Fanny
O barulho dos disparos dentro da boate me fazem me abaixar, lembro imediatamente que meu pai enlouqueceria se descobrisse que eu me enfiei em uma boate estranha e que estava no meio de um tiroteio. Fiquei contente com minha constatação.
— Para cá, venham para cá - escuto uma voz masculina e então percebo se tratar de Luigi.
Ele se escondeu atrás do balcão de bebidas, estava arrastando minha prima e me chamando para me esconder lá também. Resolvi fazer um trocadilho com o cara.
— Você vem sempre aqui?
Engatinho e me sento atrás do balcão. Ele ri de minha pergunta.
— Em dias de tiroteio é a primeira vez, mas pra beber um pouco, eu venho sempre.
Um tiro derruba uma mesa próxima e eu grito com o susto, me encolho e ele me abraça me protegendo. Ele não tem ideia de que sou totalmente acostumada com sons de tiro e que não estou medo, mas o som repentino me pegou de surpresa. Se eu puxar minha arma de onde estou, sou capaz de matar os que estão causando a confusão facilmente, mas com essa atitude eu chamaria demais a atenção e em breve teria capangas do meu pai no meu rastro. Melhor me fazer de assustada e disfarçar quem sou.
Aproveito para inalar o cheiro amadeirado do perfume dele, adoro homem cheiroso.
Escuto alguns gritos de dor que denuncia que algumas pessoas foram baleadas. Algumas pessoas que estavam mais próximas à porta puderam fugir, o restante precisou se esconder do jeito que dava e algumas delas não tiveram sorte.
Quando os tiros acalmam-se, Luigi se levanta e vai em busca de algo. Em um minuto o homem está me protegendo, no segundo seguinte ma larga em busca de... uma bolsa? Não acredito que fui abandonada por causa de uma bolsa.
Ele pega a bolsa e vai até uma pessoa baleada, só o observo. O que ele vai fazer?
Sinto alguém se aproximar de mim, olho para o lado e vejo minha prima.
— O que ele está fazendo?
— Não faço a menor ideia.
Mas aos poucos começamos a compreender. Ele estava estancando o sangramento dos feridos, fazendo curativos e em algum momento ele chamou a ambulância.
— Será que ele é enfermeiro? - Me pergunta Alessa.
— Deve ser - respondo. - Alessa, precisamos ir. Ele chamou a ambulância, talvez se aparecermos em alguma rede social ou canal de TV, meu pai vai desconfiar e virá atrás de nós.
Ela concorda.
— Essas confusões com tiroteio sempre dão jornalistas e polícia.
— Então vamos, mas antes vou ali agradecer ao senhor enfermeiro - falo de brincadeira e minha prima ri baixinho.
Vou até ele que está fazendo um curativo em um homem.
— Luigi - chamo e ele levanta o olhar, um sorriso bonito surge em seu rosto. - Queria te agradecer pela ajuda de hoje... e ... bem, eu estou indo.
— Não é perigoso ir sozinha? Esse bairro é barra pesada.
— Não, eu estou de carro.
— Ah, que pena... - Olho-o confusa.
— Por que pena?
Ele sorri e balança a cabeça. Se levanta e eu ainda não tinha reparado o quanto ele é alto.
— Porque eu ia oferecer carona, trabalho em um hospital aqui perto, e às vezes quando saio do plantão passo por aqui para aliviar a mente antes de ir para casa. Sabe, hospital tem muita coisa triste e pesada de se ver.
Balanço a cabeça concordando com ele, pois me lembro muito bem da morte da minha mãe e dos dias no hospital.
— Quer o meu número de telefone ou eu anoto o seu? Assim podemos combinar alguma coisa.
— Você vai me ligar ou mandar mensagem mesmo ou só vai pegar meu número e esquecê-lo no fundo da bolsa? - Ele pergunta e eu quase caio na gargalhada. Que mulher em sã consciência faria algo assim com um cara tão lindinho quanto ele?
— Definitivamente, eu não vou deixar seu número perdido no fundo da bolsa.
Ele ri e eu saco meu celular.
— Ele pode ficar perdido no fundo da minha agenda. - Completo minha piada, mas eu não faria isso também.
Ele riu outra vez.
— Isso não é reconfortante.
Alessa faz um gesto para mim, para que me apresse. Salvo em minha agenda no celular rapidamente e sigo minha prima para fora da boate.
— Te mando uma mensagem - falo antes de deixar o lugar.
Andamos rapidamente até o lado de fora e já é possível ver na estrada as luzes brilhantes dos carros de polícia e ambulâncias.
— Mais um pouco e seríamos presas - fala Alessa andando apressada ao meu lado.
— Por que seríamos presas?
— Você está armada até os dentes aí em baixo da jaqueta, se eles te pegam iam achar que você era um dos encrenqueiros. E eu sou de menor em uma boate. Seríamos levadas para a delegacia.
Suspiro, pois mais uma vez ela tem razão. Chegamos em meu carro e aceleramos para o lado oposto de onde vinham a polícia. Melhor evitar.
— E agora, para onde iremos?
Pergunta ela, pois pretendíamos passar a noite na boate até quando resolvessem expulsar a gente.
— Não sei... boate pode não ser o melhor para nós agora, o que acha de só andarmos de carro por aí, comer alguma coisa... até a gente estar morrendo de sono, aí voltamos para casa.
— Meu tio vai colocar metade da Sicília atrás de você.
— Então, o que acha de sumirmos por dois dias, assim ele vai colocar a Sicília inteira.
— Você não presta - Ela fala e nós duas gargalhamos.
Coloco o som alto e nós duas rodamos pela estrada até o marcador de combustível mostrar que o carro precisava abastecer. Cantamos alto, abri o teto do carro e levantávamos as mãos para o alto, sentindo a brisa fria. Como estava de madrugada, o ar estava bastante gelado, mesmo que não estivéssemos no inverno ainda.
O GPS nos aponta um posto próximo e vamos na direção dele para abastecer meu carro. Continuamos nosso caminho cantando e curtindo até que um farol muito alto vem na minha direção e eu perco totalmente a noção de onde estou. O farol me deixa cega e eu não enxergo a estrada e acabo saindo dela, o problema é que estávamos em uma curva e, como estávamos nos divertindo e cantando, não havia prestado atenção nesse detalhe.
O carro escorrega para fora da pista e a descida é muito íngreme, eu tento frear, mas o carro só acelera. O desespero ocupa meus pensamentos e eu tenho certeza que Alessa também está morrendo de medo. Ainda tento frear desesperadamente, mas não dá certo. O pneu canta sempre que freio, mas sobe poeira e o barulho de pedras derrapando me diz que o terreno tem muitas pedras soltas e como é uma descida, isso torna a parada do carro na velocidade que está muito improvável.
— *Merda! - xingo, pois vejo as árvores de uma pequena floresta se aproximando e o carro não para de correr.
Tento ainda frear, torcendo que em algum momento ele encontre um terreno um pouco melhor para parar. Isso acontece, mas na velocidade em que estávamos, não havia como não acontecer nada, só se acontecesse um milagre e eu não sou uma pessoa religiosa.
Em algum momento, o terreno deixa de ser tão instável e o carro consegue frear, mas devido a velocidade ele gira e eu não consigo saber bem, o que aconteceu, que lado que se chocou, o que aconteceu conosco... quando ele se choca na árvore, um som estrondoso toma os meus ouvidos e eu bato com a cabeça no volante.
***
Luigi
Todos os dias vejo pessoas acidentadas em acidentes de estrada: motocicleta, carro, caminhão, atropelamentos... principalmente no período da noite e madrugada, quando as pessoas estão alcoolizadas. Quando meu plantão pega o horário da madrugada, é quando fico mais cansado, não pela noite de sono perdida, mas pelo trabalho intenso. Toda hora chega uma vítima de acidente de trânsito.
Há alguns dias resgatei uma jovem agredida, algo que também ocorre muito nessa região, praticamente todos os dias temos pacientes na mesma situação que a Mia. Felizmente ela teve alta esta tarde e quando terminei meu plantão, eu vim tomar uma cervejinha na boate que fica perto do hospital.
Mas a noite que prometia ser tranquila, passou a ser uma das mais cheias da minha vida. Meu sonho sempre foi ser médico, e vindo de uma família humilde, o que sempre ouvi foi que meu sonho seria impossível, mas batalhei e consegui e hoje faço de tudo para cumprir meu juramento. Por isso não podia deixar os baleados dentro da boate sem os primeiros socorros.
Infelizmente tive que dar prioridade às mais feridas e com maior risco, parando seus sangramentos e fazendo curativos, mas infelizmente nem todos puderam ser socorridos. Do tiroteio desta noite, duas pessoas foram a óbito e é sempre muito triste. Mas luto para ajudar aqueles que ainda tem chance de vida e é isso que faço durante bastante tempo, mesmo depois que a ambulância chega.
Depois de fazer tudo o que posso pelas pessoas, os policiais me pedem para relatar o acontecido, e depois sou levado como testemunha, embora eu não conheça nem tenha visto os atiradores. Foi tudo muito rápido, e logo que ouvi os tiros me escondi atrás do balcão, puxando as meninas comigo.
Algumas horas passam e eu acho que finalmente vou para casa, pois poderia testemunhar na delegacia no dia seguinte, quando ouço o rádio do policial notificando um acidente na estrada. Por algum motivo, sinto a necessidade de ir até lá.
— Policial, por favor, me deixe ajudar essas pessoas?
— Senhor Luigi, o senhor já fez muito por essas pessoas, eles já estão na ambulância e serão levados para o hospital mais próximo.
— Não, não me refiro a estas na boate. Aqui já fiz tudo o que eu podia. Me refiro ao acidente, a ambulância aqui está lotada e terão que levar ao hospital, instalar os pacientes... não poderão ir agora. Terão que acionar outra equipe para estarem no local, e isso pode demorar. Eu posso prestar os primeiros socorros.
O policial analisa, pensa, e eu por algum motivo sinto medo que ele negue meu pedido.
— Tudo bem - ele fala e eu me sinto aliviado - Vou chamar uma viatura que possa levá-lo.
Em alguns minutos, uma viatura chega e sou levado ao local do acidente, era bem distante do local da boate, quase chegando na outra cidade. Sem saber o porquê, sinto um aperto em meu peito.
Chegando no local, era uma curva e dava para ver na descida rastros das tentativas de freio do motorista. O dia já estava amanhecendo, os primeiros raios de sol iluminavam ainda fracamente a trajetória do carro que saiu da pista e se chocou nas árvores logo abaixo.
Já havia ambulâncias quando chegamos, desta forma minha presença não seria mais necessária. Devem ter vindo ambulâncias de lugares mais próximos, pois as pessoas já haviam sido retiradas das ferragens. Ao que parece o carro bateu com a traseira, e duas jovens bateram com a cabeça causando desmaio nas duas.
Um enfermeiro de uma das ambulâncias me faz um breve relatório quando me identifico como médico. Peço para ver as duas vítimas, e quando chego na primeira ambulância, reconheço a moça que estava dentro dela, era a garota que estava com Fanny no bar. Faço perguntas rápidas de seu estado, e me informam que ela está fora de perigo e deve acordar em breve, embora ela tenha que ir até o hospital para fazer os exames e descartar o risco de qualquer complicação.
Sou levado até a outra ambulância, já apreensivo pelo o que poderia encontrar. Torcia para que a pessoa ali não fosse Fanny, mas infelizmente era e o caso dela parecia ser mais grave do que o da prima.