Capítulo 7

1069 Palavras
Mia Tudo aconteceu muito rápido. Quando Manoel chegou e me viu sentada no sofá, esboçou um sorriso debochado e aquilo foi o pingo de água que faltava para fazer meu balde de paciência transbordar. Só fiquei aguardando a hora certa. Ele falou umas gracinhas e quando se aproximou de mim, enfiei a faca em sua barriga duas vezes e quando ele caiu, passei a faca em seu pescoço. Enrolei a faca em um pano qualquer e escondi no fundo da mala. Precisava sair dali imediatamente, antes que alguém suspeitasse que havia algo de errado. Nessa parte onde moro, as casas são muito próximas e as pessoas se acostumam com a rotina uma das outras. Com certeza já sabem que eu cheguei, e a rotina normal são gritos, tanto meus quanto dele, quando notarem que ele chegou e nada aconteceu, vão perceber que algo aconteceu. Para me ajudar ninguém nunca apareceu, mas para me denunciar eles nem vão pensar duas vezes. É madrugada e mais uma vez a rua está desértica, ando arrastando minha mala. Caminho na direção da estrada na esperança de conseguir alguma carona até a rodoviária, porque a essa hora não tem ônibus por aqui. Um vizinho meio bêbado passa por mim e me cumprimenta, deve estar voltando de alguma boate. O mais engraçado é que no dia que eu precisei, não apareceu ninguém na rua para me ajudar, mas hoje tem uma testemunha para dizer que me viu na rua neste dia. Depois que o homem passa, xingo minha falta de sorte e passo a mão no rosto. Acelero o passo para chegar logo na pista. Começo a sinalizar para os carros, e como da primeira vez, os carros não param. Continuo fazendo sinal para os eles, até que finalmente consigo a carona. Era uma mulher. — Você está bem? - Ela quis saber. — Sim, eu só preciso de uma carona até a rodoviária. Ela me analisou, mas decidiu abrir a porta do carro. Me senti extremamente aliviada e entrei no veículo. A mulher puxou assunto, mas me fiz de cansada e evitei conversa ao máximo. Essas conversas despreocupadas são perigosas, é aí que saem as coisas que te comprometem. Encostei minha cabeça no vidro e fingi adormecer, quando chegamos, deixei que ela me avisasse. Agradeci a carona, peguei minha mala e deixei o carro indo na direção do guichê. Depois de comprada a passagem para o interior, me sentei para esperar a saída do ônibus que levaria algumas horas. Queria muito chegar em algum lugar que eu pudesse descartar a faca suja sem me comprometer. Me levanto e vou até o banheiro, mas ao chegar, percebo que não é uma boa ideia. Mesmo durante a madrugada há um volume de pessoas aqui, entrando e saindo, alguém pode notar um volume estranho e por curiosidade desenrolar o pano e descobrir que é uma faca. Entro em um box só para disfarçar, mas descarto a ideia de jogar a faca fora ali mesmo. Ela está suja de sangue e deve ter minhas digitais gravadas nela. Saio do banheiro e vou aguardar pelo ônibus. Em um primeiro momento está tudo normal, espero o ônibus e quando ele chega eu embarco, espero a saída e me sinto mais aliviada ainda quando ele começa a se movimentar. A cada passo mais perto da casa de minha mãe, a cada obstáculo vencido, me sentia mais tranquila e mais distante das loucuras de meu marido e das consequências de tê-lo matado. Cochilo com o rosto encostado na janela, pois ainda é muito cedo, mas o dia já começa a clarear lentamente quando o ônibus é parado na pista. Acho aquilo estranho. Todas as vezes que fui visitar minha mãe, isso não havia acontecido. Vejo policiais entrando no veículo e então minhas entranhas derretem, minhas pernas ficam bambas e todo meu sangue foge de meu corpo. — Documentos, por favor - exige um policial. Não podia nem mesmo dizer que estava sem documentos, pois para comprar passagens preciso deles. Mentir meu nome é idiotice, vão exigir o documento e tudo está perdido. Estou sem saída, não há o que fazer. Agora tudo o que resta é rezar para eles só estejam passando de rotina. O que ainda assim seria estranho. As pessoas vão dando os documentos ao homem, que analisa um por um sem pressa, e ele está cada vez mais próximo de mim. Há mais um policial na porta do ônibus, me impedindo de tentar fugir. Respiro fundo quando chega a minha vez. Abro a minha bolsa e finjo não estar encontrando o documento. — Não estou achando, policial. Ele me olha, analisa e estende a mão. — Eu vou achar, me dê sua bolsa. Vi que não havia saída. Balancei a cabeça e voltei a procurar, entreguei o documento em sua mão e seja o Deus quiser. Ele lê o nome, compara a foto da identidade com o meu rosto e em seguida ele tira completamente o meu chão. — Me acompanhe, senhora. Tremendo dos pés a cabeça, eu o sigo. Finjo que esqueço a mala, mas ele a pega e traz consigo. Fico me perguntando onde foi que errei. Eu fiz tudo certinho, tomei todos os cuidados. Desço do ônibus e ele chama o outro policial. Fico em pânico quando ele dispensa o veículo que se vai. O policial coloca a mala sobre o porta malas do carro e a abre. Me arrependo de não ter descartado no banheiro quando pude. Ao mexer nas peças de roupa, ele puxa o embrulho e nem sinto mais nada, estou anestesiada depois de tantas sensações percorrerem meu corpo. Ele retira o embrulho e o desenrola. Tira a faca de dentro do embrulho, a analisa e olha para mim. Em silêncio, ele pede ao colega um saco onde ele coloca a faca encontrada em meus pertences e que tem minhas impressões digitais, sendo impossível negar que ela é minha, nem preciso tentar. Seu amigo vem na minha direção com uma algema, prende em meu pulso e me dá o que eu temia tanto desde o momento que deixei minha casa com aquele traste agonizando: a voz de prisão. — Senhora Mia Lacerda, você está presa. Sendo acusada pelo assassinato de Manoel Lacerda. O chão se abre sob meus pés e eu não sei o que será de mim e de meu filho. Irei em julgamento e com certeza serei presa. Acabou para mim.
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