Capítulo 19
Adelie
Ouvir meu sogro falando a respeito dos albaneses me trouxe ainda mais preocupação, e me fez enxergar que nem se eu quisesse conseguiria lutar sozinha, e que provavelmente eu não conseguiria resolver isso do jeito que planejei, o mais rápido possível.
Sai do escritório um pouco aérea, sentindo que a qualquer momento desabaria no choro.
Não sou mulher de resolver meus problemas com lágrimas, mas saber que teria que enfrentar uma guerra que poderia levar a muitas baixas me deixava profundamente triste.
O ciclo da vingança é vicioso, e parece nunca ter fim. É engraçado a forma que as coisas funcionam, porque eu só conheci Lev graças a vingança da minha mãe contra o avo de Lev. Olivia alagou a mansão com sangue russo, e espancou o velho a******r até a morte.
Quando ela me contou isso não dei muita bola, até porque escuto muitas histórias da minha mãe, vindas dela e de outras pessoas que conheço por acaso.
Porém, agora, analisando a situação como um todo, vejo que será para sempre dessa forma, que nada do que eu fizer hoje vai impedir que amanhã um maluco ou maluca qualquer se levante e pense: hum, vou me vingar daquela mafiosa maluca.
_ Não fique tão preocupada, viborazinha. _ A voz calma de Lev chamou minha atenção.
Olhei para ele que mantinha os braços cruzados enquanto seu pai mexia em alguns papeis.
Dei um sorriso fraco, tentando digerir todas as informações.
_ Você deveria conversar com a sua mãe, Adelie. _ Sugeriu Dmitri. _ Talvez Olivia possa ajudar muito mais do que você imagina.
_ Minha mãe já se feriu o suficiente, Dmitri, e acho que agora tudo que ela precisa é de paz e um pouco de sossego.
_ Somos da máfia, Adelie. Somos de uma geração muito mais complicada que a sua. Olivia está acostumada a não ter paz, e o dia que ela encontrar isso, certamente estará morta!
Meus pelos ficaram arrepiados, só de imaginar que algo poderia acontecer com a minha mãe.
_ Vamos investigar mais um pouco, tentar chegar até o líder deles. Eles não são perfeitos, não são fantasmas, com certeza deixam rastros. Não podemos focar nos problemas, e sim na forma de solucionar eles! _ Dmitri ficou atento nas minhas palavras, e parou de fazer o que estava fazendo para me ouvir.
_ É admirável ouvir isso de uma garota tão nova como você, Adelie. Mas infelizmente as coisas não funcionam dessa forma. Precisamos achar um furo, disso eu tenho certeza, mas sabemos que eles estão sendo criteriosos com absolutamente tudo que estão fazendo. Sem falar que os albaneses tem aliados também, não somos os únicos que temos alianças.
_ Eu sei tio, eu só... só não quero envolver minha mãe. _ Murmurei sentindo vontade de chorar.
Dmitri me deu um olhar de ternura, muito diferente do olhar que me deu ontem quando cheguei. Isso confirma que há mais de um em seu corpo.
_ Deixe isso para nós, Adelie. Vá ficar com a sua mãe, aproveite um pouco da sua juventude. Isso é um assunto dos adultos! _ Enfatizou Lev.
Olhei para ele e revirei os olhos.
_ Odeio quando me chama de criança, acho ridículo! _ Cruzei meus braços, deixando que minha irritação fluísse através dos meus olhos e expressões.
_ Adelie já é uma garota quase adulta, filho. _ Lev olhou para o pai com repreensão. _ Não adianta lançar esse olhar de Alba para mim, isso não funciona comigo. Sabe, acho que vocês dois deveriam começar a se habituar um ao outro. Quem sabe fazerem uma viagem juntos, ou passarem mais tempo fazendo coisas de namorados. _ Sugeriu Dmitri.
Meu queixo quase caiu com a ideia, mas Lev bufou.
_ Tenho muito trabalho a fazer. _ Disse ele.
As vezes tenho impressão de que não se trata somente de cumprir as regras e me manter pura até nosso casamento. Lev passa a impressão de não querer nenhum tipo de envolvimento por agora. Como se nós tivéssemos uma data exata para começarmos a nos conhecer melhor, a nos amar, a nos querer.
Levantei, sentindo um pouco de frio, pedi licença e fui até meu quarto. Peguei meu celular e liguei para Max, contando tudo que estava acontecendo.
_ Você acha que eles vão conseguir resolver sozinhos? Devo confessar que você é muito boa quando se trata de investigar, perseguir e torturar. _ Disse ele do outro lado da linha.
_ Não, acho que não vão conseguir. Vamos manter tudo como está. Tente achar alguém ligado aos albaneses, pode ser qualquer um, até um amigo de um amigo. Já serve. Vamos descobrir também quantas empresas ligadas a ele temos em nosso território, já será uma forma de chegarmos até eles.
_ Ok, farei isso. Ah, você já sabe quanto tempo passará aí?
_ Acho que irei embora amanhã. _ Murmurei desanimada.
_ Por que tão cedo? p***a, você tem que relaxar um pouco!
_ Lev pensa diferente de mim, Max. Acho que no momento ele quer distância, então, ele terá.
Max fez um longo silêncio na linha, respirando fundo.
_ Acho que ele só tem medo de perder o controle, apenas isso...
_ Max, não sou uma donzela em perigo, muito menos uma mulherzinha indefesa. E por favor, não proteja ele, já estou estressada o suficiente com tudo isso.
_ Perdão Adelie, perdão.
Encerrei a ligação, sentindo minha cabeça doer. Peguei um remédio na minha mala, e bem na hora Lev entrou no quarto.
Seu rosto estava sério.
_ Está com dor? _ Perguntou olhando para o medicamento em minha mão.
_ Sim, dor de cabeça. _ Tomei o medicamento comum pouco de água que havia ali.
Aproveitei e fechei a mala, arrumando algumas coisas que havia tirado dela. Coloquei de volta e na frente de Lev fiz a ligação para o piloto do nosso avião avisando que viajaríamos no dia seguinte pela manhã.
Lev ficou em silêncio, não disse absolutamente nada. Nem sequer me pediu para ficar.
Passei por ele na intenção de que talvez ele segurasse meu braço como fazem em filmes românticos, me puxasse para um beijo quente, me derrubasse na cama e me desse o carinho que eu precisava. Mas não, ele me deixou passar por ele.
Ele me deixou ir.
Chegando na sala de jantar dona Alba havia colocado a mesa. Disfarcei com maestria a tristeza que estava me inundando naquele momento e dei atenção a mulher que não parava de falar sobre a nossa casa, sobre as coisas que poderíamos fazer.
Acho que Alba também está estressada, porque consigo ver um certo cansaço estampado em seu rosto.
Ao final do jantar peguei meu prato e levei até a cozinha. Passei pelas mulheres que me destrataram sem dar um boa noite sequer.
Olhei para fora, e uma chuva forte estava caindo ainda. Soltei um longo suspiro. Senti uma mão grande no meu cabelo, fazendo cafuné meio desengonçado.
Olhei para cima, vendo tio Dmitri com um olhar diferente do olhar mais cedo.
_ Quem é você? _ Perguntei curiosa.
Ele deu um sorriso, como se soubesse a muito tempo que eu tinha conhecimento do seu transtorno.
_ Fantasma. E você é filha da muerte e do alemão. Tens os olhos de ambos, incrível! _ Disse ele em um tom baixo e reconfortante.
_ Quantas personalidades tem aí dentro? _ Voltei a olhar para o jardim e para a chuva.
_ Três. Somente três.
_ Somente? Meu Deus, três pessoas na mesma mente. Parece muito cheio.
_ Há pessoas que tem muitas personalidades. Dmitri é sortudo, tem apenas três. Mas não é sobre isso que eu quero falar com você, pequena Adelie. _ Ele parou de fazer carinho na minha cabeça, então encarei seus olhos estranhos.
_ Precisa cuidar do meu filho.
_ Quer que eu proteja o seu príncipe? Pensei que fossem grandes machos alfa! _ Falei debochando, mas ele pareceu não ligar.
_ Não quero que proteja Lev, quero que você se cuide. _ Arqueei uma sobrancelha, confusa. _ Adelie, você esta entrando em um mundo muito complexo e diferente do que já viu. Há coisas difíceis até mesmo para a minha compreensão, e eu já vago por esse muito há muito mais tempo que você.
_ Eu estou pronta!
_ Não, pequena, não está. _ Ele soltou um longo suspiro. _ Sei que não vai adiantar nada falar isso para você. Sei que já se decidiu, e ..._ ele me encarou de novo com intensidade. _ você parece muito com ela.
_ Com a minha mãe? _ Ele sacudiu a cabeça concordando. _ Eu não tenho intenção de ser como a minha mãe, eu quero ser eu mesma.
Ele deu um sorriso paterno, e me senti tão a vontade com ele a ponto de abaixar minhas barreiras, e deixar uma lágrima escorrer.
_ Lev parece não me querer por perto... _ Murmurei enolindo o choro.
_ Ele tem medo de perder você. Tem medo de te machucar. O meu menino é diferente, não igual a mim, mas ele tem algo dentro dele que pode te ferir. _ Me surpreendi com a revelação, e Dmitri, ou melhor, Fantasma deu um sorriso acolhedor. _ Lev sempre foi diferente, Adelie, e sei que você também é. Te peço para se cuidar, porque você, mesmo sem querer, se tornou a vida de Lev. E se algo te acontecer, Lev pode se fragmentar.
_ Mas, isso só acontece com crianças... Lev já é adulto.
Ele sacudiu a cabeça negando.
_ Dmitri e Lobo já desconfiam, mas eu tenho certeza, que há algo dentro de Lev que o torna violento e ciumento quando se trata de você, de qualquer coisa que te envolva. Se você se machucar nessa busca pelos albaneses, Lev vai reagir, e nem eu e nem ninguém vamos conseguir pará-lo.
_ Desculpa Fantasma, mas não posso parar minha busca por causa dele. _ Lamentava dizer isso em voz alta, e o homem a minha frente também.
_ Lamento por isso. Não quero ver você ferida, pequena Adelie. Apenas cuide seus passos, e não vacile em momento algum, a vida do meu filho depende da sua.
Ele afagou meu cabelo e saiu.
Então quer dizer que se algo acontecer comigo, refletirá diretamente em Lev?