— Chame ela, Dante.
— Minha Flor...
— Chame ela, é uma ordem.
Dante obedeceu, encontrou Ritinha sentada na escada que dava acesso à varanda.
— Flor quer falar com você, Ritinha.
Ritinha levantou prontamente, indo até Flor; uma coisa não podia negar: ela era corajosa.
— Me chamou, Senhora?
Flor abriu os braços para Ritinha, e ela aceitou o abraço de bom grado.
— O que fizeram, menina?
— Eu amo o Pedro, desde que me entendo por gente; é por ele que minhas pernas ficam bambas e meu coração parece que vai pular. Não fizemos nada demais e tudo que aconteceu foi por insistência minha, eu que o provoquei.
Pedro chegou, ficando atrás da porta; ele queria falar pra mãe o que tinha acontecido e se desculpar.
— Pedro está estudando e você ainda nem entrou na faculdade.
— E ele diz que vai me esperar, uai. Eu na verdade sempre esperei por ele.
— Tudo bem, Ritinha, mas seus pais devem estar preocupados, afinal estamos falando do seu futuro.
— E a senhora que me desculpe, mas olha, eu não vou ficar sem o Pedro por causa de ninguém, não, uai. Eu gosto dele por demais e ele também gosta de eu.
— Eu me lembro de você correndo pela fazenda; ficou uma moça bonita, Ritinha. Pedro tem bom gosto.
Flor sorriu e passou as mãos nos cabelos de Ritinha.
Ritinha sorriu.
— Bom gosto tem é eu, que escolhi o homem mais bonito desse mundo, sô.
Dante e Flor se olharam; não tinham muito o que fazer, a não ser apoiar a escolha do filho.
Pedro tinha um sorriso enorme atrás da porta.
— Sabe que o povo vai comentar, né, Ritinha?
— Comentar que eu chorei pelos cantos por ele? Quando ele foi embora para o exterior? Sei lá... ou comentar que eu sou apaixonada por ele?
— Não, comentar que você é apenas uma menina e Dante já é um homem feito.
— E eu não tô nem aí, e quando eu chorei de saudade, eu chorei sozinha. Eu quero mesmo é ser feliz com aquele homem.
— Eu não sabia que nutria sentimentos por meu filho.
— Então a senhora era a única dessa fazenda, nessas redondeza toda, que não sabia disso, sô, porque todo mundo sabe que meu coração é do Pedro, é por ele que o meu coração bate acelerado.
Pedro ouvia tudo; queria entrar, mas Dante o viu e não permitiu.
— Me deixe falar com ela, pai.
— Filho, não. Vá para a choupana e mais tarde conversamos todos juntos. O pessoal já deve ter começado a comentar que você esteve com Ritinha, daqui a pouco vai virar aquele alvoroço só.
— Eu vou levar ela comigo.
— Isso se os pais dela deixarem. Não se esqueça que ela ainda é de menor.
Pedro concordou.
Flor almoçou com Ritinha e o marido; as filhas estavam com o irmão Marco. Depois disso, ela fez uma marmita e Dante foi levar a Pedro.
— A tarde tá parecendo uma eternidade, misericórdia Jesus. — Ritinha comentou.
— É porque está ansiosa.
Flor costurava, enquanto Ritinha estava sentada na janela.
— Sabe costurar, Ritinha?
— Eu sei, minha mãe me obrigou a aprender, mas eu não gosto não, sabe? Eu gosto mesmo é de andar a cavalo, cuidar dos bichos, sentir o vento no rosto.
Ritinha passou a tarde conversando com Flor.
A noite chegou e Pedro estava uma pilha de nervos.
— Pare de andar, Pedro, já estou ficando zonzo. — Dante pediu.
— Estou nervoso, meu pai.
— Eu sei, mas não vai adiantar essa andação.
— Me deixe ver Ritinha?
— Não, ela está lá em cima com sua mãe.
Ritinha estava em um vestido de Flor, e também uma sandália rasteirinha. O carro parou na porta da casa da fazenda Vitorino.
— Eles chegaram. — disse Pedro.
Era dona Antônia, mãe de Ritinha, seu Raimundo, o pai, e Antenor, o irmão mais velho. Eles eram pessoas simples, de uma família tradicional com seus próprios costumes. O mais estranho é que Ritinha era uma mulata com sotaque gaúcho e caipira ao mesmo tempo, mas os seus pais e irmão eram pessoas de pele clara, cabelos loiros e olhos azuis. Seus pais chegaram na terra Vitorino ainda quando o pai de Dante era vivo. Só depois Ritinha apareceu em uma das misteriosas viagens do senhor Raimundo e dona Antônia; existiu uma conversa e Dida pediu a Dante que não tirasse o homem das terras em hipótese nenhuma. Então por ali eles ficaram, prestando serviços de mão de obra.
Todos os funcionários tinham suas choupanas e viviam bem; acabavam se acostumando com as tradições do povo de Recanto das Flores, mas a família de Ritinha se mantinha reservada, exceto ela.
— Vou recebê-los.
— Não vai, não. Antenor é muito brigão e não sabemos se ele veio na paz. Fique aqui, e não suba para chamar sua mãe.
Dante desceu e deu as boas-vindas à família Campos. Antenor já tinha sua própria família, mas tinha ido somente com os pais. E a família Campos não estava com cara de bons amigos.
Na sala, Pedro os cumprimentou, mas ninguém respondeu.
— Eu vou chamar minha senhora e Ritinha e já volto.
Pedro estava nervoso, mas não com medo. Quando viu Ritinha descer as escadas com sua mãe, ele não teve dúvidas; enfrentaria o mundo se precisasse por aquela menina.
Ritinha evitou o olhar com a família, estava temerosa.
— Sua moleca, eu vou te dar umas boas...
Era Antenor; Dante já imaginava que ele faria cena, criando caso.
— Não vai bater nela, Antenor, nem na minha casa e nem fora dela.
Pedro estava agora na frente de Ritinha, como um guarda-costas protetor.
— Eu deveria...
— Vamos conversar? — Dante tentava acalmar os ânimos. — Sabemos a gravidade da situação e queremos resolver da melhor forma possível, mas pra isso, é preciso que nos escute, Antenor.
Raimundo fez sinal para o filho baixar a guarda. Antenor cedeu.
— Então vamos nos sentar? Por favor. — Flor pediu, com sua voz doce e calma.
Pedro sentou ao lado de Ritinha.
— Senhor Dante, não preciso falar o motivo da nossa vinda a sua casa. Eu te respeito como patrão, mas não aceito que seu fio desrespeite minha fia. Não é porque somos humildes que não sabemos de direitos; se ele mecheu com Ritinha, ele casa. Não falamos bonito como ocês, mas Ritinha sempre estudou e agora ela iria para Gramado fazer os cursos dela. Ela faria faculdade em Gramado — disse Raimundo.
— Meu filho é homem, Raimundo, ele responde por seus atos. Vamos, Pedro, comece se desculpando com seu Raimundo, não espero menos de você.
— Seu Raimundo, eu peço perdão, mas não desonrei sua filha.
— Minha mulher não mente e ela disse que ocês estavam aos beijos na cachoeira.
— É verdade, mas não caso com Ritinha porque a beijei. Eu posso fazer um exame provando que ela é ainda é pura da minha parte.
Antenor se levantou do sofá, alterado.
— Mas olha aí, painho, eu não te disse que ele ia fugir das obrigações?
Ritinha tinha lágrimas nos olhos.
— Eu ainda não terminei de falar. — Disse Pedro, com voz grossa e firme. Tirou o chapéu que usava em sinal de respeito à família de Ritinha e também a ela. — Eu caso com sua filha porque amo ela, seu Raimundo, e não porque ela foi tocada. Eu não sou homem de brincar com filha de ninguém; meus pais não me deram essa criação e eu também tenho duas irmãs. Se alguém mecher com elas, eu faço o mesmo, mas sua filha tem meu coração e eu te peço a mão dela.
— Ocê casa porque me ama, Pedro? — Ritinha perguntou.
— Amo, Ritinha, eu amo você, mesmo sendo errado por causa da sua idade, mas amo. — Ele disse com um sorriso.