Aline Moraes...
Hoje é o meu aniversário, estou completando doze anos. Sou um pouco mais alta do que as crianças da mesma idade que eu. Para mim, isto não é um problema, mas sou alvo de chacota no orfanato onde moro, desde que nasci.
Não sei o que fiz para a Bianca Santos, ela não gosta de mim e sempre que pode, faz com que os outros me atormentem. Temos a mesma idade, sendo que sou mais velha dois meses e sou mais alta do que ela um palmo e meio.
Hoje não foi diferente, mesmo sendo o meu aniversário, ela e os outros, desde o momento em que levantamos, começaram a me ofender e a me humilhar. Eles não me agridem, mas as palavras muitas das vezes doem muito mais. Eles fazem o que ela manda, porque têm medo dela. Não fico chateada com eles, sei que se ela não estivesse aqui, talvez as coisas fossem diferentes.
A tia Sônia, que é a diretora do Orfanato Anjos de Deus, nunca permitiu que as crianças que cresciam juntas neste ambiente de abandono, levantassem a mão uma para as outras. Quem ousasse bater, ficava de castigo no sótão por dias, ninguém tinha permissão para subir sem o consentimento dela. Somente ela ou a tia Marta subiam para levar a comida e nos levar para tomar banho, as outras necessidades fazíamos no lavabo que foi construído para este propósito. Quem estivesse de castigo, não saísse toda hora, com a desculpa de ir ao banheiro.
A Bianca uma vez me incriminou e ameaçou algumas das meninas para dizer que eu havia batido nela, não tive como provar o contrário e acabei indo para o sótão. Não achei r**m, porque me acostumei a ficar sozinha, lá a Bianca e as suas cúmplices não poderiam mexer comigo, bem, foi o que pensei, mas, me enganei.
A Bianca conseguiu subir e infernizou a minha vida. Disse-me coisas que sabia que me deixaria magoada... “Que ninguém queria ser meu amigo, porque eu era feia, magrela e burra. Que nasci para viver sozinha, e o que ela pudesse fazer para que eu vivesse desta forma, ela faria.”
O que ela não contava era que a tia Sônia ouvisse as suas agressões verbais contra mim, e ela inverteu os papéis, eu saí do castigo e a Bianca entrou. Ela me culpou e depois que saiu do sótão me perseguiu todos os dias.
Quando fico chateada vou para uma parte do rio que sei que não é perigoso e fico lá sentada ouvindo o silêncio da mata que tem em volta. O som do rio, dos pássaros e o farfalhar das árvores me deixam mais feliz. Sinto-me conectada com este lugar.
Quando está muito calor, tomo banho. Ganhei um maiô de uma senhora que visita sempre o orfanato, Ele havia ficado grande no começo, agora, está ficando pequeno, por minha altura estar fora dos padrões.
Falei com a tia Sônia que iria dar uma volta, porque estava me sentindo feliz por estar completando mais um ano de vida e que, já havia feito todas as minhas tarefas. Ela não me impediu e me disse apenas para ter cuidado.
Antes que eu saísse, ela me deu um perfume de presente. Passei um pouco no meu pescoço. O cheiro era suave, gostei muito. Li que era de lavanda. Guardei com cuidado na minha gaveta antes de ir passear. Foi a primeira vez que ganhei um perfume.
Caminhei pela estrada que vai do orfanato até a vila, sendo que a parte do rio onde fico, fica no meio dos dois. Fui sem pressa, ainda era cedo e o sol ainda não estava tão quente, uma brisa suave acariciava o meu rosto e os meus cabelos castanhos claros voavam para trás.
Sentei-me na minha pedra preferida e fiquei observando tudo, verificando se algo havia mudado desde a última vez em que estive ali. Não, tudo estava como antes.
Olhando em volta de onde eu estava, notei que mais acima da pedra onde me sentei havia algo estranho, parecia uma pessoa tentando se agarrar nos capins que crescem na margem do rio, só que eles cortam como navalhas.
Vi que a pessoa soltou os capins, porque deveria ter se machucado e sentido dor. Entrei no rio e firmei os meus pés num banco de areia, que eu sabia existir ali. Quando a pessoa ia passar por mim, consegui segurar a gola da sua camisa, com um pouco de dificuldades consegui leva-lo até a margem. Se eu fosse menor, nós dois seríamos levados pela correnteza.
Quando estávamos seguros o virei e vi que era um adolescente, deveria ser mais velho do que eu. Fiz a massagem RCP e respiração boca a boca, que aprendi no curso que o corpo de bombeiros local deu para todas as crianças do orfanato. Eu e mais cinco, levamos a sério o que estavam ensinando, Bianca e a sua turma foram apenas para passear e andar no caminhão dos bombeiros.
O chamei várias vezes, sacudindo os seus ombros, para ver se acordava.
— Menino, acorde! O que aconteceu com você? Venha, vou te levar até o hospital da vila.
— Fui sequestrado, mas consegui fugir. ... Ele balbuciou fracamente, parecia que ia desmaiar, logo depois tossiu muita água.
— Se foi sequestrado, então não posso ir pela estrada, temos que ir seguindo o rio, é mais distante, porém é menos perigoso.
Quando eu estava me preparando para erguê-lo, ele enfiou a mão no bolso da calça que vestia e logo depois a estendeu para mim.
— Guarde isso com você, serei eternamente grato e cuidarei de você no futuro como uma irmã. Procure-me na Cidade A, o meu nome é Eduardo Guimarães. ... Logo após pronunciar estas palavras, ele desmaiou.
Com dificuldades o ergui e consegui colocá-lo nas minhas costas. Fui pela margem do rio na direção da vila, fui falando pelo caminho para não me sentir sozinha e para manter minha mente ativa. Em alguns momentos percebi que ele recobrava a consciência, mas não dizia nada e desmaiava outra vez. Devia estar exausto emocionalmente e fisicamente.
Não sei quanto tempo levei para chegar na vila, só sei que estava exausta e sentindo muita dor no meu braço esquerdo. Quando cheguei no hospital senti o peso ser retirado das minhas costas e alguém me erguendo e deitando-me numa maca. Antes de desmaiar de exaustão consegui falar o que ele havia me dito.
Não sei o que aconteceu com o adolescente que salvei. Fiquei uma semana internada no hospital, totalmente inconsciente. O esforço físico e a pressão emocional por estar fugindo de sequestradores fizeram com que eu apagasse após ver o menino salvo.
Tia Sônia foi informada, quando acordei, ela foi a primeira pessoa que vi. Estava sentada ao lado da minha cama, com a fisionomia séria e cansada. Senti o meu coração aquecer, por saber que alguém, mesmo que não seja parente de sangue, ainda se importava comigo.
— Tia Sônia, me desculpe!
— Desculpar o quê menina? Se não fosse você, o garoto teria morrido afogado. ... Ela falou-me com a voz tranquila e doce. Acariciou o meu rosto. Vi carinho nos seus olhos.
— Tia, há quanto tempo estou aqui? O menino, como está?
— Você ficou em coma emocional por uma semana, devido à situação de stresse extremo que vivenciou. Mas agora você acordou e podemos voltar para o orfanato. ... Após alguns segundos de reflexão ela prosseguiu. ... — Quanto ao rapaz, não sei muita coisa, só sei que antes de você entrar no coma, você falou o nome dele e sobre o sequestro. Sendo assim, o Diretor do hospital pode entrar em contato com a polícia e eles comunicaram a família dele.
— Ele ficou bem então?
— Sim minha querida, graças a sua coragem e determinação. Se você não tivesse entrado no rio ou se tivesse desistido no caminho para o hospital, ele teria morrido. Ouvi o médico falando para os pais dele, que ele deve a vida a você.
— Fiz o que achei que tinha que fazer, tia! Ele não me deve nada.
— Você é uma boa menina Aline. Fico triste em ver o que você passa no orfanato por causa da Bianca. Já conversei com ela e pedi que parasse, mas ela tem uma aversão por você. Sei que você não fez nada para que ela aja assim.
— Não se preocupe tia, enquanto ela apenas falar, finjo que não é comigo. Já que a senhora tocou no assunto, vou deixá-la avisada. Se a Bianca levantar a mão para mim ou para qualquer outra criança do orfanato, vou revidar. Vou bater nela também.
— Tudo bem! Sei que a violência não faz parte do seu temperamento, mas se ela passar dos limites, você tem o meu consentimento para se defender, não a punirei por causa disso.
— Obrigada tia! Aiiiiiii! ... Quando fui me levantar, senti uma dor intensa no meu braço esquerdo, os meus olhos se encheram de lágrimas, não pude evitar que caíssem.
— Cuidado menina! Você levou dez pontos no braço. Você se cortou em algum galho no caminho e não viu. Perdeu muito sangue, tive que autorizar uma transfusão de sangue para você. Por isso, você desmaiou quando a adrenalina baixou.
— Tia, quando vou poder ir para casa?
— Vou perguntar ao doutor, já volto!
CONTINUA!...