NOVE: A Força do Mais Fraco

2705 Palavras
— Está sendo radical demais, agindo como se Soonyoung fosse um monstro. Jihoon estava um pouco melhor, mesmo que fosse quase nada, mas já conseguia ficar sentado na cozinha enquanto Wonwoo estava cozinhando. O Lee mais velho não cansava de reclamar da aproximação do alfa Zhang, tratando sua ajuda como se fosse uma esmola, e sempre enfatizando o que havia acontecido no passado. Wonwoo entendia a raiva de seu irmão, mas não podia simplesmente deixar que aquilo se transformasse em ódio, odiar alguém fazia um grande m*l para o coração, odiar Soonyoung só faria Jihoon se sentir ainda mais doente. — E você como se aquele alfa não tivesse feito m*l nenhum. — reclamou, já conseguia falar com mais força, mas precisava se resumir em frases curtas, pois sua respiração falhava rapidamente. — Eu sei que ele não era a melhor pessoa do mundo. — o mais novo se virou para o irmão, via o loiro brincar com alguns feijões soltos sobre a mesa velha de madeira — Mas Sooyoung nunca o bateu, nunca o tocou, ele só era ofensivo, mas isso ficou no passado, vocês já não se falavam há anos, as pessoas mudam, Jihoon. O loiro se inquietou, não gostava de ver seu irmão defendendo o alfa que tanto tinha raiva, detestava ainda mais o fato de que ele estava certo, de que Zhang Soonyoung poderia sim ter mudado, aliás, era o que aparentava ter acontecido. Mas era impossível que não desconfiasse, que no fundo não achasse que aquele alfa estava tramando alguma coisa que futuramente poderia machuca-lo. Mas e se não fosse? E se o errado fosse apenas ele? Jihoon não sabia ao certo o que fazer, no que acreditar, não era uma pessoa tão positiva quanto seu irmão. — De qualquer forma, me atrasei muito hoje. — logo o mais novo servia uma tigela cheia de comida para seu irmão, que já olhava com cara de quem não iria conseguir comer tudo — Coma tudo, preciso limpar tudo antes de sair. — Não gosto desse seu trabalho. — É justamente esse meu trabalho que está nos dando conforto. — respondeu, também enchendo sua tigela de comida — E eu só estou cuidando das necessidades do senhor Mingyu, não é nada demais. Jihoon ficou calado por alguns segundos, mexia a comida de um lado para o outro. — Mas precisa se deitar com ele? Wonwoo parou imediatamente o que estava fazendo, passou longos segundos olhando para o vazio, não sentia orgulho do que estava fazendo, mas não sentia mais vergonha. O que fazia não era a coisa mais honrosa do mundo, mas nunca esteve tão bem. Desde que começara a dormir com Mingyu, sua vida se transformou em outra, não apenas pelo dinheiro que ele lhe dava, mas também pelo cheiro do mesmo. Com a essência de Kim Mingyu grudada em sua pele, ele conseguia ir para onde quisesse e todos o tratavam com mais respeito, os alfas já não tentavam o machucar, sequer chegavam perto. Ele estava seguro de verdade pela primeira vez. — Eu... eu já vou. — não olhou para o irmão quando falou isso — Você... você consegue ir sozinho pro quarto? — Wonwoo... — chamou, estava arrependido pelo que tinha falado — Eu não quis ofender você. — Está tudo bem, irmão. Brigas nunca foram comuns entre eles, afinal, tinham apenas um ao outro, mas era impossível que alguns desentendimentos não acontecessem, especialmente porque Jihoon era uma pessoa dura em vários momentos, não media muito bem as coisas que falava e às vezes acabava ofendendo alguém, no caso, Wonwoo. Mas o mais novo tentava não se importar, seu irmão sempre fez de tudo por ele, e fora a vida difícil de ambos que acabou o deixando assim, meio azedo, meio amargo. Mas Jihoon era doce por dentro, só precisava encontrar alguém que pudesse ir tão longe até encontrar sua doçura. Wonwoo seguiu caminho até a cabana de Mingyu, ele sempre costumava ir depois do almoço, estava um pouco atrasado naquele dia, pois havia acordado tarde e demorado nos cuidados com Jihoon e com a casa. A cabana de Mingyu não era mais tão difícil de arrumar quanto antes, agora as coisas conseguiam ficar no lugar em que havia deixado, Mingyu praticamente nem mexia mais em nada, só as roupas que estavam sempre espalhadas pelo quarto, o impregnando com aquele cheiro forte que o alfa tinha. As juntou para lavar quando tivesse muitas. Deixava para arrumar o quarto do Kim quando terminava de fazer o jantar. Arrumou tudo o estava fora do lugar e acabou deitando um pouco na cama, não porque estivesse cansado, mas porque gostava dela. Quando cheirava os lençóis, conseguia sentir o seu cheiro junto ao do alfa, e se perguntava se Mingyu também gostava de sentir seus cheiros juntos. Sorriu, no fundo sabia que as coisas estavam mudando, que não enxergava mais aquele alfa como alguém para quem trabalhava, ou simplesmente alguém com quem estava dividindo a cama, mas também como alguém por quem tinha apreço. Talvez mais que isso. Acabou dormindo sem perceber. O alfa apareceu bem mais tarde, havia se demorado mais no trabalho, e quando chegou acabou achando que o ômega já havia ido embora, e até pensou em reclamar disso depois, mas acabou deixando para lá, Wonwoo sempre fizera tudo direitinho, não tinha nada para reclamar dele e nem o direito de fazer isso. Depois que comeu, deixou tudo no lugar, estranhado que o cheiro de Wonwoo estava muito forte, como se ele ainda estivesse ali. Não via problema em sua cabana ter o cheiro do ômega, pelo contrário, deixava mais agradável, um ambiente mais habitável e aconchegante. Quando entrou no quarto, não demorou a notar a presença do ômega ali, deitado em sua cama e dormindo tão calmo. Não resistiu em se aproximar e olhá-lo ali deitado, não se sentia no direito de acordá-lo e acabou o deixando dormir mais um pouco. Wonwoo acordou muito tempo depois, enquanto sentia beijos molhados em sua orelha e pescoço. Acordou com um sorriso no rosto, logo se virando para olhar para o Kim, que estava com uma expressão calma, uma calmaria que só sentia quando o ômega Lee estava com ele. Wonwoo fechou os olhos, e logo o alfa beijou seus lábios calmamente, muito diferente do jeito que sempre costumava o beijar. — Já está tarde, seu irmão deve estar preocupado e precisando de você. — o mais alto o disse em um tom baixo na voz, como se não quisesse machucar os ouvidos do mais novo, que acabara de acordar e ainda estava meio sonolento. — Eu posso ir? — Por que não poderia? — Nós nem... você sabe. — seu rosto pareceu envergonhado, mas continuou o olhando. — Já está tarde, teremos mais tempo amanhã. — o alfa o respondeu, Wonwoo desceu seus olhos olhando para o corpo do mesmo, que estava apenas com a calça — A não ser que você queira fazer. — ele disse diante do olhar do ômega que não conseguiu ser discreto — Você gosta disso, não é, ômega? Wonwoo não tinha coragem de dizer com palavras, mas se esticou para alcançar os lábios do mais alto e rodear seu pescoço com as mãos, logo também suas pernas o rodeavam e já subia sobre seu corpo. Ele gostava, gostava muito, e Mingyu já sabia disso, o ômega já havia deixado as coisas muito claras. Se deitar com Mingyu já deixara de ser uma obrigação há muito tempo, para se tornar aquilo que mais ansiava. Amava seus toques e seus beijos, amava a sensação de fogo queimando que ele deixava sobre seu corpo, e acima de tudo, amava sentir que pertencia a alguém. Mesmo que fosse apenas de corpo.       [... Aroma de Ômega ...]       Jihoon não parava de olhar pela janela, seu irmão estava demorando muito, e já estava muito escuro e seria perigoso que ele viesse sozinho, não sabia se Mingyu teria o cuidado de o acompanhar até em casa, mas acreditava que ele não se importava o suficiente para isso. Lá fora a rua não tinha ninguém, ou pelo menos, parecia não ter ninguém. — Eu sei que está aí. — conseguiu falar um pouco mais alto — Já disse que não o quero me vigiando! Nenhum dos dois sabia ao certo quando havia começado, mas Sooyoung começara a vigiar a casa quando anoitecia e Wonwoo não chegava, temia que algo acontecesse com Jihoon sozinho e doente, pois sabia que muitos alfas não eram pessoas boas, que podiam machucar ômegas que m*l conseguiam se defender. Não defendia sua casta, sabiam que muitos eram perigosos, mesmo que disfarçados em pele de cordeiro. E ele também sabia que Jihoon o enxergava dessa maneira, como um animal feroz em pele de cordeiro. — Vá embora, Zhang! Mas o alfa não foi embora, pelo contrário, ele parou bem diante da janela, encarando o loiro bem nos olhos, agora bem próximo do mesmo. Era impossível que não se sentisse apreensivo, o Lee era um ômega pequeno, e mesmo que jamais admitisse, estava mais indefeso do que nunca. Mas o que o Zhang iria fazer? — Quando seu irmão chegar, eu irei. — Não preciso que fique me protegendo. — tentou ser o mais grosseiro possível, queria a todo custo que o alfa fosse embora, desistisse de seja lá o que estivesse tentando fazer — Não preciso de você aqui, eu e Wonwoo estamos seguros. O alfa se aproximou um pouco mais. — Não, seu irmão está seguro, você continua correndo o mesmo perigo que corria quando estava na rua. — usou de toda a sua sinceridade para dar uma resposta, segurou uma das pequenas mãos do ômega, que ficou tão chocado que não conseguiu nem se mexer — Ficarei aqui para ter certeza de que ficará bem. — Alfa... — Por que você está tão frio? Subitamente notara que o Zhang segurava sua mão, a soltou nervoso, não tinha nenhuma explicação para dar, e ao mesmo tempo também não queria explicar nada para o alfa. — Vá embora, estou bem! — Posso provar que não está. Talvez, no ato que Jihoon mais temia, o alfa entrou na casa, facilmente, pois a porta sequer trancava decentemente, e foi diretamente na direção em que o Lee estava, o ômega não sabia como reagir, sua mente apenas gritava “Eu tinha razão, ele só queria me machucar, ele vai me machucar”. Estava praticamente em pânico, sem forças no corpo para correr, acometido daquela doença, o ômega estava mais frágil do que nunca esteve. E quando já estava contra a parede, preso entre um braço e outro do Zhang, fora obrigado a admitir que ali não havia segurança nenhuma, que aquela casa não o protegia de nada. — O que iria fazer se alguém tentasse o ferir agora? No único ato que podia, o ômega bateu com a força que tinha no peito de Soonyoung, bateu com ambas as mãos e diversas vezes, também tentou empurrar seus braços, até mesmo passar por baixo, mas nada adiantava, o alfa nem se esforçava para mantê-lo preso, Jihoon se sentia patético. E indefeso. — É por isso que estou aqui, Jihoon, pra evitar que algo r**m aconteça. — o alfa o segurou assim que o viu escorregando pela parede, algo que não parecia ser de propósito e sim por falta de força — Não duvido que possa se defender sozinho, mas está doente. Já deveria estar melhor, está faltando alguma coisa, não está? Mas o loiro negou com a cabeça, olhava para baixo. — Do que é que você precisa? Me diz, não importa o que seja, eu vou procurar. — Por que está fazendo isso por mim? — perguntou, sua voz já estava baixa e cansada, fizera muitos esforços naquele dia, ter ficado na janela já fora um grande erro — Você me odeia. — Não odeio você. — respondeu de imediato, segurou a lateral do rosto do menor, pedindo para que o olhasse, mas Jihoon ainda mantinha seus olhos baixos, se sentia patético estando em uma situação como aquela — Sei que não temos um passado feliz, mas agora sou uma pessoa diferente, me deixa te provar isso. — Não consigo acreditar em você. O alfa tocou mais na pele de seu rosto e na pele dos braços, tudo estava muito frio, e a noite não estava tão fria, aquilo não poderia ser algo normal. O ômega tremia de frio, seus lábios tinham tons arroxeados, Jihoon estava muito mais doente do que o alfa imaginava, era bem pior do que o médico havia lhe dito. Só não saberia dizer se havia sido de propósito, se o médico lhe omitira algo justamente para que o pequeno ômega sofresse. Mingyu tinha razão em estar procurando um novo médico para a alcateia, aquele homem tinha um coração mau. Tivera um estalo em sua mente, havia visto aquilo antes, e tentara procurar possíveis marcas pelo pescoço do loiro, mas já o havia visto sem roupas antes, ele não tinha marca, mas por que está sofrendo como um ômega marcado e abandonado? — É calor, não é? — O que? — Você precisa do calor da pele para diminuir o frio que está sentindo. — ele dizia, mas o ômega negava com a cabeça o tempo todo — Por que não falou nada? Eu poderia te ajudar. — Não quero! — usou do resto da força que tinha para poder falar mais alto — Já disse que não confio em você, e sabe muito bem que tenho motivos o suficiente para isso. O que você quer, Soonyoung? Por que está aqui? Por que quer tanto me proteger? Não somos amigos, aliás, andamos longe disso. — usara toda a sua voz, ela ia diminuindo quanto mais ele falava. Ele tinha muitos motivos para não confiar, realmente tinha. Mas Soonyoung não iria desistir tão fácil assim de se redimir, teria o perdão de Jihoon, mesmo que precisasse implorar pelo perdão do mais novo. Os olhos do ômega pareciam tão tristes, tão assustados, aliás, eles sempre foram assim. De algum modo, Soonyoung sabia que Jihoon nunca havia sido feliz de verdade, não depois de ter sido abandonado na rua, e Jihoon não merecia sofrer, não merecia ficar doente, não merecia nada de r**m, não merecia nada daquilo que a vida estava lhe dando. — Porque eu estou apaixonado por você. Talvez tenha sido somente naquele momento em que o próprio alfa percebeu isso, mas não se sentiu chocado e nem se afligiu ao falar, na verdade, pareceu tão espontâneo, tão verdadeiro que a chegava a fazê-lo sentir vontade de sorrir. Soonyoung não rejeitou seu sentimento e nem o odiou, pelo contrário, se sentiu leve com ele. Mas os olhos de Jihoon indicavam susto e incredulidade. O ômega não conseguiu dizer nada quando foi abraçado pelo Zhang. Aquele abraço aliviara tantas dores, o calor do peito do mais alto fez com que seu lobo agitado se acalmasse, e por dois segundos ele conseguiu esquecer a raiva que sentia, e deixar-se ser confortado. E talvez, talvez por aquele momento, ele pudesse acreditar. — Mesmo que você não me queira, me deixa cuidar de você, pelo menos até que esteja curado. Jihoon não tinha mais forças, não conseguiu fazer nada quando o alfa o pegou no colo e o levou para o quarto. Não conseguiu fazer nada quando o alfa ficou sentado com ele em suas pernas, ainda abraçados, e ficou ali  até que dormisse profundamente, recebendo um carinho em seus cabelos, carinho esse que já não sabia como era, e que nunca esperava que fosse receber de Zhang Soonyoung. Depois que Jihoon dormiu, o alfa o deitou e o cobriu, a pele do ômega já estava em uma temperatura considerada normal, e seu rosto estava um pouco mais coradinho. Ainda o observou por longos minutos, só então parando para pensar no que havia dito. Não havia se arrependido, e nos poucos ou muitos minutos que ficou ali, se perguntou o que faria a seguir, ainda precisaria trilhar longos caminhos para conquistar o coração do Lee, coração que já havia sofrido demais, estava totalmente calejado. Jihoon merecia todo o amor do mundo, e naquele segundo, Soonyoung decidiu que ele lhe daria esse amor.
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