J ade Stellar estava em Miriad.
Yohanna Winchester estava em Miriad.
E eu não sabia dizer qual dos dois era pior.
Quem iria subitamente aparecer agora? A moça da p********a de detergente do canal 9? O prefeito da Disneylândia? Um terrorista famoso? Não que Hanna Winchester não fosse meio terrorista quando ela queria. Ou quando não queria. Ou em todos os momentos em que respirasse.
Depois de concluir que eu realmente ainda não havia tido nenhuma espécie de morte cerebral, meu primeiro impulso foi fechar a porta com força e torcer mentalmente que eu estivesse tendo alucinações. Até a possibilidade de estar ficando maluca era completamente mais aceitável do que a veracidade da
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imagem de Hanna Winchester parada em minha varanda. E de Herman servindo como seu guia.
— Eveline Gringer!! Abra esta porta agora mesmo!! Ah, Deus... ela realmente está ali.
— Não! Volte para o Rio de Janeiro! — eu gritei de volta, com as costas coladas na porta e pensando num jeito inteligente de lidar com aquilo.
Mas meus pensamentos foram interrompidos quanto a porta se abriu com um golpe poderoso, ou quando fui arremessada contra o chão a frente.
— Que diabos?
Quando levantei minha cabeça, Hanna Winchester estava à porta, com uma das mãos levantadas, como se tivesse aberto a porta apenas com a força do pensamento. Bile subiu á minha boca quando percebi as faíscas verdes saltando de seus dedos.
Voltei a deixar que minha cabeça caísse, tampando o rosto com as mãos.
— Ah, meu Deus! Você realmente está aqui! E tem coisas estranhas saindo de seus dedos que decididamente não sairiam dos dedos de humanos normais...
— Eu sei. Inacreditável, não é?
Bati minha cabeça contra o assoalho de pedra. Por favor, que isso seja apenas um pesadelo. Por favor, Por favor...
— Por favor, só... me diga que você não está mesmo aqui. E que você não tem nenhum traço Falange...
Ela riu, parecendo terrivelmente divertida com meu desespero s obre a situação. Hanna entrou, observando a casa por dentro e parecendo reprovar a decoração rústica com iluminação âmbar com os olhos. Depois disso, sua atenção voltou a se centrar em mim. Claro, uma coisa de cada vez. Era o máximo que seu minúsculo cérebro parecia compelido a conceder que ela processasse.
Não que eu achasse que ela tinha um.
— Respondendo as suas perguntas: Eu estou na sua casa. E eu tenho traços Falanges. — num gesto estranho, ela passou a palma de uma das mãos á frente de seu rosto, e por um momento, o ar passou a tremular a sua frente, como se eu estivesse tentando ver por de trás de vidro ou água. O ar se ondulando de forma ilusória como se suas moléculas estivessem se dissolvendo no calor de raios solares.
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Então, o inesperado aconteceu: os olhos de Hanna de repente não eram mais azuis, mas engolidos em fendas escuras, repuxados dos lados com os olhos de um gato, as íris se tornaram negras como piche, seus lábios levemente arroxeados e o mais interessante de tudo: uma marca escura de um pentágono envolto em outro símbolo estranho apareceu em seu colo.
Deus... ela era... era... simplesmente...
— Porque eu nunca vi isso antes? — minha voz saiu perplexa, se debatendo em minhas cordas vocais como um peixe fora da água morrendo por sufocamento.
— Porque você e as outras pessoas só veem o que eu quero que vejam. — ela deu de ombros, voltando a fazer gesto à frente do rosto e voltando a ser a Hanna Cabeça de Fuinha de sempre — Sou uma Falange Conjuradora.
Eu rolei os olhos, voltando a bater a cabeça com força no piso. Deus...
tem como isso ficar pior?
— Eu sempre soube que você era uma bruxa, mas isso é simplesmente ridículo!
— Ora, vamos... — ela rezingou passando por mim, os saltos finos de seu sapato derrapando de maneira engraçada no piso encerado de pedra enquanto eu tentava convencer meu cérebro a enviar a informação necessária à meus membros. Ficar caída no chão de minha própria casa enquanto Hanna inspecionava a mesma não era algo que eu achasse que quisesse fazer. — Acho que já passamos dessa fase.
— Que fase? — finalmente me sacudi no lugar, me jogando acima da melhor forma que consegui — Lamento destruir sua teoria banal, mas enquanto eu não chutar seu traseiro nós nunca vamos passar dessa fase.
Ela executou um movimento de lábios, ignorando meu comentário com um aceno de mãos enquanto continuava verificando os móveis cor de verniz.
— Só... deixe meu traseiro em paz.
— Você tem um!? — eu quase verbalizei surpresa — Ah, e deixe isso exatamente onde está! — eu xinguei, a observando puxar uma ponta da bela toalha chamuscada enfiada no grande lixeiro ao lado da pia.
Eu apenas esperava ter alguma ideia brilhante sobre o que fazer com ela depois.
— Uau! Mas que d***a de cheiro de queimado é esse?
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— Deve ser seu cérebro tentando trabalhar. Não que eu ache que você possa ter um capaz de fazer isso... — eu tomei a ponta da toalha de seus dedos, a socando ainda mais abaixo do grande cilindro de metal reluzente. Eu só esperava que tia Peg não tivesse um faro tão aguçado de c****a.
— Ótimo. Você tem problemas com meu traseiro e meu cérebro. O que mais? Se vamos fazer isso, ao menos vamos fazer direito... — ela me deu as costas, girando sobre os calcanhares e se encarregando de inspecionar o interior da pia e da geladeira.
— Sério? Tipo uma terapia? E quem disse que meus problemas estão relacionados apenas ao seu traseiro e cérebro? — eu fechei a porta da geladeira brutalmente, e sua mão quase ficou presa lá dentro. Urgh. A comida corria sérios riscos de apodrecer. — O meu problema é você.
Ela deu de ombros, voltando a ignorar meu chamado interior que invocava a sua ira de Fuinha.
— Ótimo. Então aprenda a lidar com isso.
— Eu não preciso aprender a lidar com você! — eu quase gritei, a perseguindo pelo cômodo enquanto ela continuava sua excursão — d***a! E mais importante: que diabos você faz aqui? E, Oh, Deus... me diga que aquelas malas não significam o que eu acho que significam!
— Caramba! Você é ainda mais frustrante do que eu me lembrava que fosse...
— Okay. Se eu sou frustrante, PORQUE DEMÔNIOS VOCÊ ESTÁ AQUI?
Ela finalmente parou em meio a sala que eu ainda não havia visto, e tentei não deixar a surpresa vazar por minhas expressões enquanto verificava que tínhamos uma sala de dar inveja: os estofados beiravam o cereja e o champagne, tal qual a decoração de meu quarto, um enorme e quadrangular tapete de veludo e colête estampado de símbolos Maoris adornava o chão de uma ponta a outra, e uma enorme lareira de ametista e obsidiana se erguia majestosa em estruturas de pedra viva e luzente, com duas espadas afiadas cruzadas em cima dela.
Espadas... pelo menos tenho algo para aniquilar o problema em alguns poucos instantes...
Mas, bem, eu tinha um problema loiro para resolver agora, e a decoração deslumbrante e Falange de minha linda casa teria de ficar para depois.
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Hanna voltou a segurar a cintura de picolé bem em meio ao enorme tapete de couro peluciado, e eu só quis implorar para que ela parasse de furar a bonita peça com seus saltos horríveis e suicidas.