POV: Yasmin
Eles acham que, porque eu choro sozinha e não consigo mais orar, eu sou uma presa fácil. Eles não entendem que a minha dor é o que lubrifica a minha arma. Eu posso estar destruída, mas eu não tremo. O medo morreu em mim junto com o Guel.
Eu estava no beco, esperando o contato de um dos traidores que achava que ia herdar o ponto do Benjamin sem pagar o pedágio. O ar estava parado. Vítor estava a alguns metros, nervoso, mas eu? Eu sentia uma calma aterradora.
Quando o carro parou e o "amigo" do meu primo desceu com a mão na cintura, ele sorriu. Um sorriso de quem achava que estava lidando apenas com a "irmãzinha triste".
— Você devia estar em casa descansando, Yasmin — ele disse, a voz carregada de uma falsa proteção que me dava náuseas. — Esse mundo não é para você.
Eu não respondi. Não havia palavras para o que eu sentia. Eu apenas dei um passo à frente. Ele viu o cano da minha arma antes de ver qualquer emoção no meu rosto.
— Você acha que eu tenho medo de morrer? — perguntei, e minha voz era um fio de navalha. — Eu já morro todo dia um pouco por dentro. Mas você... você ainda ama a sua vida de rato, não é?
Ele tentou sacar. Foi lento. Eu entrei na frente da mira dele sem piscar. Se ele atirasse, seria um favor para mim, mas se eu atirasse, seria justiça para o Benjamin. Eu puxei o gatilho. O estrondo ecoou no beco e o peso no meu peito diminuiu por um milésimo de segundo com o impacto.
Eu sou a mais letal dessa família porque eu não luto por glória. Eu luto porque é a única coisa que me restou. A Lorena tem os filhos e a fúria; o Benjamin tem a sobrevivência. Eu? Eu tenho o vazio. E não existe nada mais perigoso do que uma mulher que já cruzou a linha do desespero.
Se precisar entrar na frente de um fuzil para proteger o meu irmão, eu vou. Mas vou descarregar o meu pente primeiro.
Limpei o respingo no meu rosto e guardei a peça. A dor continuava lá, latente, me esmagando. Mas o caminho para o Ben estava um pouco mais limpo hoje.
— Avisa para os outros — eu disse para o comparsa que ficou no carro, paralisado de pavor. — O silêncio da Yasmin acabou. E a conta da traição vai ser paga em sangue.