POV – ENZO VITALE
O lençol de seda preta estava uma bagunça, um mapa tátil da nossa entrega na noite anterior. Eu observava Valentina dormir por mais alguns minutos, o braço dela jogado possessivamente sobre o meu peito. A possessividade, que eu achei que era apenas uma ferramenta de proteção, agora tinha se tornado uma parte vital de quem eu era. Eu não queria apenas protegê-la; eu queria que o mundo soubesse que cada centímetro daquela pele marcada por batalhas pertencia ao Dom de Chicago.
Eu sentia um ciúme irracional até do vento que soprava pela janela aberta. A ideia de que qualquer outro homem pudesse ter visto o que eu vi, ou sentido o calor que ela emana, fazia meu sangue ferver. Eu sabia que ela era capaz de derrubar um exército sozinha, mas na minha mente, ela era a joia que eu guardaria no cofre mais seguro da minha alma.
— Acorda, Rainha das Sombras — sussurrei, distribuindo beijos pelo seu ombro nu. — O mundo lá fora ainda não sabe, mas ele já pertence a você.
Valentina abriu os olhos, e o sorriso que ela me deu foi a primeira coisa em trinta anos que me fez sentir que eu não precisava de mais nada. Mas a paz durou pouco. O rádio na cabeceira chiou. Era a voz grave e solene do meu pai.
— Enzo. Valentina. O tempo de segredos acabou. Espero os dois no escritório da mansão em uma hora. Tragam suas armas e suas mentes afiadas. Chicago vai tremer hoje.
POV – VALENTINA ORTEGA
Eu me sentia diferente. A dor da facada era apenas um eco distante, abafada pela plenitude de ter Enzo finalmente dentro e fora de mim. Eu o amava desde o primeiro dia, desde aquele momento no pátio da prisão quando Isabel me falou dele, e depois, quando o vi pela primeira vez com aquela arrogância que eu sabia que era apenas uma casca. Eu guardei esse amor como uma faca escondida na bota: silenciosa, letal e pronta para ser usada no momento certo.
Enquanto nos vestíamos, Enzo não conseguia manter as mãos longe de mim. Ele me puxava para beijos curtos e possessivos, a mão apertando minha cintura com uma força que dizia "você é minha".
— Se aquele segurança na porta olhar para você por mais de dois segundos, eu vou arrancar os olhos dele, Val — ele resmungou, ajeitando o coldre sob o paletó cinza.
Ri, dando um tapa leve em seu rosto. — Deixe de ser bobo, Enzo. Eu sou a sua segurança, lembra? Eu olho as suas costas.
— E eu olho a sua frente — ele rebateu, sério. — Ninguém toca no que é meu.
Chegamos à mansão Vitale sob um clima de guerra iminente. O Dom estava sentado em sua poltrona de couro, com Isabel e Luciana ao lado. No canto, meu irmão Gustavo, com as bandagens nas mãos e um olhar de quem tinha reencontrado sua essência de lutador.
POV – DOM VITALE
Observei os dois entrarem. O jeito que caminhavam, em sincronia, a tensão s****l e o respeito mútuo emanando deles como uma aura. Eu sabia. Meu plano, e o plano do meu falecido amigo Otávio, finalmente tinha dado frutos.
— Sentem-se — ordenei. — Valentina, você passou um ano protegendo meu filho sem saber toda a verdade. Enzo já sabe parte dela, mas hoje, as máscaras caem para todos.
Abri uma gaveta e tirei dois documentos. Um era o contrato de constituição da Sombras Segurança. O outro, um documento antigo, assinado com selo de cera e sangue.
— Otávio Ortega e eu fizemos um pacto de casamento quando vocês eram crianças — comecei, vendo os olhos de Valentina se arregalarem. — Não era apenas sobre negócios. Era sobre sobrevivência. Sabíamos que os Petrov e seus cães de guarda, os Harrison, tentariam nos destruir. A única forma de manter Chicago estável era unindo o aço dos Ortega com o ouro dos Vitale.
Olhei para Valentina, que estava estática.
— Seu pai não morreu apenas por uma aposta, Val. Ele morreu porque Arthur Harrison, o homem que você matou em legítima defesa, estava vendendo segredos da nossa logística para os russos. Otávio descobriu. Eles o doparam para tirá-lo do caminho. Quando você foi trabalhar naquela casa, eles viram a chance de destruir a linhagem Ortega de vez. Arthur tentou abusar de você para te quebrar, mas ele não contava com a sua força.
POV – VALENTINA ORTEGA
Ouvir aquelas palavras foi como levar um soco no estômago. Arthur Harrison... o homem que eu matei acidentalmente enquanto lutava pela minha integridade. Ele não era apenas um predador solitário; ele era uma peça de um tabuleiro que eu não via.
— Ele deixou uma viúva, não foi? — minha voz saiu fria.
— Sim — o Dom respondeu. — Clarisse Harrison e a filha, Elena. Clarisse é a mente por trás da empresa agora. Ela sabe de tudo. Ela ajudou a encobrir o que o marido fez com você e foi ela quem pagou o juiz para te condenar. Elas são as próximas, Valentina.
Senti a mão de Enzo apertar a minha por baixo da mesa. A possessividade dele agora era um combustível. Ele não estava apenas com ciúmes de seguranças; ele estava com sede de sangue por tudo o que eu passei.
— Vamos destruir os Harrison — Enzo disse, a voz gélida. — Não apenas matá-los. Eu quero que eles percam cada centavo. Quero que a fundação daquela família apodreça até que não reste nada além de poeira.
POV – ENZO VITALE
Meu pai abriu o mapa tático na mesa. Era a planta da mansão dos Harrison e os relatórios financeiros da Harrison Holdings.
— O plano começa agora — o Dom explicou. — Valentina, você conhece os pontos cegos daquela casa melhor do que ninguém. Gustavo, você e a equipe de elite da Sombras vão cuidar da extração. Enzo, você vai sufocá-los no mercado financeiro. Vamos cortar o oxigênio deles antes de cortarmos as gargantas.
Eu olhei para Valentina. O pacto de casamento que eu descobri há pouco tempo agora fazia todo o sentido. Ela não era apenas minha guarda-costas. Ela era a minha esposa por direito de sangue e honra.
— Eu já sabia do pacto, Val — confessei, olhando no fundo dos olhos dela. — Mas eu não queria que você soubesse até que o que sentimos um pelo outro fosse real. Eu não quero você por contrato. Eu quero você porque eu não sei mais respirar sem ter você cobrindo minhas costas.
Valentina se levantou, caminhando até o mapa. A frieza da Rainha das Sombras estava de volta, mas com um brilho de amor e ódio que a tornava invencível.
— Eu o amo, Enzo. Desde o primeiro momento. E o pacto do meu pai será cumprido — ela disse, apontando para o centro da mansão Harrison no mapa. — Mas primeiro, vamos dar a Clarisse e Elena o que elas me deram: o inferno na terra.
POV – ISABEL VITALE
O clima na sala era de pura eletricidade. Enzo e Valentina estavam operando em uma frequência que eu nunca vi em nenhum casal da máfia. Ele, com o ciúme possessivo que o fazia rosnar para qualquer um que chegasse perto dela, e ela, com a lealdade de uma loba.
— Temos quatro semanas para a execução completa — eu disse, intervindo. — Semana 1: Infiltração e vigilância. Semana 2: O colapso financeiro. Semana 3: O isolamento dos Harrison perante os Petrov. Semana 4: O ataque final.
— Não vamos esquecer dos detalhes — Valentina acrescentou, olhando para o irmão. — Gustavo, quero nossas mulheres infiltradas como equipe de serviço no jantar de gala da semana que vem. Clarisse ama ostentar. Vamos usar o orgulho dela como a nossa porta de entrada.
Gustavo assentiu, o punho batendo na palma da mão. A família Ortega estava de volta ao jogo.
POV – ENZO VITALE
Quando a reunião terminou, puxei Valentina para um canto do corredor, longe dos olhos de todos. Pressione-a contra a parede, minhas mãos prendendo seus pulsos acima da cabeça. O ciúme bobo voltou a latejar quando lembrei de como ela olhou para o mapa tático com tanta determinação — eu queria aquela atenção só para mim.
— Você está muito focada na guerra, Ortega — sussurrei, roçando meu nariz no dela. — Não esqueça quem é o seu Dom.
— Você é impossível, Enzo — ela riu, mas vi o desejo dilatando suas pupilas. — Estamos planejando um m******e e você está com ciúmes do meu foco?
— Sou possessivo com tudo o que é meu. Especialmente com a sua mente. — Beijei seu pescoço, sentindo o arrepio dela. — À noite, no apartamento, vamos continuar o nosso próprio "treinamento". Mas aqui, na luz, somos a frente e o verso.
— Sempre, Enzo — ela respondeu, soltando os pulsos e abraçando meu pescoço. — Eu protejo você do que você não vê, e você destrói o que está no nosso caminho.
O Dom tinha razão. Nada destruiria o que tínhamos formado. O pacto de sangue estava selado. Os Harrison achavam que tinham enterrado uma faxineira, mas eles tinham apenas plantado a semente da própria destruição. Chicago ia descobrir que o ouro e o aço, quando fundidos, criam uma liga que bala nenhuma consegue atravessar.
A guerra começou. E o primeiro passo para o inferno dos Harrison tinha acabado de ser dado.