Narrado por Isadora
Eu o sentia.
O traidor.
Entre os rostos conhecidos, o cheiro familiar de aliados... havia algo podre.
Rhian.
Ele havia sumido por horas. Reaparecido sujo, com cortes superficiais demais para quem disse ter lutado até a morte.
E meus sentidos, agora mais aguçados, captavam o cheiro da mentira.
Na madrugada, segui o rastro dele. Vi quando saiu dos limites da clareira. Vi quando se ajoelhou diante de um homem encapuzado... e entregou uma pulseira feita com meu cabelo.
Magia de rastreamento.
— Ele está vendendo você — disse uma voz atrás de mim. Era Asha, a loba sentinela. Uma das poucas que confiavam em mim sem hesitação. — Cael precisa saber.
Mas não pude esperar.
Voltei correndo, o coração em fúria. Entrei no círculo principal da alcateia, onde os líderes discutiam estratégias.
— Rhian é o traidor — gritei. — Ele entregou minha localização. Vai abrir as defesas da floresta amanhã à noite.
Cael se virou como uma tempestade.
— O QUÊ?
Rhian, em pé no canto, não se moveu. Só me encarou.
— Ela está corrompida — disse ele, a voz fria. — Não é loba. É... outra coisa. E está arrastando você, Cael, para a ruína.
O silêncio caiu como uma sentença de morte.
Cael se aproximou devagar. Um rosnado crescendo em sua garganta.
— Você me traiu.
— Eu protegi a alcateia de um erro.
— Ela é minha companheira.
— Então morrerá com ela.
**
A luta foi curta.
Rápida.
Mortal.
Cael o dominou. Mas não o matou. Apenas olhou para mim.
— Você decide, Isadora.
Meu sangue queimava.
Eu era humana e loba. E agora... juíza.
— Que seja exilado. Mas que todos saibam... quem trair o elo entre companheiros... trai a própria natureza.
Rhian foi arrastado da clareira, cuspindo ódio. E enquanto ele desaparecia, uma brisa cortou a floresta.
E com ela, um sussurro antigo.
"Ela acordou... A herdeira do véu está entre nós..."
Cael me segurou pela mão.
— Agora eles sabem quem você é. E não vão parar.
— Nem eu.
— Então vamos pra guerra.
E eu sorri. Porque, pela primeira vez, me senti inteira.
Loba. Feiticeira. Mulher.
Companheira do Alfa.