Isadora estava com o olhar fixo na tela central do computador em sua mesa. Ter um pai apaixonado por tecnologia era um grande ponto a favor quando essa era também sua grande paixão. A enorme mesa de escritório posicionada no lado direito da janela tinha três monitores ligados à CPU e a garota raramente se via programando uma coisa só.
Além disso, quando estava sozinha um dos monitores estava sempre com pornografia na tela. Naquela tarde o problema não eram as linhas de códigos que não funcionavam e sim sua mente trabalhando distante dali, distraída com coisas irrelevantes naquele caso.
E com coisas irrelevantes a garota se referia a sexo.
Já fazia uma semana desde o ocorrido com Leonel embaixo da ponte. Nada de novo acontecera desde então, o clima entre ambos voltara ao normal, onde ele só pensava em estudar e concluir tudo primeiro que ela nas aulas.
Como se já não fosse demais ser chamada de a segunda da turma por ter as mesmas notas, o mesmo potencial, mas não a mesma velocidade na hora de programar, agora tinha de ouvir dia e noite Katie e Leon lhe dizendo sobre como ela estava perdendo tempo não avançando a relação com aquele sujeito.
Mesmo sendo gostoso, bonito, inteligente, dotado e um dos homens mais desejados do colégio, Isadora ainda não conseguia simpatizar completamente com o rapaz. Lembrara-se do mesmo a interrompendo durante um debate com o professor em uma aula de C++ e a corrigindo na frente de todos.
O pior de tudo? Ela estava errada!
Nem tivera como argumentar e seguindo um dos milhares de conselhos que sempre ouvira do pai, reconhecera o erro e agradecera, mas por dentro, tudo que queria era poder o enforcar.
Ela era uma mulher, havia tido um momento de i********e com ele. Havia o deixado gozar em sua boca! Ele não poderia ser mais delicado com ela?
Sempre pensara que entendia tudo sobre sexo, que teria o controle quando acontecesse e tudo ocorreria da forma que desejasse, mas ao contrário disso, a cena em que estivera com Leonel não saía de sua cabeça, queria mais e não sabia como lhe dizer isso sem parecer uma completa v***a. E o sujeito parecia não se importar. Isa sentia que para ele, era como se ambos tivessem saído para tomar um sorvete e nada mais.
Não, sorvete não.
Pensar em Leonel e em sorvete já a fazia imaginar sua boca e sua língua em ação novamente com o rapaz. E lá estava ela com a calcinha encharcada de novo. Tinha que descobrir uma forma de resolver aquilo.
—Planeta terra chamando Isadora DJ – Leon sempre abreviava as iniciais do sobrenome da menina e os pronunciava juntos para chamar sua atenção – Por acaso ainda estamos no mesmo universo, meu bombom?
Os olhos negros da garota voltaram-se para sua esquerda onde o rapaz se inclinava olhando para ela. Só então se dera conta de que estava com as mãos paradas sobre o teclado, sem digitar nada.
Retirou os óculos e limpou os olhos tentando se lembrar a quanto tempo se encontrava distraída daquele jeito. Finalmente torceu os lábios com um esboço de sorriso num canto, encarando o amigo.
—Há quanto tempo eu estava dormindo acordada? – sussurrou.
—Precisos e extremamente longos doze minutos – dissera o rapaz erguendo uma sobrancelha – Sabia que o tempo corre em ritmo diferente para quem está dormindo e quem está esperando? – comentara sarcástico – Em um instante estava falando sobre seu programa de segurança para o shopping e no seguinte ficou congelada, presa em outro mundo… – colocando uma das mãos na cintura, Leonard levara o indicador da outra até o queixo – deixe-me adivinhar, sonhando com um certo amigo dotado que temos em comum.
—Não é que eu queira…
—Girl, é claro que você quer! – Leon adorava interromper as divagações de Isadora, mesmo sabendo que ela odiava – Você conferiu ao vivo, muito vivo, por sinal, ativo e em cores o maravilhoso p*u enorme de Leonel Del’Aventura, um dos bofes que a maioria pagaria para sair. Não finja que já o esqueceu.
—É claro que não me esqueci, só queria não pensar tanto nisso…
Leonard colocara as duas mãos dos lados da cintura, ambos polegares nos bolsos da calça preta justíssima e suspirara. O rapaz de vinte anos tinha um metro e setenta e cinco e pesava sessenta e cinco quilos, causando inveja para Isadora e Katie, que sonhavam com aquele corpo.
Não bastasse apenas ser alto e magro, o sujeito tinha a pele branca como a neve, lisa e macia como um pêssego. Os lábios naturalmente rosados pareciam estar sempre cobertos por uma camada de batom que nunca desaparecia. Tinha olhos tão negros quanto os de Isa e seus cabelos eram escuros e lisos, com um tom azulado quando estavam molhados.
Puxara uma das cadeiras de escritório e se sentara bem ao lado de Isadora, encarando a amiga nos olhos. Esticara as mãos e segurara ambas da menina, a puxando para mais perto de si. Os óculos da garota escorregaram, parando na ponta de seu nariz, mas ela não soltou as mãos do rapaz para os arrumar.
—Veja bem, meu anjo – dissera Leon, parecendo mais calmo, como quem fala com uma criança – Conheço um escritor que costuma dizer o seguinte: no nosso mundo existem dois tipos de pessoas, as que vivem plenamente com sua sexualidade, satisfeitos e gozando sempre mais, explorando novidades e opções e aqueles cuja vida s****l frustrada se reflete em sua indecisão e falta de foco em todos os projetos sociais que executa.
—O que quer dizer? Que estou me tornando a segunda opção? – Isa ficara surpresa com as palavras um tanto diretas. Leon costumava falar sobre tudo em tom de brincadeira.
—Não, amor, quer dizer que todas as pessoas, sem exceções, são sempre movidas por desejos sexuais. Alguns colocam o sexo como prioridade e acabam ferrando tudo porque se esquecem que sexo é um complemento para tornar a vida mais gostosa. Sexo é a cereja no bolo, aquele detalhe que você anseia em saborear por último porque sabe que vai valer a pena. Já outros esquecem a importância que o sexo tem e sem perceber acabam frustrados sem conseguir gozar outras realizações porque, afinal de contas, sexo é o grande prêmio em tudo que sonhamos.
—Bem confuso.
—Vamos simplificar então. Entenda assim. Você já pensava em sexo vinte e quatro horas por dia e nós sabemos disso – a garota ruborizara – A diferença era que sabia se satisfazer sozinha, tinha tudo sob controle. Agora, mesmo que saiba que pode gozar sozinha, você quer gozar com o gostosão da sala – esse sim se parecia com Leon falando – Mas não disse isso para ele, não deu dicas e… é triste dizer isso, mas acho o Leo meio devagar. Sabe como dizem por aí, cérebro e músculos não combinam e Leonel tem os dois, mas não sabe usar do jeito certo, ao que percebemos.
—Vai se irritar se eu disser que continua confuso? – Isadora rira torcendo os lábios.
Leonard torcera os lábios ao mesmo tempo que ela e ambos se encararam nos olhos por alguns segundos sem dizer nada.
—Não há nada de errado com você em querer t*****r, girl, vamos dizer que o único problema está na comunicação. Você tem um bofe perfeito que está na sua, mas vocês são dois nerds incorrigíveis que não sabem abrir o jogo um com o outro. Ele provavelmente está nesse exato minuto perdido tentando programar algo também. E eu não vou deixar minha melhor amiga frustrada logo com sua primeira transa. O que você precisa é tomar a iniciativa e por sorte tem o amigo perfeito para te ajudar com isso.
—Vou conseguir me concentrar nos estudos depois disso? – indagara ela.
—Você não ouviu nada do que eu disse antes? Uma vida s****l plena é a chave para o controle e sucesso em tudo. Você já é perfeita, não tem com o que se preocupar – respondera o rapaz puxando a menina e a beijando nos lábios.
Após o selinho, Isadora contemplara a expressão no olhar de Leon, uma das sobrancelhas finas arqueadas e o sorriso peralta nos lábios. Era difícil confiar, pois Leon era o tipo que não se importava em ganhar ou perder, sempre dava a volta por cima e virava as coisas a seu favor, a qualquer custo.
—Quer saber? – comentara – Dei tempo demais para ele se manifestar. Se esse é o único jeito, vamos tentar. O que tenho a perder?
Além do meu orgulho e dignidade? – pensou sem dizer em voz alta.
Naquela noite.
Embora os alunos do EM no Delphine fossem forçados a usar uniformes, o mesmo não se aplicava aos estudantes dos cursos técnicos e isso permitia que as garotas transformassem a escola em uma passarela de desfile de moda.
Quando Isadora virara a esquina junto de Leonard e Katie, o portão principal já estava aberto, mas dezenas de alunos continuavam do lado de fora fumando, namorando, estudando ou apenas jogando conversa fora enquanto o sinal para o início das aulas não os forçava a entrar.
Sendo o Delphine um dos colégios mais caros e conceituados de San Dimas, a maioria dos alunos eram nerds assumidos, mas fora das salas de aulas eram jovens normais, os rapazes ostentando carros e motos e as garotas exibindo roupas, penteados e reparando umas nas outras.
Isadora era como uma ônix em meio a um par de pérolas, considerando sua pele de cor do ébano comparada à pele branca como leite dos dois amigos que sempre a acompanhavam. Nessa noite a garota vestia uma camiseta branca sob a jaqueta jeans da Hard Rock Café, além de calças jeans justas e botas que iam até quase os joelhos, como gostava.
O vento, indicando as chuvas que cairiam em breve, balançava as copas das árvores da mesma forma que esvoaçava os cabelos de Isadora, deixando em destaque os grande brincos de argolas finas e douradas que usava. A completa ausência de maquiagem e os óculos entregavam a nerd logo de cara.
Katie estava ao seu lado, vestia uma jaqueta jeans duo com mangas brancas de moletom e calças legging pretas com botinhas marrons que lhe cobriam até pouco acima dos tornozelos. Diferente da colega, a loira amava maquiagens que se destacavam em sua pele clara, com lápis escuros nos olhos verdes e batom vermelho que realçava seu sorriso à distância.
Os cabelos dourados desciam lisos até pouco abaixo dos ombros e Katie os jogava com o vento como quem está desfilando para uma plateia. De certa forma era como ela se sentia.
—Então – sussurrara ao ouvido da amiga – Hoje é o dia que minha princesa se declara e domina o coração de um garanhão selvagem…
—Não sou princesa e nem vou domar garanhão selvagem nenhum, relaxa, Barbie – respondera a garota enquanto conferia os alunos que se amontoavam pelos cantos à procura do sujeito.
—Hum… – Leonard esboçara um sorriso do outro lado exibindo os dentes brancos e perfeitos – Então a gata borralheira coloca as unhas de fora.
—Gente, menos pressão, lembram? Disseram que não ia ter pressão…
Katherine e Leon se inclinaram para frente a fim de se encararem. Isadora, no meio do trio, observara a expressão no olhar de ambos. Aqueles sorrisos maléficos não eram sinal de que a deixariam em paz facilmente.
Por fim, o grupo entrara para o colégio, parando junto às mesas do amplo refeitório. Na mesa ao lado duas outras alunas do curso de TI falavam sobre os rapazes mais desejados do colégio e como não poderia faltar, Leonel era um dos nomes comentados.
De acordo com elas, o sujeito estava na rede de uma das amigas. Isadora e a dupla de amigos apenas ouviam, nada concreto, apenas fofocas. Mas sendo as garotas que falavam Phoebe P. Dawn e Sharon Carter, o trio podia imaginar quem era a outra citada na conversa, afinal, as duas eram tietes de uma aluna também do curso de TI, a mais conhecida aluna do colégio.
—Meninas, vamos dar uma voltinha lá fora antes que o sinal da aula toque – dissera Leon se levantando – Estou sentindo um cheiro de peixe por aqui, acho que vão servir p*****a na lanchonete hoje…
Isadora e a amiga se encararam quase ao mesmo tempo em que Phoebe na mesa ao lado, voltava o olhar para o rapaz. Leonard adorava provocar. A morena de olhos verdes apenas torcera os lábios se virando para a amiga com descaso pelo comentário, mas Leon sabia que as atingia e adorava isso.
Vadias – sussurrara já saindo ao lado de Isa e Katie em direção ao portão.
Logo que saíram para a calçada diante do portão de entrada novamente, Isa e os outros viram quando o Camaro Cupê SS 2019 preto ouro n***o estacionou. Era um dos carros do pai de Leonel e raramente o sujeito ia com ele para a aula.
Quando a porta se abriu, o som do interior preencheu o lado de fora.
♫♪ Back in black
♫♪ I hit the sack
♫♪ I've been too long I'm glad to be back
♫♪ Yes, I'm let loose
♫♪ From the noose
♫♪ That's kept me hanging about
♫♪ I've been looking at the sky
♫♪ 'Cause it's gettin' me high
♫♪ Forget the hearse 'cause I never die
♫♪ I got nine lives
♫♪ Cat's eyes
♫♪ Abusin' every one of them and running wild
Leonel saíra e pressionando um botão no controle o som parou. Todos por perto disfarçavam não estarem babando na presença que aquele carro causava. O sujeito acenara para Isa e os amigos do curso e dera a volta no carro, indo abrir a porta do lado do passageiro.
O sinal para a primeira aula soara ao mesmo tempo em que o rapaz ajudava uma linda loira de olhos azuis a sair do carro. Isadora ficara muda, em um piscar de olhos as palavras ensaiadas para aquela noite tinham ficado perdidas em algum lugar de sua mente confusa. Leon e Katherine estavam boquiabertos, as fofocas das vadias estavam certas. Trixie St. Luna, a rainha das patricinhas e piranhas do colégio Delphine de acordo com o rapaz, havia lançado a rede sobre o garanhão indomável. E ele aparentemente tinha sido dominado.
—Novo plano – sussurrara Leon ao ouvido de Katie – Vamos ter de espantar algumas vadias para nossa princesa sambar na passarela, se é que me entende.
—Entendo perfeitamente – respondera a loira com outro sussurro.
Trixie era aquela combinação perfeita para vilã de contos de fadas. Nascida em uma família rica e carregada de influências, ela tinha dinheiro e charme, além de ser linda e extremamente inteligente, se equiparando à Isadora nas aulas.
Era surpresa que Trixie e Leonel ainda não tivessem assumido uma relação mais séria, afinal, ambos já haviam sido vistos juntos em outras ocasiões e suas posições na sociedade somado aos nomes de suas famílias faziam deles o tipo de casal ideal.
Tão logo saíra do carro, Trixie enlaçara seu braço ao de Leonel. Quando os dois passaram por Isadora, a loira sorrira e acenara para a menina. Isa ficara apenas imaginando se o colar de pérolas, brincos e anéis que Trixie usava eram cópias ou autênticos. Tudo naquela garota parecia brilhar. Não seria surpresa se seu pai a fizesse ser vigiada por seguranças vinte e quatro horas por dia.
No entanto, havia coisas que a nerd sabia serem imensamente falsas. O sorriso e o cumprimento estavam no topo da lista. Trixie não aceitava ninguém que não a idolatrasse e qualquer um fora do círculo de patricinhas que andava não estava incluso nas amizades.
Mas assim como o pai, bancário, Trixie sabia que diante do público a melhor atuação era a de carisma e simpatia por todos.
Logo que o casal passara, o trio de amigos seguira enquanto o zelador já começava a fechar o portão. Phoebe, que notara como Isadora e Katie olhavam para o casal, fitara a garota de frente.
—Nunca viram um casal feliz antes? – indagara em tom de deboche.
Leon olhara para Isadora como quem pede uma autorização não verbal e antes que a menina dissesse qualquer coisa, o amigo se voltara para a morena arrogante a fim de iniciar uma discussão. Isa, no entanto, o tomara pelo braço, fazendo com que o mesmo a encarasse.
—Não vale a pena. Sabe como funciona o colégio – sussurrara – Não vamos começar algo que irá prejudicar a todos. Além de quê, Leonel é livre. Trixie e ele não fizeram nada de errado, temos de aceitar os fatos.
—Mas essa deveria ser a sua noite, meu anjo. Não diga que está pensando em deixar barato. Porque eu não estou! – sussurrou em resposta, se alterando no final, com as mãos na cintura.
—Não disse que estava desistindo de nada – dissera Isadora – Apenas não é a melhor hora nem lugar. Somos mais inteligentes que isso, melhores que isso.
O rapaz suspirara, se recompondo.
—Tem razão, pego ela na saída.
—Não pega não – emendara a garota.
—Ah, capricornianas, sempre tão chatas no melhor da festa…
—Arianos, tão explosivos e bobinhos – comentara Isadora, tomando o amigo pela mão e o puxando enquanto Phoebe continuava ao lado de Sharon – Mas devo dizer que os amo. Vamos logo para a sala.
Katie erguera as sobrancelhas e suspirara fitando Leonard.
—Ela tem razão. Temos de ser sensatos, mas apenas para ficar registrado, teria ajudado a dar uns bons socos naquelas vadias – dissera abraçando Isa pela cintura e seguindo com os dois.
—Eu sei, querida – respondera Leon para a loira, balançando a cabeça em tom inconformado – Um dia ainda iremos convencer nossa princesa a se divertir no nosso ritmo.