🌹 Gêmeos da Máfia
Capítulo 3 – O Peso do Sangue
Narrado por Lorenzo
A raiva ainda está latejando em minhas veias quando fecho a porta atrás de mim.
A mansão Donatello repousa em silêncio, envolta pelo manto da madrugada, mas dentro de mim o caos grita.
Matteo.
Sempre ele.
Sempre vivendo no fio da navalha, como se a morte fosse só mais uma amante para levar para a cama.
E eu? Eu sou quem recolhe os cacos, quem limpa o sangue, quem mantém de pé o império que ele insiste em manchar.
Jogo o casaco na poltrona do hall e subo as escadas de mármore em passos duros. As paredes parecem me observar, adornadas com os retratos de nossos antepassados. Todos carregando o mesmo olhar: de orgulho e de peso.
É isso que significa nascer Donatello.
Não existe espaço para erros.
Entro no meu quarto, mas o ar ali parece sufocante.
A imagem dela ainda está gravada na minha mente: Lorena Mancini, envolta em vermelho, venenosa como uma serpente, quase colando os lábios nos de Matteo.
E ele… ele entregue, como sempre.
Socos a parede. Uma, duas vezes.
O gesso racha. Minha mão lateja, mas a dor é bem-vinda. Pelo menos me lembra de que ainda posso sentir algo além de frustração.
— Lorenzo? — a voz da minha mãe ecoa no corredor.
Congelo.
Ela sempre aparece nos momentos em que mais tento me esconder.
Isis Donatello, a mulher que ergueu o império quando todos apostaram na ruína.
E, ainda assim, não é só a rainha da máfia. É minha mãe.
Abro a porta. Ela está de pé, em um robe escuro de seda, os cabelos soltos caindo pelos ombros. Os olhos verdes fixam os meus com aquele dom maldito de ver além da fachada.
— Você voltou tarde. — diz, entrando sem pedir permissão. — E não veio sozinho.
Suspiro, passando a mão pelos cabelos.
— Matteo está se perdendo.
Ela fecha a porta, cruzando os braços.
— O que aconteceu?
Aperto o maxilar, hesitando. Mas esconder algo dela nunca fez sentido.
— Ele se encontrou com Lorena Mancini.
O nome cai no quarto como uma bomba.
O silêncio pesa.
Ela não se move. Apenas pisca lentamente, absorvendo cada sílaba.
— Tem certeza? — sua voz sai baixa, carregada de um gelo perigoso.
— Eu vi, mãe. Vi com meus próprios olhos. Ele… — engulo seco. — Ele estava encantado por ela.
Ela anda até a janela, afastando a cortina e encarando o jardim iluminado pela lua. Sei que não olha realmente para as flores. Ela vê além. Vê a guerra que pode nascer desse encontro.
— A filha de Carlo Mancini. — murmura, quase para si mesma. — Loira, olhos verdes. Sedutora e c***l.
— Exatamente. — confirmo. — Matteo não entende que ela não é só uma mulher bonita. Ela é uma armadilha.
Minha mãe gira devagar para me encarar.
— E você?
— Eu o impedi. — respondo, firme. — Tentei trazê-lo de volta. Mas… ele me ignorou.
Sinto o peso da derrota quando admito isso.
Meu irmão não me ouviu.
E eu sempre fui a voz que ele respeitou, mesmo quando zombava de tudo.
— Ele está se perdendo, mãe. — repito, a voz embargada. — Está indo por um caminho do qual não vai voltar.
Ela se aproxima, pousando a mão no meu rosto. Fecho os olhos por um instante, deixando o calor do toque dela atravessar a raiva.
— Não sei até onde posso segurá-lo. Ele é teimoso. Orgulhoso. Sempre foi.
— E você é o equilíbrio. — ela rebate, firme. — Lorenzo, desde o primeiro dia, você carregou mais peso do que deveria. Você é a bússola do seu irmão. E agora, mais do que nunca, ele precisa dela.
Dou um passo para trás, respirando fundo.
— E se ele não quiser ser guiado?
— Então você arrasta. — ela diz, sem hesitar. — Mesmo que seja à força. Porque se Matteo se afundar nos braços de uma Mancini, não será só ele quem cai. Será o império todo.
Meus punhos se fecham.
O eco das palavras dela me atravessa como lâminas.
Ela está certa. Eu sei que está.
Mas como arrastar alguém que não quer ser salvo?
— Eu não posso viver a vida dele por ele. — murmuro.
— Mas pode salvar a dele. — ela retruca. — Às vezes, ser irmão significa ser odiado.
Silêncio.
Nossos olhares se encontram.
E eu vejo ali não apenas a rainha da máfia, mas a mãe que já perdeu uma filha e quase perdeu o marido.
Ela não suporta a ideia de perder mais um.
— Eu não vou deixar, mãe. — prometo, enfim. — Não vou deixar que Matteo destrua a si mesmo.
Ela assente, mas os olhos brilham com lágrimas contidas.
— Eu confio em você, Lorenzo. Sempre confiei.
Um nó se forma na minha garganta.
Queria poder ser só um garoto outra vez, sem peso, sem guerra, sem responsabilidade.
Mas não sou.
Sou um Donatello.
E Donatellos não têm escolha.
Ela me abraça. Forte.
E naquele instante, sinto o peso do império inteiro nos meus ombros.
Matteo está se perdendo.
E eu sou o único capaz de puxá-lo de volta.
Mesmo que, para isso, eu precise quebrá-lo.