Falação

1204 Palavras
O pai e o irmão de Ritinha pareceram estar satisfeitos com a resposta de Pedro; era exatamente o que queriam, um casamento. __ Mas Ritinha nem pode se casar ainda, ela é só uma menina. Foi a vez de dona Antônia falar, e Flor percebeu a insatisfação da mulher com o desenrolar da história. Dona Antônia se arrependeu de contar ao marido e ao filho que pegou Pedro e Rita aos beijos na cachoeira. __ Dona Antônia, a senhora não queria que sua filha se casasse? Flor perguntou. __ E eu não, eu queria mesmo era que minha fia estudasse e fosse tudo aquilo que eu nunca fui; nois tava juntando um dinheirinho pra isso, e só dispois ela se casar, nois queria ela falando bonito por demais igual ocês fala. __ Sua filha vai estudar, dona Antônia, eu te asseguro isso, te dou minha palavra que Ritinha terá a profissão que quiser. Pedro tinha essa convicção consigo mesmo. __ Quanto ao casamento? Ritinha volta pra casa, até ocês se casarem então. __ Ritinha pode ficar na casa dos meus pais; não vamos demorar para nos casar, e eu não vou desrespeitar ela, não. Pedro queria Ritinha por perto. __ Não tem por que ela ficar aqui; ela tem casa, volta mais nois pra casa dela. A conversa se prolongou por mais algum tempo. Era o futuro de Ritinha que estava em jogo e, consequentemente, o de Pedro. O noivado seria oficializado em outra ocasião. __ Fia, vá se despedir do seu noivo, que nois já vamos. Raimundo mandou. Pedro e Ritinha saíram pra fora da casa. Ritinha tinha um sorriso enorme no rosto. __ Ara, que eu tô feliz por demais. Ela mesma beijou Pedro. __ Ritinha, não podemos, seus pais estão aí dentro. __ Agora nós vamos nos casar, homem de Deus. __ Mas ainda vamos, Ritinha. __ E óia, eu vou, mas meu coração fica com você; por mim eu já ficava era aqui contigo naquela choupana, e já começava fazer nossos bagurizinho. __ Vamos devagar, tá? Não esquece que você precisa dar continuidade aos seus estudos. __ E eu só preciso de uma coisa, ocê. Cada declaração, cada gesto, ainda parecia um sonho para ela, e para Pedro também. Mas Ritinha ainda não pensava muito sobre o futuro; a idade e também a vida que levava não lhe davam uma visão de que precisava de uma profissão e um destino além de casamento e estudos, e Pedro teria que ter os pés no chão para assegurar um futuro pra ela; a experiência era dele e deveria partir dele. __ Eu amo você, Ritinha. Ele a puxou pela cintura e deu um beijo na testa dela. __ Na testa, Pedro? Ela não gostou muito; esperava um beijão de tirar o fôlego na boca. __ Ouviu que te amo? __ Ouvi. Ela sorriu, e ele também. Pedro estava e******o, não poderia se aproximar muito dela; os sogros logo apareceriam na varanda para se despedirem. __ Se seu irmão tentar alguma coisa, você... __ Eu pego meu cavalo e sei bem pra onde correr. __ Pra onde, Ritinha? __ Ara, eu corro para os braços do homem que eu amo, que é ocê. Ele deu um selinho nela. __ Cê podia me dar um beijo, daqueles que me deu na cachoeira, né? __ Só quando não tiver ninguém por perto, tenho certeza de que Antenor deve estar de olho. Se despediram, e a família Campos partiu. Pedro deu a bênção ao pai e à mãe; deveria ir para a choupana, onde dormia. __ Filho, durma no seu quarto hoje. __ Mãe... Flor pediu, e Dante acenou para que Pedro aceitasse o pedido da mãe. Pedro concordou. Já era tarde da noite; Pedro assistia a um filme em seu antigo quarto, que Flor fazia questão de manter organizado do mesmo jeitinho; era a forma dele se sentir sempre em casa, independente da idade. Na verdade, ele nem prestava atenção no que se passava na TV; só conseguia pensar na mulata Ritinha e tudo que tinha acontecido naquele dia. Sua vida mudaria da água para o vinho. Ele ouviu batidas na porta e reconheceu pela batida quem era. Era Flor. __ Entre, minha mãe. __ Filho, pensei que já estivesse dormindo, mas ouvi a TV ligada. __ Eu não consigo dormir. __ Nem eu. Ela entrou, sentando-se ao lado de Pedro, que desligou a televisão para dar atenção a Flor. __ O que te assusta? __ A idade dela; tenho medo que um dia ela veja que não era o que queria. __ Ela não parece estar brincando quando diz que te ama e muito menos que vai se cansar ou desistir. __ Tomara, mamãe. __ Não se importa com o que vão dizer? __ Que sou um papa-anjo e me aproveitei dela? __ Seu pai me disse que falaram que ela é uma interesseira; os fazendeiros da vizinhança já estavam comentando. __ Se eu ouvir falando dela, eu mato um. Pedro ficou raivoso. __ Não vai matar ninguém e deve estar preparado para o que as pessoas irão falar. Ele ficou calado; não mataria, mas trocaria uns bons socos. __ O que vai fazer agora? Dante bateu na porta, e Pedro sorriu. __ Reunião agora? Por isso queriam que eu dormisse aqui, é? Todos sorriram. __ Você é nosso menino. __ Sabem que já faço trinta anos, né? __ Continuará sendo sempre meu garoto, mesmo quando tiver seus próprios filhos, Pedro. __ Eu sei disso, pai. __ Responda sua mãe. __ Eu queria levar Ritinha comigo. __ Pedro, talvez não seja uma boa ideia; Ritinha não sabe falar outra língua, ela terá dificuldades em se adaptar, é preciso que ela estude outro idioma e se acostume aos poucos com essa nova realidade de vida. __ Seu pai tem razão, meu filho; ela me confessou que ama a natureza, já será difícil morar na cidade grande, um choque de realidade; mas ir pra outro país assim, de uma hora pra outra, talvez seja querer muito dela. __ Eu não vou ficar mais longe dela. __ Falando nisso, depois seu pai vai me explicar direitinho quando foi que ele soube desse seu amor por Ritinha, porque eu não sabia de exatamente nada, não é, senhor Dante? Não restava dúvidas, Dante seria castigado por Florence. __ Minha Flor, quem deve ser castigado é Pedro e não eu. __ Descobriremos quem foi que escondeu essa história toda de mim e aí veremos quem será o castigado, Dante. Seria Dante; Pedro quis contar a Flor o que sentia por Ritinha antes de sair do país. ____________________ Na semana seguinte, não se falava de outra coisa na cidade Recanto das Flores e também nas redondezas, a não ser o romance de Pedro e Ritinha. A história partiu de todas as formas. Que Pedro tinha abusad0 da inocência de Ritinha. Que Ritinha não era mais pura há muito tempo e que era uma interesseira. Há também aqueles que diziam que era só um passatempo, que Pedro se divertiria naquele verão com Ritinha e logo, quando retornasse para o país onde estava estudando, nem falaria mais na menina. Era tanta conversa, tanta falação e Pedro e Ritinha estavam cada dia mais felizes.
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