Adelie
_ E então? Vai abrir o bico ou não?_ Perguntei mais uma vez.
Ele soltou uma risada bem irônica, e depois de me analisar por um tempo soltou um suspiro.
_ Você veio no lugar errado, pirralha. Não pode me ameaçar aqui, é zona neutra!
_ Eu vim no lugar certo, Clayton, e estou falando com a pessoa certa! _ Me ajeitei no sofá, sentindo meus ossos doerem das horas de viagem. _ Eu quero saber tudo sobre os albaneses, e você sabe o que eu quero dizer!
_ Sou apenas um assistente administrativo, não sei de nada!
_ Sabe sim, porque o seu chefe tem ligação com a máfia albanesa, e você o acompanha para todos os cantos como um cãozinho obediente!
Ele torceu o nariz e revirou os olhos. Max estava ansioso para dar uma surra no b****a, e eu também.
_ Os albaneses estão fazendo negócios com empresas que comandam o porto, é só isso que eu sei! A empresa fechou um acordo milionário com eles, só para fazer vista grossa e transportar alguns pertences às vezes.
_ Pertences? _ Perguntei confusa.
_ Sim, alguns pertences! _ Ele riu enquanto olhava para uma das mulheres que passou por nós.
Meu coração foi parar na garganta na mesma hora.
_ T-Tráfico humano? _ Perguntei.
_ Sim, isso e mais algumas coisas, sabe.
_ E como transportam pessoas ? Pelo o que eu saiba, os barcos dessa empresas são de pequeno porte, feitos para transportarem somente pequenas coisas..._ Max parou sua linha de raciocino na hora.
Olhei para o homem a nossa frente e ele apenas ergueu uma sobrancelha.
Crianças, a resposta era crianças.
Fiquei completamente atônita, sentindo meu peito doer. Tudo a minha volta pareceu parar no tempo, incluindo a musica.
Descobrir que debaixo dos nossos narizes acontecia esse tipo de coisa me deixou dormente. Minha alma parecia ter saído do corpo e retornado mais dura, mais fria.
_ Você vai ser meu informante! _ Levantei e parei próximo ao homem.
_ Que? _ Ele começou a rir. _ Ficou maluca, pirralha?
_ Sim, fiquei! _ Minha perna levantou e baixou rápido e com força, atingindo em cheio os testículos do homem que estava sentado com as pernas bem abertas, a vontade.
Ele não gritou, a dor ficou abafada em sua garganta junto com a surpresa do ataque.
_ Você não sabe a vontade que estou de te castrar, e te fazer engolir as próprias bolas. _ Soltei uma risada sem humor algum, tentando me manter no controle. _ Eu vou contar para os seus amigos que andou abrindo o bico, e sabe o que eles vão fazer com você, pequeno homenzinho?
Ele começou a negar repetidamente balançando a cabeça. Vê-lo desesperado massageou meu ego que estava sendo ferido há algum tempo.
_ Bom, eu acho que você sabe, não é? _ Soltei um suspiro e liberei o saco dele.
O homem se encolheu no pequeno sofá, em posição fetal.
_ Eu quero saber de cada passo do seu chefe, e quero saber qual embarcação está transportando as crianças.
_ M-M-Mas não é sempre que acontece... _ Murmurou ele.
_ Não importa, quando estiverem planejando transportar os “pertences” novamente, você vai me avisar.
_ E se me pegarem? _ Perguntou ele.
Fiquei um tempo pensativa.
_ Se você desconfiar que será pego, vá até minha mãe e conte tudo a ela. Olivia é misericordiosa e vai te oferecer p******o em troca de lealdade. Diga que fui eu quem disse isso, e ela cumprirá. _ Virei as costas para ele. _ Seja um bom garoto, ou eu volto e cumpro minha ameaça.
Assim que saímos do bar, completamente atônitos e carregados de todas as merdas que aquele cara falou, Max agarrou meu braço e me fez encara-lo.
_ Olivia vai mata-lo.
_ Eu sei! Acha que não conheço minha mãe, Max? Ela vai arrancar cada pedaço do corpo dele e faze-lo engolir. _ Falei em um tom zombeteiro.
_ O que vai fazer com essa informação?
_ Não sei... preciso de um tempo para assimilar tudo. _ Murmurei sentindo minha cabeça doer.
Max apenas concordou.
Voltamos para o hotel, Max foi para o seu quarto e eu para o meu. Me enfiei debaixo do chuveiro, sentindo meu coração dolorido.
Há uma cobra venenosa debaixo dos nossos pés, e ela está crescendo aos poucos sem que possamos perceber.
Quando minha mãe descobrir isso, o mundo vai virar de ponta cabeças, e vai sobrar até mesmo para tio Tulio, que não viu o que está acontecendo dentro do próprio território.
Isso me faz pensar que, talvez, haja mais tráfico em outros lugares, até mesmo no território da minha mãe.
_ Não, Adelie, eles não seriam tão ousados... _ Murmurei para mim mesma ao sentir a água morna do chuveiro escorrer. _ ... ou seriam?
(...)
Foi praticamente impossível dormir. Comecei a ter crises de ansiedade durante a noite. Meu coração começou acelerar do nada, e só de imaginar o tamanho da crueldade já me sinto enjoada.
Levantei da cama, sentindo um cansaço surreal. Lev não está aqui, e não há ninguém que eu possa abraçar e chorar, dizendo que estou com medo, e que mesmo assim vou continuar.
Abri a porta do quarto, observando o corredor frio e escuro. Dei alguns passos e a porta do quarto ao lado se abriu. Max saiu do quarto somente de calção e com uma arma em mãos, olhando para todos os lados.
_ Ouviu alguma coisa? _ Perguntou.
_ Não... mas não consigo dormir...
_ Eu também não. Mesmo cansado não consigo pregar o olho._ Disse ele lamentando.
_ Max, se importa de dormir comigo? _ Perguntei sem segundas intenções.
_ Adelie..
_ Eu durmo nos pés! _ Sugeri.
Ele fez um longo período em silêncio, e acabou cedendo.
Max abriu espaço e eu entrei correndo no quarto. Ele deitou em um lado e eu deitei com a cabeça nos pés da cama.
_ Pensei que você tinha chulé. _ Comentei.
Ele começou a rir.
_ Seu pé é bem f**o! _ Murmurou o homem.
_ O seu é pior! _ Rebati.
Ficamos rindo por um curto período de tempo, até que o sono nos pegou de vez. Não sonhei com nada, apenas com a escuridão. Talvez, reflexo do meu coração naquele momento específico..