POV: Lorena
O contato foi feito através de um dos antigos "vapores" do Benjamin que ainda operava na região. O cara me olhou de cima a baixo quando nos encontramos nos fundos de um galpão abandonado. Ele viu a barriga de sete meses, viu o rosto jovem, e cometeu o erro de sorrir com desdém.
— Tem certeza, moça? Isso aqui não é brinquedo de criança — ele disse, colocando uma caixa de madeira sobre um caixote.
— Eu tenho dois filhos, uma medida protetiva e uma família para vingar — respondi, sem piscar. — Você acha que eu estou aqui para brincar?
Ele abriu a caixa. Lá estava ele. Um oitão, cano reforçado, cabo de madeira escura. O aço brilhava sob a luz fraca, frio e honesto. Diferente das pessoas, a arma não trai.
Peguei o revólver. O peso dele na minha mão foi como um choque elétrico que percorreu minha espinha. Pela primeira vez em semanas, eu não me senti vulnerável. Eu não era mais a menina expulsa de casa; eu era a lei do meu próprio destino.
— Quero duas caixas de munição. E quero que você me mostre um lugar onde ninguém ouça o barulho — ordenei.
— Você sabe usar?
— Eu aprendo rápido.
Nos dias seguintes, enquanto a Sofia brincava com pedrinhas no quintal mato alto da casa nova, eu ia para os fundos, onde a mata era fechada. Eu treinava o saque. Treinava a mira. O Lucca chutava forte a cada estalo seco do gatilho — ele já estava sendo batizado no barulho do aço.
Eu mirava em garrafas vazias, mas na minha mente, cada alvo tinha o rosto do Gustavo. Tinha o rosto de quem atirou no Guel.
A "pobre coitada" estava morrendo. No lugar dela, estava nascendo algo que a Abigail nunca conseguiria controlar. Cada tiro que eu disparava era um recado para o universo: eu estou armada, eu estou pronta e eu não vou parar até que o Benjamin esteja seguro e os traidores estejam no chão.
— Esse é o nosso seguro de vida, Sofia — falei sozinha, limpando o cano da arma com um pedaço de pano velho.
O oitão agora dormia debaixo do meu travesseiro. E, pela primeira vez desde o Ano Novo, eu dormi em paz.