Eduardo Guimarães...
Eu estava num quarto, amarrado e vendado, não conseguia ver onde estava e nem o que se passava ao meu redor. Só conseguia ouvir as vozes dos bandidos que haviam me sequestrado.
— Vigiem ele! Não deem mole, ele vale milhões, é a nossa fonte de renda. Sairemos da miséria graças a este moleque.
— Ele é tão importante assim, chefe?
— Claro que é! Ele é o herdeiro de uma das famílias mais ricas da Cidade A. Os Guimarães nos pagarão muitos milhões para terem este garoto de volta.
— Chefe e se eles chamarem a polícia? Nós estaremos em apuros!
— Não chamarão, tenho certeza de que seguirão as minhas ordens. Deixei bem claro que se chamassem a polícia, encontrariam apenas os restos mortais do garoto.
— Mantenham as máscaras quando forem perto dele, não quero que ele nos reconheça.
—Tudo bem chefe!
Estava nervoso e com medo, mas tentei demonstrar que não sentia nada, que estava tranquilo.
— Senhor, por favor, poderia me dar um copo de água? Estou com sede.
— Pegue água para ele.
Bebi a água devagar, estava sedento, mas fui com calma para não engasgar e também para não dar motivos para me agredirem.
— Se ele quiser usar o banheiro, podem levar, mas não tirem a venda dele... — No banheiro garoto, você pode tirar para ver o que está fazendo, mas quando sair, tem que estar com ela de volta, se não obedecer, vai apanhar, entendeu?
— Sim, senhor!
Desde que completei sete anos, a minha família começou a me treinar para ser o sucessor dos mais velhos na empresa. Aprendi a ser educado, prudente, cauteloso, meticuloso a ouvir, a falar somente quando fosse necessário. Faço aulas de defesa pessoal com o melhor instrutor da cidade A, deste os meus 10 anos.
Naquele momento, o que eu estava passando, pude por em prática, o que havia aprendido com a luta... Aprendi a ter paciência, a prestar atenção no que estava acontecendo ao meu redor, aguçando a minha audição e o meu olfato. Poderia dizer com precisão se eu estava no meio do mato, na cidade, no mar, bastava apenas ter concentração; foi o que fiz.
Pude perceber que havia barulho de água corrente que não cessava, pássaros cantavam a todo momento e o cheiro de terra molhada era constante nas minhas narinas. Cheguei à conclusão de que não estávamos na cidade e nem no mar. O barulho da água só poderia ser de um rio. Devíamos estar na zona rural.
Após um longo período sentado senti as pernas ficarem dormentes, não ouvi as vozes dos homens que haviam me sequestrado. Fiquei atento, para assim que os ouvisse, pediria para ir ao banheiro. Não sei quanto tempo foi, mas parecia uma eternidade, ouvi as vozes deles se aproximando de onde eu estava. Fingi que estava dormindo.
— Ei moleque, acorda. Estende as mãos para pegar a sua comida.
— Senhor, antes eu poderia ir ao banheiro? Estou apertado!
— Desamarre ele, e o leve até lá.
— Pode deixar chefe!... Mantenha a venda garoto.
— Entendi, senhor!
Quando fiquei de pé, as minhas pernas falharam por estarem dormentes. Pensei que cairia no chão, igual a uma fruta podre. Para meu espanto, o homem que se intitulava como chefe, segurou-me, impedindo a minha queda.
— Tenha cuidado rapaz, espere as suas pernas se acostumarem antes de dar os passos.
— Obrigado senhor! ... Me dirigia a eles com respeito, falando firme, sem demonstrar medo. Aguardei até sentir firmeza nas minhas pernas, levaram-me até o banheiro, entrei e tirei a venda. Olhei pela janela e as minhas suspeitas eram verdadeiras, estávamos longe da cidade. Fiz as minhas necessidades, lavei as minhas mãos e quando fui colocar a venda percebi que era transparente. Se eu tirasse a dobra, daria para ver tudo. Coloquei de um jeito que não levantasse suspeitas e avisei que estava saindo.
O bandido que me guiou até o banheiro, levou-me de volta para o quarto. Sendo que o chefe mandou que me colocasse numa cama que estava num canto perto de uma janela, que percebi não estava trancada com cadeado.
Comecei a planejar a minha fuga, o modo como a corda estava envolta nos meus pulsos, seria muito fácil tirar, mas, eu não podia fazer nada precipitadamente. Teria que prestar atenção nos hábitos dos meliantes primeiro, para depois agir.
Apesar de ser sequestrado por bandidos, eles não me agrediram e não me trataram m*l. Alimentaram-me, faziam-me caminhar pelo quarto para não ficar com as pernas dormentes outra vez, eu só não tomava banho. Estava com as mesmas roupas há quase uma semana. Nessas caminhadas pelo quarto, pude ver através da venda o que havia além do quarto onde eu estava. Também notei que, numa determinada hora eles desapareciam, não sabia para onde iam, só sei que ficavam um bom tempo longe, não sei precisar quanto tempo era, só sabia que seria o suficiente para que eu pudesse fugir.
Concentrei todas as minhas energias para o dia seguinte, decidi arriscar. Fingi dormir após comer e fiquei atento aos movimentos deles. Através da venda vi os sequestradores, que estavam sem as máscaras, mentalizei detalhes dos seus rostos. Estavam cochichando uns com os outros, deram uma última olhada para a cama onde eu estava fingindo dormir e saíram. Aguardei por alguns minutos e soltei as minhas mãos da corda, desamarrei os meus pés, tirei a venda e fui para a janela que ficava ao lado da cama. Não estava trancada, mas, estava emperrada. Com dificuldades consegui abrir e pulei para fora. Não percebi antes que era um pouco alto, estava perto de uma ribanceira, onde um rio passava logo abaixo. Quando pulei não consegui manter-me de pé, escorreguei e fui dando cambalhotas até cair no rio que era profundo. Apesar de saber nadar um pouco, a correnteza era muito forte e me arrastou, como se eu fosse uma pena.
O instrutor de natação uma vez me disse que, quando caímos no rio ou no mar, que não devemos entrar em pânico e nem tentar nadar, que devemos ficar calmos e manter o corpo boiando, mantendo a cabeça para fora da água, que uma hora encontraríamos um remanso ou umas raízes na qual agarraríamos e que no mar, ele sempre devolve o que pegou.
Fiz o que aprendi e consegui manter-me vivo. Quando cheguei numa parte onde a correnteza estava mais calma, consegui me agarrar na margem, havia alguns matos, que cortaram as minhas mãos, pareciam navalhas, senti muita dor e não consegui me segurar por muito tempo.
Quando o rio começou a levar-me outra vez, senti uma dor aguda na minha cabeça, acho que bati numa pedra e estava perdendo a consciência. Antes de desmaiar, senti uma mão me segurando pela gola da minha camisa e me puxando para a margem.
Ouvi uma voz que parecia ser de um anjo. Que me sacudia, fazia massagem de RCP e respiração boca a boca.
— Menino, acorde! O que aconteceu com você? Venha, vou te levar até o hospital da vila.
— Fui sequestrado, mas consegui fugir. ... Consegui balbuciar sentindo a minha cabeça zonza e tossindo muita água.
— Se foi sequestrado, então não posso ir pela estrada, temos que ir pelas margens do rio, é mais distante, porém é menos perigoso.
Tirei do meu bolso o talismã da sorte que a minha avó havia me dado e coloquei na mão da menina. ... — Guarde isso com você, serei eternamente grato e cuidarei de você no futuro como uma irmã. Procure-me na Cidade A, o meu nome é Eduardo Guimarães. Depois disso, desmaiei. Acordei algumas vezes e sentia o corpo macio da menina, que com dificuldades me carregava nas suas costas, sentia o seu cheiro refrescante de lavanda, ouvia a sua respiração ofegante e a sua voz suave, parecia que falava com alguém. Em nenhum momento ela me deixou cair. Quando acordei estava num leito de hospital e a minha família estava no quarto junto comigo. Fiquei desmaiado por vários dias e quando sai do hospital, ninguém sabia dizer como eu havia chegado ali. Não vi mais a menina e nem sei o nome dela.
CONTINUA!...