Amélia
Morta, era desse jeito que eu estava, não era possível que uma secretaria teria que fazer tudo isso, nos livros que eu costumo ler, ela apenas ajuda o chefe e algumas vezes ainda dá para ele, mas isso está muito fora do que eu imaginava. O dia passou voando, não deu nem tempo para mim descer para almoçar, trouxeram a minha comida aqui para cima, e eu tive que comer rápido, para poder terminar tudo ainda hoje.
Jogo meus braços sobre a mesa e me deito sobre eles, a sala do senhor Ferrari estava impecável, o cheiro de limpeza poderia ser sentido a quilômetros, não posso negar que fiz um trabalho maravilhoso aqui, mas eu não sou faxineira, então esse não era meu serviço.
A porta da sala é aberta e posso escutar som de sapatos, pelo andar tenho certeza que é meu pai.
- O que você fez por aqui? – Levanto aos poucos a cabeça e encaro o mesmo, seu semblante era de assustado.
- Limpei esse chiqueiro. – Ele olha para os lados e examina todo o lugar.
- Quem te deu essa permissão Amélia? – Ele só podia estar louco. – Ferrari vai ficar maluco quando ver o que você fez com a sala dele, e esse cheiro de lavanda?
- Ué, sua funcionaria Luana disse que era para mim dar um trato aqui. – Ele fecha os olhos e abre novamente e sai da sala.
Eu não estava entendendo absolutamente nada, mas sei que foi armação daquela mulher, mas agora o por que dela ter feito isso, eu já não sei.
Saio da sala e posso escutar a voz firme do meu pai, quando ele queria, ele era grosso ao extremo, vou chegando perto deles e posso ver a menina de cabeça baixa e o mesmo não deixava ela falar.
- Pai? – Seguro no ombro do mesmo e o olhar de desespero da Luana só me faz confirmar que ela não imaginava que eu seria filha dele. – A culpa foi minha, se quiser eu bagunço de novo e está resolvido.
- Não é assim que funciona Amélia, a Luana sabe que aqui temos uma ordem, e que o senhor Ferrari é muito exigente com isso, ainda mais quando se trata do escritório dele, na verdade você não tinha nem permissão para entrar ali sem a autorização do mesmo. – Eu não sei quem é esse homem, mas já estou com ranço.
- Ok, então pode me demitir. – Levanto a sobrancelha.
- Você brinca muito né, vamos para casa – Ele me encara e depois olha para a Luana que encarava a gente com um olhar de medo, acredito que estava preocupada com o seu emprego. – Amanhã iremos voltar a ter essa conversa senhorita, agora pode ir. – Ela deseja uma boa tarde para nós e sai às pressas.
- Ela não sabia que eu era sua filha. – Falo caminhando ao seu lado até o elevador.
- Ela te tratou m*l? – Torço o nariz, era um costume.
- Não exatamente, mas posso dizer que se soubesse o tratamento teria sido bem diferente.
- Irei conversar com ela amanhã, ela é uma boa funcionária.
- Mas ela acredita ser mais que isso, cuide como ela trata os outros funcionários. – A porta do elevador se abre. – Pegarei um taxi, vou me encontrar com aqueles falsos que se diziam meus amigos.
- Quer que eu te deixe na casa de algum deles? – Era sempre assim a relação com meu pai, em um dia o mundo podia estar desmoronando em brigas, mas no outro a gente fingia que nada havia acontecido.
- Se não for nenhum incomodo, aceitarei. – Ele me abraça pelos ombros e a gente vai até o carro assim.
- Sabe que eu te amo né? – Ele me olha assim que entramos no carro.
- Sei, e eu amo o senhor também. – Dou um sorriso de lado.
- Desculpa por ontem, eu não devia ter falado daquele jeito com você. – Ele falava de um jeito perto da Valentina e por trás era ao contrário.
- Aquela mulher faz a sua cabeça. – O mesmo da partida no carro e fica em silencio, mas eu sabia que ele queria falar alguma coisa. – Fala.
- Você me conhece bem.
- Você é meu pai, então acho que conheço o suficiente.
- Está certa – Ele para o carro no semáforo e me encara. – Não sei nem como falar isso, a Valentina queria fazer uma surpresa, mas eu conheço você também, e sei que não iria reagir bem. – Respiro fundo já imaginando que viria alguma bomba. – Ela está gravida. – Ali aparentemente meu mundo parou por alguns segundos, e eu só despertei com o barulho de buzinas e meu pai acelerando o carro. – Fala alguma coisa Amélia. – Eu não conseguia falar nada, era muita informação.
- Para o carro. – Sinto meu rosto molhar, e enxugo logo as lagrimas que queriam cair.
- Eu não vou te deixar aqui, já estamos chegando na casa da Lorena. – Olho para frente e posso escutar as batidas do meu coração, eu não sabia ao certo qual era a sensação que eu sentia nesse momento, mas não era algo bom e nem r**m.
Em alguns minutos já estávamos na frente do apartamento em que a minha amiga morava, e agora eu só precisava de um abraço dela. Abro a porta do carro e quando vou sair sou impedida.
- Não fique assim filha, vamos conversar.
- Não quero falar nada por agora, me dê um tempo para assimilar tudo isso. – Ele balança a cabeça e eu saio.
O porteiro já me conhecia e provavelmente a Lorena já havia falado sobre a minha chegada, então ele apenas me deu um boa noite e liberou a minha entrada. Foi rápido até chegar na porta do seu apartamento, bato duas vezes e logo ela é aberta, minha amiga me examina e faz uma cara confusa e me abraça forte.
- Não sei o que aconteceu, mas eu estou aqui. – Aperto ela e sinto todo aquele peso saindo com o choro que vem atrás. – Vamos entrar, o João já está chegando também. – Entro no seu apartamento e me sento no sofá. – Quer falar o que aconteceu? – Coloco meus cotovelos sobre minhas coxas e seguro minha cabeça.
- Meu pai. – Molho os lábios.
- O que o senhor Juliano fez dessa vez?
- Ele engravidou aquela lacraia. – Posso ver a expressão de assustada da mesma, e ela se levanta rápido e vai para o lado da mesinha que tinha bebidas e enche um copo vodka e viro todo de uma vez. – Lorena?
- Hum? – Ela não me olha e posso sentir sua voz vacilando.
- Olha para mim, sei que é uma péssima notícia né, você tem ele como pai também e a gente não gosta nenhum pouco daquela mulher. – Antes dela falar alguma coisa alguém bate na porta, e a mesma vai atender.
- Meu Deus do céu, que cara de enterro é esse aqui? – Olho para o João e ele intercala o olhar para mim e para a Lorena.
- A lacraia está gravida. – Falo e ele arregala os olhos, e se vira para a Lorena.
- Está tudo bem? – Posso escutar a voz baixa dele, isso estava muito estranho, a filha sou eu.
- Sim – A Lorena fala com a voz tremula – Amélia precisa da gente. – Os dois ficam se encarando por um tempo e se viram para mim.
- O que está acontecendo? – Eu parecia boba, mas não era, alguma coisa estava acontecendo e eles estavam me escondendo.
- Não é nada amiga, eu só fiquei muito chocada – Ela vem para o meu lado e se senta na minha frente de novo. - Encaro seu rosto, e ela estava mentindo, mas a mentira tem a perna curta, e eu sei bem sobre isso.
- Ok. – Me aconchego no sofá e o João se senta ao meu lado.
- Deve estar sendo uma barra para você. – Balanço a cabeça. – Mas estamos aqui, se quiser podemos ir naquele barzinho para tentar se distrair um pouco.
- Eu acho uma boa ideia. – Lorena fala logo e se levanta.
- Não sei se estou no clima. – Os dois me olham com uma cara estranha. – Que foi?
- Você sem clima para beber Amélia? – Eles falam juntos e eu dou risada, era impossível não rir com esses babacas.
- É segunda feira meus amigos, e eu tive um dia merda na empresa.
- Você não falou nada que ia começar a trabalhar lá. – A Lorena fala.
- Nem eu sabia, foi tudo muito rápido, eu tive uma briga feia com meu pai ontem, e ele decidiu que eu precisava crescer.
- Sobre a briga feia, não é novidade, mas agora ele falar que você precisa crescer, e trabalhar, isso sim é uma novidade. – É a vez do João falar.
- Vamos ou não? – Lorena me olha e eu concordo. – Tem roupa sua lá no meu quarto, pode ir tomar um banho, que eu já tomei, vou só me trocar e passar um reboco. – Balanço a cabeça e vou para o seu quarto.
[...]
Já estávamos na fila para entrar no barzinho, no fundo tocava algum sertanejo, por ser uma segunda feira não estava tão lotado, mas mesmo assim a fila era grande. São Paulo sendo São Paulo.
Ficamos alguns minutos até liberarem a nossa entrada, o pessoal da casa já nos conhecia bem e vieram nos cumprimentar, e falaram que a nossa mesa já estava reservada, então fomos direto para a área mais sossegada.
Eu vestia um vestido branco com um decote que ia até o umbigo, agradeço todos os dias pelo meu silicone, com certeza foi o dinheiro mais bem investido que eu já gastei.
- Aquele homem de sábado está aqui, e não para de olhar para cá. – Giro meu calcanhar para poder examinar o homem com seus dois metros de altura com a cara de marrento, do jeitinho que eu gosto.
- Amélia por favor amiga. – Lorena segura no meu braço. – Ele é bem mais velho que você, e com aquela aliança enorme, é casado.
- E vocês saíram sábado e não deu nenhuma satisfação para a gente, ficamos preocupados, vai saber se ele não é um serial killer, pois cara ele tem. – João fica na minha frente me impedindo de poder apreciar a vista.
- Ele é um baita de um gostoso, isso vocês não podem negar. – Bebo um pouco da caipirinha. – E sobre sábado, não vou entrar em detalhes, mas vocês são muito falsos, como que ligam atrás de mim lá em casa, sabendo que provavelmente eu não estaria.
- Somos seus amigos, e ficamos preocupados, você não deu nenhum sinal de vida. – Lorena me repreende, e por um lado eles estavam certo.
- Viemos aqui para curtir entre a gente Amélia, você não vai sair essa noite com algum homem. – O João fala, mas o que me chama a atenção é a parede de músculos atrás dele, que me olhava como um pedaço de carne.
- Amélia, nome bonito. – O mesmo fala e posso sentir aquele friozinho na barriga.