POV: Yasmin
Eu estou destruída. Por fora, eu sou a "mente", a que planeja, a que organiza os pontos. Por dentro, eu sou um prédio em chamas que ninguém se dá ao trabalho de apagar.
Todo mundo enche a boca para falar que se preocupa com o Benjamin. Falam que amam, que sentem falta. Mas cadê? Ninguém faz um esforço para pisar naquele presídio. Ninguém gasta dez minutos para escrever uma carta. Depois que o caixão descer, como aconteceu com o Guel, não vai adiantar chorar. Não vai adiantar postar luto em rede social.
Eu não falo para elas, mas eu sei. O Ben me disse. Ele sente o silêncio das irmãs, ele sente o vácuo de uma família que virou as costas.
Eu vi o medo no olhar dele na última visita. Ele tenta ser durão, tenta manter a postura de sujeito homem lá dentro, mas eu conheço o meu sangue. Eu sinto o tremor na voz dele. Eu já disse para ele: “Se depender de mim, você nunca mais vai ficar descalço. Quando você sair, a gente vai embora desse lugar maldito.”
Mas e eu? Quem olha para mim?
Estou cansada de me consolar sozinha no escuro. Cansada de sentir essa dor que parece um bicho comendo minhas entranhas. Se eu não fizer as coisas acontecerem, nada acontece. Se eu não for o suporte, tudo desaba. Mas a minha estrutura está esfarelando.
Eu perdi a conexão. Não consigo mais orar, não consigo mais conversar com Deus. Parece que o céu virou de chumbo e as minhas palavras batem e voltam. Se ninguém pode resolver essa agonia, se esse peso não sair do meu peito, eu mesma vou dar um fim nisso. Não sei se vou acabar com a dor ou se vou acabar comigo mesma para parar de sentir.
Eu só queria que alguém, por um segundo, fosse o meu chão, porque eu já cansei de ser o chão de todo mundo.
Olhei para o maço de cigarros e para o papel na mesa. Eu tinha que planejar o próximo carregamento de ferro, tinha que cuidar do dinheiro dos pontos. Mas hoje, a única coisa que eu conseguia sentir era o gosto amargo da solidão.
O Benjamin tem medo de morrer lá dentro. E eu... eu tenho medo de continuar viva desse jeito.