2. Rubi

1147 Palavras
O sol já bate forte quando saio de casa com Alice pela mão. Ele deixou umas notas em cima da mesa, jogadas, amassadas, como quem alimenta um cachorro. "Vai comprar comida. E não demora." Foi tudo o que disse. Eu guardo o dinheiro no sutiã, como sempre. Não confio nem no bolso. Alice caminha ao meu lado, quietinha, arrastando o ursinho pela alça. A rua está cheia de vizinhos indo e vindo, som de rádio alto, cheiro de pastel e tempero fritando no ar. Mas nada disso apaga o nó na garganta. Quando chegamos à feira, Alice finalmente relaxa um pouco. Seus olhinhos brilham quando vê as cores das frutas. — Mamãe, olha! Morango! — ela diz, apontando com aquele entusiasmo que dói de tão puro. — A gente pode levar um pouco, sim — respondo, mesmo sabendo que ele vai reclamar do preço depois. Escolho rápido: arroz, feijão, algumas verduras, um pedaço de carne magra, tudo que dê pra fazer render. O feirante sorri pra Alice, que fica tímida mas retribui um micro sorrisinho. — Essa aí é sua princesinha, né? — ele comenta. Eu sorrio, mas meu peito aperta. Sim. Minha princesa. Só minha. — É sim — respondo. — Obrigada. Seguimos mais adiante, e Alice aperta minha mão. — Mamãe... o papai vai ficar bravo se a gente demorar? Eu respiro fundo, tentando não deixar ela sentir meu medo. — Não, meu amor. A gente tá fazendo tudo certinho. Ela pisca, pensativa, e depois olha pras bancas cheias de doces. Eu sei o que ela quer, mas não pede. Ela nunca pede. Então eu mesma decido. — Escolhe um bombom — digo. — Só um. Os olhos dela se iluminam como se eu tivesse dado o mundo. Ela pega um simples, baratinho, e segura nas duas mãos como um tesouro. — Obrigada, mamãe... — diz baixinho. É aí que percebo: minha filha aprendeu a agradecer por coisas mínimas, porque em casa, até respirar é um risco. Enquanto caminhamos de volta, sinto o peso do dinheiro sujo que ele me deu queimando contra minha pele. Não sei de onde vem, nunca perguntei, mas sei que não é limpo. Sei que por trás das saídas tardias e das ligações silenciosas, existe algo que ele nunca quis que eu entendesse. Alice morde o bombom, feliz, sem saber que cada passo que damos de volta pra casa é uma bomba. A caminhada de volta parece mais longa. Cada risada na rua, cada moto passando, cada portão batendo me faz olhar rápido para os lados. Alice segura meu dedo com força, como se pressentisse que estou tentando manter tudo de pé por nós duas. Quando chegamos diante da nossa casa, o silêncio me dá calafrios. Ele sempre faz mais barulho quando está de mau humor. Silêncio, pra mim, significa que algo está sendo acumulado. Entro devagar, com a chave já tremendo entre meus dedos. A sala está vazia. A TV desligada. O copo de ontem ainda na mesa. Isso pode significar duas coisas: ou ele saiu... ou está dormindo. Ambas são armadilhas diferentes. Eu faço sinal pra Alice ir pro quarto. — Vai brincar um pouquinho, meu amor. A mamãe já vai. Ela obedece sem reclamar, abraçando o ursinho, andando na pontinha dos pés. Vou até a cozinha e começo a tirar as compras da sacola. Lavo as mãos, amarro o cabelo, tento entrar no modo automático, o único jeito de sobreviver sem provocar nada. Corto cebola, alho, coloco arroz na panela. O cheiro quente começa a se espalhar, e eu me pego respirando fundo como se isso pudesse me dar algum tipo de paz. Depois começo a temperar a carne, tentando não fazer barulho demais com a tábua. O óleo estala. O relógio marca quase meio-dia. Fico monitorando cada som da casa. Nada e isso me deixa ainda mais tensa. Enquanto mexo a panela, meus pensamentos martelam sem parar. Não posso continuar criando minha filha assim. Não posso esperar o dia em que ele faça com ela o que faz comigo. A imagem dele xingando Alice de "burra" ainda está latejando no fundo da minha mente, queimando. — Mamãe? — a voz baixinha dela surge na porta da cozinha. Viro rápido. — O que foi, meu amor? — O papai não tá aqui? — ela pergunta, sem medo, só curiosidade, como qualquer criança perguntaria. — Acho que ele saiu um pouco — digo. — Mas a gente precisa falar baixo, tá? Ela balança a cabeça e vem até mim, abraçando minha perna com força. Eu passo a mão no cabelo dela e beijo o topo de sua cabeça. — Quando o almoço ficar pronto, te chamo — digo, tentando sorrir. Ela me dá um sorrisinho pequeno, quase cansado, e volta pro quarto. Quando a porta do quarto dela se fecha, deixo o sorriso morrer. Sinto as costas queimarem com uma tensão que nunca vai embora. Estou mexendo a panela quando ouço a porta do quarto bater. Não com força, mas daquele jeito descuidado que só acontece quando ele não está sóbrio ou não está pensando. Meu coração dispara. Ele aparece no batente da cozinha poucos segundos depois, a camisa meio aberta, o cabelo bagunçado e a cara amassada, como se tivesse dormido no sofá de alguém ou caído em algum lugar. Os olhos semicerrados, vermelhos. — Vou sair — diz, a voz embolada. — Preciso resolver umas paradas. Eu engulo seco, tentando entender o humor dele pelo tom, pelo jeito que se apoia no batente. Ele nem olha pra mim direito. — Você quer almoçar antes? — pergunto baixinho, pra evitar qualquer fagulha. Ele balança a cabeça, impaciente. — Não. Não vou ficar. — passa a mão no rosto, irritado com alguma coisa que não tem nada a ver comigo. — Só... não mexe no meu celular. E fica em casa. Entendeu? Assinto rápido. Ele pega as chaves da moto na mesa, mas algo me arrepia. O jeito que ele demonstra pressa não é normal. O jeito que evita meus olhos também não. Ele sai sem dizer mais nada. A porta bate de novo e fica ali. Encostada. Espero alguns segundos. Depois caminho até a porta, o coração na boca. Giro a maçaneta. Ela abre. Ele não trancou a casa. Minha respiração falha por um instante. Ele sempre tranca. Sempre. Como se eu fosse propriedade. Como se eu não pudesse dar um passo além da calçada. Mas hoje ele saiu rápido, distraído... ou irritado demais pra lembrar. Atrás de mim, a panela borbulha. Na frente, a rua aberta me encara e dentro de mim, surge aquele pensamento proibido, que até então era sussurro, agora grita: eu posso sair, eu posso ir embora. Ouço passos pequenos atrás de mim. — Mamãe? — Alice pergunta, segurando o ursinho pela orelha. — O papai saiu? Eu olho pra porta aberta. Depois olho pra ela. O destino inteiro cabe nesse segundo.
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