Pré-visualização gratuita 1. Rubi
Eu acordo antes do sol. Não porque quero, mas porque meu corpo já se acostumou a vigiar o silêncio da casa, como se ele pudesse me avisar quando o inferno vai começar. Alice dorme encolhidinha ao meu lado, respirando daquele jeito leve que só crianças que ainda têm esperança conseguem respirar. Passo a mão no cabelo dela devagar, tentando não pensar no que me espera do lado de fora da porta.
O chão da sala range.
Ele acordou.
Meu estômago se fecha. Não preciso ver o rosto dele pra saber se é um dia r**m. Eu sinto no ar: pesado, úmido, como se a casa inteira prendesse a respiração comigo.
Levanto devagar, pego Alice no colo e a levo até o colchão no canto do quarto. Ela remexe, mas não acorda. Ainda bem. Se ela vê... ele fica pior.
— Rubi! — a voz dele explode, grossa, irritada. — Acordada?
"Sim", eu penso. Mas não respondo alto. Se demoro, ele reclama. Se respondo rápido demais, também reclama. Eu me preparo para a guerra diária, respirando fundo antes de abrir a porta.
— Tô aqui — digo baixo.
Ele está parado na cozinha, camisa aberta, olhos vermelhos de bebida. O cheiro me dá náusea. Minha mão treme enquanto coloco água pra esquentar. Ele repara.
— Tá com medo de quê? — ri, daquele jeito que não tem humor nenhum. — Eu te fiz alguma coisa?
A pergunta é uma armadilha. Qualquer resposta vai virar munição. Fico quieta. Ele bate a mão na mesa, forte, e eu pulo sem querer.
— Fala comigo, p***a! — grita.
— Não tô com medo — minto.
Ele se aproxima devagar, como um predador que gosta do momento antes do ataque. Enfia os dedos no meu queixo e me obriga a olhar pra ele.
— Ainda bem. Mulher minha não treme.
Mulher minha. Aquelas palavras descem pela minha garganta como vidro moído.
Ele solta meu rosto só quando quer, só quando percebe que já doeu. Eu volto a mexer no café, tentando manter as mãos firmes. Não dá. A colher bate na borda da xícara, fazendo um som que ecoa como sentença.
Ele repara. Ele sempre repara.
— Tá nervosa, né? — ele diz, aproximando-se por trás. — Eu sei quando você mente.
Sinto o peito dele na minha coluna, pesada, ameaçadora. O braço envolve minha cintura como um grilhão quente. Ele me aperta, não com carinho, com posse.
— Eu não fiz nada pra você ficar assim — continua, roçando a boca no meu pescoço. — Mas posso fazer, se é isso que você quer.
Meu corpo inteiro se enrijece. Ele sorri contra minha pele, satisfeito.
— Não... por favor — sussurro.
— Então para com essa frescura, Rubi.
Ele me larga e caminha até a sala, jogando-se no sofá. Minutos depois, o estouro do controle na parede me faz saltar. Ele grita porque a TV não liga. Ele grita porque o café demorou. Ele grita porque... porque sim.
É sempre assim.
E eu sempre calo.
Volto ao quarto e vejo Alice acordada, sentada no colchão com o ursinho no colo. Os olhos dela me perguntam se "ele" está bravo. Eu não respondo. Apenas a abraço forte, rezando para que ela nunca entenda o quanto dói ser prisioneira dentro da própria casa.
Enquanto eu a seguro, um pensamento passa rápido, urgente, quase proibido: preciso tirar minha filha daqui. Preciso sair. Antes que ele acabe com tudo. Antes que ele acabe comigo.
Mas então a porta bate na sala, e eu volto a ser pequena, muda, presa.
Ainda não hoje.
Ainda não agora.
Então eu volto para a cozinha, pisando baixo para não irritar o Diego. Na esperança de um dia conseguir sair daqui. Mas o pensamento de sair do r**m, e ir para o pior me esmaga.
Como eu poderia tirar minha filha de um teto, para viver nas ruas? Eu não tenho mais ninguém além do Diego e Alice.
Vivi até os meus 14 anos com minha vó. Quando ela faleceu, eu perdi o chão e qualquer mínimo afeto parecia real naquela situação. Diego parecia um príncipe encantado e, foi assim, dessa forma que a pequena Rubi de 14 anos se casou com um homem com o dobro de sua idade, sem saber que aquele casamento mudaria toda sua história. (Para pior)
Alice apareceu na porta da sala segurando o ursinho pelo braço. O cabelo todo bagunçado, a camisola amarrotada. Ela esfregou os olhos e, quando me viu com a bandeja, abriu um sorrisinho tímido.
— Bom dia, mamãe... bom dia, pai...
Ela dá dois passinhos na direção dele, esperando alguma migalha de atenção. Eu prendo a respiração. Ele nem olha.
— Pai? — ela tenta de novo, mais baixinho. — Olha meu ursinho novo...
Ele vira o rosto na direção dela, lento, irritado.
— O que você quer, menina? — rosna.
Alice encolhe os ombros, mas ainda segura o ursinho como se fosse proteção.
— Só queria mostrar...
— Burra — cospe a palavra como se fosse sujeira. — Eu tô tentando assistir, p***a. Sai daqui.
Meu coração despenca no peito. Alice dá meio passo pra trás. Eu tento chegar perto dela antes que ele continue. Mas ele não termina ali.
— Rubi, tira essa garota burra daqui. — Ele aponta pra Alice sem nem olhar. — Já falei pra manter ela longe de mim, não já? A filha é sua, você cuida.
“A filha é sua” como se eu tivesse feito sozinha.
Como se ela, não tivesse sido concebida em uma noite que ele me forçou.
Alice baixa a cabeça devagar, apertando o ursinho até os dedos ficarem brancos. Eu me ajoelho ao lado dela.
— Vem, meu amor — digo baixinho. — Vamos lá pra cozinha com a mamãe.
Ela não responde. Só encosta a testa no meu ombro, e eu sinto o tremor pequeno no corpinho dela.
Por um segundo, olho para o homem sentado no sofá, o pai que ela nunca vai ter, o perigo que eu chamo de marido porque não tenho escolha.
E dentro de mim, algo racha de um jeito irreversível.