dia, mas não esperava que fosse mesmo acontecer, principalmente não daquele jeito. Estava completamente congelada, mas quando sentir ele soltar minha mão e segurar minha cintura, automaticamente coloquei meus braços ao redor do seu pescoço, o puxando para mais perto e o beijei de volta, imitando seus movimentos. Depois do que pareceram horas, na verdade só alguns minutos, nos afastamos. Não o olhei, apenas sair da cozinha. Não entendia o que tinha acontecido. Cristiano havia me beijando. E eu o retribuir. Como isso foi acontecer? Por que ele fez isso? Me sentia muito confusa, minha cabeça parecia uma grande bola de confusão, não entendia o que estava pensado ou sentido ou nem sabia dizer se pensava alguma coisa ou sentia, só estava zonza com tudo aquilo.
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