Capítulo 3

1697 Palavras
Mia Hoje era um daqueles dias que eu ficava tensa com a chegada de Manoel, ele era um homem agressivo que não podia beber que qualquer coisa, por mínima que fosse, era motivo para que ele perdesse o controle. E as coisas tinham piorado nos últimos meses quando ele começou a usar drogas. Eu estava casada com esse homem havia seis anos, me casei com vinte e quatro anos e hoje com trinta não sei mais se aguento essa tortura por muito mais tempo, me sinto no meu limite. Tivemos um filho, mas quando as agressões aumentaram, eu preferi deixá-lo com minha mãe. Prometi que daria um jeito e que o buscaria assim que desse um jeito em minha vida. Bernardo tem três anos de idade e, para a minha infelicidade, é uma cópia do pai, o que me faz lembrar do maldito sempre olho para meu filho. Mas isso não muda meu amor por ele. Bernardo é um menino amoroso, e eu sinto tanta falta de meu filho. Olho para o relógio na parede da cozinha simples da pequena casa em que vivemos e vejo que são quase meia noite e o homem ainda não chegou, a noite promete. Promete um pesadelo. Minhas malas já estão prontas embaixo da cama há uma semana, não sei bem o motivo, mas ainda não fui embora. Meu plano é voltar para a casa da minha mãe e seguir minha vida. Fico sentada no sofá esperando, não sei bem o quê. Esperando coragem para fugir? Esperando-o chegar e me dar mais uma surra porque o vinho acabou? Quando esse pensamento passa por minha cabeça, ouço a tranca do portão sendo aberta. Meu corpo se retesa e um frio, como pedras de gelo, pousam em meu estômago. Vamos ver qual será o motivo de hoje. Ele entra cantando, bom sinal? Difícil dizer. As pedras fazem barulho sob seu calçado, ele tropeça e cai. Começa a xingar, o cachorro late, deve ter se assustado com o barulho, mas logo o som é diferente, como se ele estivesse festejando a chegada do dono. Pelo menos o cachorro festeja. Mas em seguida escuto seu ganido, meu corpo se retesa ainda mais. Ele bateu no cachorro. A porta da sala se abre. — Não foi dormir, por quê? – Questionou ao me ver sentada na sala, olho para as paredes. Sua voz sai enrolada, e ele cambaleia ao bater a porta, fechando-a. — Estou sem sono. — Sem sono a essa hora? – Ele olha para a TV desligada – Nem vendo TV? Onde ele está? — Ele quem, Manoel? – falo desanimada. — O safado que te manteve acordada até agora! – Ele vem na minha direção e cambaleia novamente, quase cai, mas se sustenta em pé. Seus olhos são de pura fúria, a parte branca de seus olhos estão vermelhas e destacam suas írises azuis. — Não tem ninguém aqui. — Não mente para mim, p*****a! – O primeiro tapa vem, meu rosto arde. Não me surpreendo, é como se eu estivesse esperando por ele. — Não estou mentindo, vasculhe a casa, Manoel. – Falo mais alto, estou realmente cansada de tudo isso, a esperança de que ele vai melhorar, que vai se arrepender, que vamos poder seguir nossa vida em paz e criar nosso filho... tudo se esvaiu. — Não fale comigo nesse tom, mulher. – Ele segura em minha roupa e me suspende, colando meu rosto no seu rosto suado e cheirando a álcool. — Ou o quê? Você vai me bater? – Solto uma risada amarga. — Não me provoque, Mia, não me viu furioso ainda. — Então bate em mim até me deixar morta no chão, Manoel, já me espanca até desmaiar, então me mata de uma vez. A fúria no rosto dele é notável, dá para perceber que nunca esteve tão furioso como hoje. Talvez seja melhor assim, morrer de tanto apanhar hoje vai aliviar o resto da minha vida. Ou melhor, não terei mais vida, não sofrerei mais. Ele urra no momento que desfere um soco em meu rosto, sinto uma dor atravessar meu rosto e minha cabeça, meu nariz se quebrou. Ele não se sente satisfeito e desfere uma sequência de socos quando meu corpo ainda está preso por seu aperto. Sinto ossos estalarem em minha face, minha mandíbula, sinto o gosto de sangue em minha boca, ache que perdi um dente. Ele me solta e caio sentada no sofá, me sinto tonta, tudo roda ao meu redor. Ele dá passos para trás recuperando o fôlego, fala palavras incompreensíveis e cambaleia novamente. Olho para a porta aberta, o ar gelado entrando por ela era um alívio para a dor em meu rosto. — Nem pensa em fugir, você é uma p*****a e precisa de uma lição. Não pode me trair assim. Ele vem na minha direção quando descido tentar fugir, estava determinada a morrer, a deixar essa vida e parar de sofrer, mas ao ver a porta aberta vi uma oportunidade e vi meu filho esperando por mim. Não posso morrer, Bernardo precisa de sua mãe. Mas quando tento seguir para a porta, sinto suas mãos se fecharem em torno do meu cabelo, ele me puxa com força e eu perco o equilíbrio e caio no chão. Levo uma sequência de chutes nas costas e na barriga. As costas levaram os primeiros chutes e na tentativa de me virar levei dois chutes na costela que estão doendo muito, talvez tenha quebrado uma. Quando consigo me virar, levo mais um chute na barriga. Ele parece ter se cansado, o álcool em seu sangue está cobrando pelo esforço que está fazendo, ele cai sentado no sofá. A aparência dele é de pura exaustão. Me levanto lentamente, estou com dor no corpo todo, minha cabeça está doendo e girando, sinto o sangue escorrer por meu rosto e ando na direção da porta. Não ouço nenhuma palavra vindo dele, olho para trás e ele está apagado. Não perco a oportunidade e saio para fora, tento andar rápido, mas as dores não permitem. Atravesso o quintal e abro o portão do quintal, saindo para a rua que está desértica. Não tem ninguém aqui, ando na direção da estrada principal, talvez eu consiga ajuda. Minha cabeça está girando e doendo, cada passo é um martírio, só não me permito desmaiar aqui porque me lembrei de meu filho, se não fosse por ele, aceitaria a morte de bom grado. Alcanço a pista e tento fazer sinal para os poucos carros que passam, mas nenhum deles param para mim. A minha aparência deve assuntá-los. Continuo tentando, mas minhas forças estão falhando. Um carro passa devagar, o motorista parece me olhar com atenção, mas passa por mim, no momento que não consigo mais me sustentar de pé e caio na beira da estrada. Nos meus últimos segundos de consciência percebo que o carro vem de ré na minha direção. *** Uma dor corta minha cabeça, não consigo abrir os olhos, tento pedir ajuda, mas sinto dor ao tentar falar. Com um pouco de esforço abro um pouco o olho direito que me informa que estou em um lugar iluminado, não consigo identificar muita coisa, mas sei que em casa não estou. Não há cheiro de álcool, o aroma que atinge meu nariz é de limpeza e remédio. Passa por minha cabeça que eu possa estar em um hospital. Apoio as mãos em minha cama macia e tento me sentar, mas não consigo, mais uma vez sou tomada por dor. Lembro-me que Manoel foi o responsável por meu estado, a noite anterior volta em cheio na minha mente e me lembro que o último carro que passou por mim estava dando ré quando apaguei, ele deve ter me trazido para o hospital. — Que bom que você acordou, já estava preocupado. – Virei meu rosto na direção do som, mas não consegui ver nada, pois meu único olho que abria um pouco e me permitia ver um fiapo do que estava ao meu redor não estava voltado para a direção daquela voz. – Não tente fazer força para se sentar nem para falar. Eu sou o doutor Luigi Moretti. Ao se apresentar vejo um rapaz de cabelos escuros e muito bonito. Ele veio para direção de meu olho semiaberto para que eu pudesse vê-lo. — Sei que está com dor e cheia de perguntas, vou tentar responder as que eu posso imaginar que está se fazendo. – Continua o doutor Moretti em seu monólogo – Você perdeu um dente e sua mandíbula sofreu... uma leve fratura. Seus olhos estão bem, só estão inchados, em breve conseguirá abri-los. Suas costelas não estão quebradas, mas a região está bastante machucada. Você está tomando soros e medicamentos para a dor. Ah, e seus exames deram tudo oK, não há nenhum problema interno, por sorte. Queria perguntar quem me levou para o hospital; em que hospital eu estava; se minha mãe e o meu marido sabem onde estou, mas não tinha como perguntar. — Talvez você queira saber – Voltou a falar – A pessoa que te socorreu na rua foi eu mesmo. Você teve sorte, senhora... bem, vou precisar de uma identificação sua. Ele me deu uma caneta e um pedaço de papel, rabisquei “Mia” sem nem mesmo ver direito o que escrevia. — Mia, eu estava passando quando a vi. Aquela região não é muito... confiável, por isso deve ter tido problemas para conseguir socorro. Eu mesmo quase não parei, mas quando a vi desmaiar, achei que deveria ariscar. Bem, eu trabalho neste hospital, não precisa se preocupar com despesas, mas vou precisar de um familiar e de um documento seu. Não tinha como eu responder, só balancei a cabeça negativamente. — Vamos fazer assim, vou perguntar e se a resposta for “sim” levante o polegar, se a resposta for “não” levante o indicador. Consegue fazer isso? Levantei o polegar em resposta. Ele riu. — Ótimo, garota esperta. — Você sabe o número de algum familiar que possamos chamar aqui? Levantei o polegar. — Ótimo. Conseguiria escrever no papel? Levantei o polegar novamente. Senti entre meus dedos a caneta e o papel.
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