Narrado por Cael
Ela gritou assim que entrou no círculo.
Seu corpo arqueou, os joelhos cederam. Mas não caiu. Não desmaiou. Resistiu.
O chão sob seus pés brilhou. As runas acenderam como fogo líquido.
— O que está acontecendo com ela? — murmurou Rhian, que nos seguira em silêncio.
— O sangue dela... está reconhecendo o chamado. Ela pertence a algo muito antigo.
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Isadora abriu os olhos. Não estavam mais castanhos. Nem dourados. Estavam prateados. Como os meus.
Mas com algo mais.
— Eu... lembro — ela sussurrou. — Lembro de uma mulher. Minha avó. Mas não era humana. Ela era... guardiã.
— Guardiã do quê? — perguntei, me ajoelhando diante dela.
— Do limiar entre os mundos — disse Isadora, a voz carregada por algo que não era só dela. — Sangue de loba. Magia de sangue.
É por isso que eu não sou só humana. E por isso o seu lobo me reconheceu antes mesmo de mim saber quem eu era.
Meu coração rugiu dentro do peito.
A resposta estava ali o tempo todo.
Ela era uma loba adormecida. Herdeira de uma linhagem perdida.
E agora, completamente desperta.
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Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, uma flecha cravou-se na árvore atrás de nós.
— Acha mesmo que vão aceitá-la, Cael? — a voz vinda da floresta era familiar. Fria. Cheia de veneno.
Era de um dos conselheiros da alcateia. Um traidor.
— Vão chamá-la de aberração. Bruxa. Maldição.
— Eu a chamo de minha companheira — rosnei, os olhos já transformados.
Isadora ergueu-se, o corpo emanando poder.
E pela primeira vez, não fui eu quem ficou entre ela e o perigo.
Ela rugiu.
Literalmente.
E o inimigo fugiu.
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Eu a vi em sua forma real naquela noite.
Não totalmente loba. Não totalmente humana.
Mas rainha entre predadores.