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2478 Palavras
Vivian Eu era uma cidadã cumpridora da lei, mas se alguém podia me levar ao matricídio, era meu futuro marido. Odiava sua arrogância, sua grosseria e a maneira zombeteira com que me chamava de mia cara. Odiava a forma como meu pulso batia na extensão áspera de sua mão em volta do meu pescoço. E odiava como sempre parecia maior que a vida, como se as moléculas de qualquer espaço que ele entrasse tivessem que se dobrar para acomodá-lo. Está. Claro? Sua voz enlouquecedora ecoou na minha cabeça. Estava claro, sem dúvida. Estava claro que Dante Russo era Satanás em um terno bonito. Forcei meus pulmões a se expandirem além da minha raiva. Inspira, um, dois, três. Expira, um, dois, três. Somente quando minha pressão arterial voltou aos níveis normais, abri a porta do meu novo quarto em vez de caçar a faca mais afiada que pude encontrar. Como prometido, um cartão de visita com o número da assistente de Dante e um Amex preto esperavam na mesa de cabeceira ao lado de uma distinta caixa de anel vermelho. Quando abri a tampa, um diamante de seis quilates me piscou. Passei meus dedos sobre a joia deslumbrante. Cinco quilates, um raro corte Asscher, com diamantes de baguete menores adornando cada ombro. Deveria estar emocionada. O anel era impressionante e, a julgar pela cor e clareza do diamante, vale pelo menos cem mil dólares. Era o tipo de anel que a maioria das mulheres mataria para ter, mas quando o tirei da caixa e o deslizei no meu dedo, não senti... nada. Nada, exceto o pincel frio de platina e um peso pesado que mais parecia uma prisão do que uma promessa. A maioria dos anéis de noivado eram um símbolo de amor e compromisso. O meu era o equivalente a uma assinatura em um contrato de fusão. Um aperto estranho agarrou minha garganta. Não deveria ter esperado nada mais do que o que Dante me deu. Alguns casamentos arranjados, como o da minha irmã, se transformavam em amor verdadeiro, mas as chances gerais não eram grandes. Afundei na cama. O aperto se espalhou da minha garganta para o meu peito. Era e******o me sentir triste. E daí se Dante tivesse pedido da forma mais impessoal possível? Sabia desde o nosso primeiro encontro que não nos encaixaríamos. Pelo menos ele tinha sido honesto sobre suas intenções e limites. Ainda assim, uma parte de mim esperava que nossas interações anteriores fossem por acaso e que gradualmente aquecêssemos um ao outro, mas não. Meu futuro marido era simplesmente um i****a. O zumbido de um novo texto interrompeu meu chafurdar. Peguei meu telefone, esperando outra mensagem de felicitações ou um lembrete de Isabella para convidá-la assim que me instalasse. Em vez disso, vi uma mensagem da última pessoa que esperava ouvir. Heath: Feliz Dia do Chocolate Quente com Abóbora :) Encarei as palavras, esperando que desaparecessem como se eu as tivesse acidentalmente conjurado; não desapareceram. Meu estômago revirou. De todos os dias em que poderia ter enviado uma mensagem do nada, tinha que ser hoje, logo após me mudar para a casa de Dante. O universo possuía um senso de humor doentio. Havia um milhão de coisas que queria dizer, mas fiquei com algo seguro e neutro. Eu: Eles têm isso na Califórnia? Heath: Chocolate quente de abóbora? Não. Heath: Aqui só é permitido beber smoothies e sucos verdes ou será eliminado da ilha Meu pequeno sorriso desapareceu tão rapidamente quanto apareceu. Não deveríamos estar conversando, mas não consegui bloqueá-lo. Heath: Tenho enviado e-mails para Bonnie Sue todos os dias pedindo para abrirem uma loja em SF, mas sem dados até agora. Uma pontada me atingiu com a menção de Bonnie Sue. Era um café popular perto de Columbia, onde Heath e eu tínhamos cursado a graduação. Era famoso por seu chocolate quente de abóbora sazonal, e mesmo que não gostasse de abóbora e ele não gostasse de chocolate quente, aparecíamos todos os anos para seu retorno anual em meados de setembro. Esqueça o equinócio de outono; o verdadeiro primeiro dia de outono foi o dia em que a bebida reapareceu no cardápio de Bonnie Sue. Eu: Vai acontecer. A persistência sempre vence. A culpa inchou no meu peito enquanto Heath e eu trocamos mais conversa fiada. Perguntou sobre meu trabalho e a cidade; perguntei sobre seu cachorro e o clima em San Francisco. Foi a nossa conversa mais longa em anos. Normalmente, só trocávamos mensagens em feriados e aniversários e nunca falávamos ao telefone. Era mais fácil fingir que éramos conhecidos casuais dessa maneira, mesmo que não fôssemos nada. Heath Arnet. Meu melhor amigo da faculdade. Meu ex- namorado. E meu primeiro amor. Era uma vez, pensei que nos casaríamos. Eu me convenci de que superaríamos as objeções de meus pais e viveríamos felizes para sempre, mas nosso rompimento dois anos atrás provou que minhas esperanças eram apenas isso; esperanças. Frágil e insubstancial diante da ira de meus pais. Afastei as lembranças daquele dia e tentei reorientar. Eu: Como vai a sua empresa? Após nossa separação, Heath se mudou para a Califórnia e expandiu seu aplicativo de aprendizado de idiomas para a potência que era hoje. A última vez que verifiquei, era um dos quinze aplicativos mais baixados nos EUA. Heath: Muito incrível. Vamos a público no final deste ano Heath: Estamos esperando um grande IPO10. Talvez… 10-Oferta pública inicial é um tipo de oferta pública em que as ações de uma empresa são vendidas ao público em geral numa bolsa de valores pela primeira vez. Os três pontos que indicavam que estava digitando apareceram, desapareceram e depois apareceram novamente. Heath: Podemos revisitar as coisas depois que isso acontecer. Minha culpa endureceu em pavor. Ele não sabia do noivado. Não tinha postado on-line sobre o assunto, não tínhamos mais amigos em comum e Heath não seguia as páginas da sociedade, o que significava que eu tinha que contar a ele. Não podia mentir por omissão e deixá-lo pensar que havia uma chance de voltarmos a ficar juntos. Heath: Se você quiser, é claro. Praticamente podia vê-lo passando a mão pelo cabelo do jeito que sempre fazia quando estava nervoso. Meus dentes cavaram em meu lábio inferior. Sabia que parte do motivo pelo qual ele trabalhou tanto na startup foi para provar que meus pais estavam errados. Eles ficaram furiosos quando descobriram que mantive nosso relacionamento escondido deles por anos e ainda mais furiosos quando descobriram que Heath não vinha de um passado “apropriado”. Na época, ele tinha uma boa vida como engenheiro de software que trabalhava em seu aplicativo ao lado, mas não era um Russo ou um Young. Meu pai ameaçou me renegar se eu não terminasse as coisas com Heath, e no final, escolhi a família ao invés do amor. Heath provavelmente pensou que meus pais mudariam de ideia depois que sua empresa o tornasse um milionário. Não tive coragem de dizer a ele que não mudariam. Minha família tinha muito dinheiro, mas éramos novos ricos. Não importa quanto doamos para caridade ou quantos zeros tivéssemos em nossas contas bancárias, certas partes da sociedade sempre permaneceriam fechadas para nós... a menos que nos casássemos com dinheiro antigo. Heath nunca seria rico, o que significava que meus pais nunca o aprovariam como um par amoroso. Apenas diga a ele. Aliviei uma respiração profunda em meus pulmões antes de morder a bala. Eu: Estou noiva. Não foi a transição mais suave, mas foi curta, clara e direta. Resisti a voltar ao meu hábito infantil de roer as unhas enquanto esperava por uma resposta. Nunca veio. Eu: Aconteceu algumas semanas atrás. Meus pais arranjaram. Eu: Eu queria ter contado antes. Deveria parar, mas não consegui segurar minha versão de texto da palavra vômito. Eu: O casamento é daqui a um ano. Grilos. Cinco minutos se passaram, mas meu telefone permaneceu escuro e silencioso. Soltei um pequeno gemido e o joguei para o lado. Não deveria me sentir culpada. Heath e eu terminamos há muito tempo e, honestamente, fiquei surpresa que quisesse uma segunda chance. Eu teria pensado... Uma batida suave interrompeu o caos dos meus pensamentos. Aspirei outra lufada de ar e suavizei minha expressão em uma neutralidade educada antes de responder. — Entre. A porta se abriu, revelando cabelos grisalhos distintos e um terno preto perfeitamente passado. Edward, mordomo de Dante. — Sra. Vivian, o Sr. Dante pediu que eu a levasse em um tour completo pela casa. — Disse, seu sotaque britânico tão nítido quanto suas roupas. — Agora é uma boa hora, ou gostaria que eu voltasse em uma hora de sua escolha? Olhei para o meu telefone, depois para o frio e lindo quarto ao meu redor. Gostando ou não, esta era agora a minha casa. Poderia me trancar na minha suíte, dar uma festa de pena e agonizar com o passado ou poderia tentar tirar o máximo proveito da minha situação. Levantei-me e convoquei um sorriso que parecia apenas levemente forçado. — Agora está perfeito. Naquela noite, Dante e eu fizemos nossa primeira refeição juntos como um casal. Quis dizer isso no sentido mais amplo da palavra. Usava o seu anel e vivíamos sob o mesmo teto, mas o abismo entre nós fazia o Grand Canyon parecer um buraco comum no chão. Fiz uma tentativa corajosa de fechá-la. — Adoro a sua coleção de arte. — Disse. — As pinturas são lindas. — Exceto aquela que parece vômito de gato. A peça, intitulada Magda, estava tão fora de lugar em sua galeria que dei uma olhada duas vezes quando a vi. — Você tem uma peça favorita? Não era o tópico mais inspirado, mas estava me agarrando a canudos. Até agora, tinha tirado seis palavras de Dante, três das quais foram passe o sal. Ele estava basicamente a duas devoluções de ser um mímico bem vestido. — Eu não tenho favoritos. — Cortou seu bife. Meus dentes cerraram, mas engoli minha irritação. Desde a nossa interação nada estelar durante a minha mudança, passei dos estágios de choque e raiva do nosso noivado para a resignação. Estava presa com Dante, gostasse ou não. Tinha que aproveitar ao máximo. Se não tivéssemos… Imagens de dias frios, noites solitárias e sorrisos falsos encheram minha cabeça. Meu estômago se apertou com desconforto antes de tomar um gole de água e tentar novamente. — Quais são suas expectativas em particular? Sua faca e garfo pararam sobre seu prato. — Com licença? Uma reação perceptível. Progresso. — Antes, você disse que faríamos o papel de um casal amoroso em público e me avisou para, entre aspas, livrar-me de quaisquer noções românticas que possa ter de nos apaixonarmos, mas nunca discutimos como seriam nossas vidas privadas além de quartos separados. — Disse. — Jantamos juntos todas as noites? Discutimos nossos problemas de trabalho? Ir às compras e discutir sobre qual marca de vinho comprar? — Não, não e não — disse categoricamente. — Não faço compras. Claro que não. — Vamos viver nossas vidas separadamente. Não sou seu amigo, terapeuta ou confidente, Vivian. O jantar desta noite é simplesmente porque é sua primeira noite e eu estou em casa. — Sua faca e garfo se moveram novamente. — Falando nisso, tenho uma viagem de negócios na Europa chegando. Saio em dois dias, ficarei fora por um mês. Ele poderia muito bem ter me dado um tapa na cara. Olhei para ele e esperei que me dissesse que era uma piada. Quando não o fez, uma onda de indignação apagou minhas tentativas de jogar bem. — Um mês? Que tipo de viagem de negócios exija que fique fora por um mês? — O tipo que me faz ganhar dinheiro. A indignação se transformou em raiva. Ele nem estava tentando. Talvez a viagem de negócios fosse legítima, mas me mudo e ele sai por um mês? O momento era conveniente demais para ser ignorado. — Você já tem muito dinheiro. — Rebati, muito irritada para medir palavras. — Você claramente não tem interesse em ser civilizado, então por que está aqui? Dante levantou uma sobrancelha. — Esta é a minha casa, Vivian. — Quero dizer, aqui. Este noivado. — Gesticulei entre nós. — Você evitou minha pergunta da primeira vez, mas estou perguntando de novo. O que poderia tirar do nosso acordo que não conseguiria sozinho? A Lau Jewels era uma grande empresa, mas o Grupo Russo a eclipsava dez vezes. Não fazia sentido. Meu pai me disse que tinha algo a ver com o acesso ao mercado na Ásia, que era reconhecidamente o ponto forte da Lau Jewels e o ponto fraco do Grupo Russo, mas isso era importante o suficiente para Dante mudar sua vida pessoal? Sua expressão endureceu. — Não importa. — Considerando que é a razão pela qual estamos juntos, acho que importa. — Não, não importa. Por que se importa com o motivo de estarmos juntos? — Sua voz ficou fria, zombeteira. — Vai se casar comigo de qualquer maneira. A filha obediente que faz tudo o que seu pai diz. Poderia me ausentar durante o próximo ano até o nosso casamento, e ainda continuaria com ele. Não continuaria? Uma garra gelada de choque arrancou o ar dos meus pulmões. Não sabia como a conversa tinha escalado tão rapidamente, mas de alguma forma, sem tentar, Dante me atingiu bem na parte mais feia e indesejável de mim. A parte que eu detestava, mas não conseguia me livrar. — Agora, entendo. — Lutei pela calma, mas um tremor de raiva sangrou. — Um casamento arranjado é a única maneira de conseguir alguém para casar com você. É tão... tão... — Lutei para encontrar a palavra certa. — Horrível. Não é meu melhor trabalho, mas serviria. A diversão escura deslizou por seus olhos. — Se sou tão horrível, então diga a sua família que o casamento está cancelado. — Acenou para o meu telefone. — Ligue para eles agora. Vamos muda-la de volta para o seu apartamento como se isso nunca tivesse acontecido. Era desafio e sedução em partes iguais. Ele não achava que eu faria isso, mas sua voz era tão rica e persuasiva que quase me obrigou a obedecer. Meus dedos enrolaram em torno do meu garfo. O metal cavou em minha pele, frio e implacável. Não toquei no meu telefone. Queria ainda mais do que queria jogar meu vinho na cara presunçosa de Dante, mas não consegui. A raiva do meu pai. A crítica da minha mãe. O fracasso, se não seguisse com o casamento… não consegui fazer isso. A diversão de Dante desapareceu na atmosfera tensa. Algo brilhou em seus olhos. Desapontamento? Desaprovação? Era impossível dizer. — Exatamente. — Disse suavemente. A finalidade dessa palavra foi mais profunda do que uma faca recém-afiada. Terminamos o jantar em silêncio, mas meu bife havia perdido o sabor. Reguei com mais vinho e deixei o calor consumir minha vergonha.
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