Por um segundo, fico ali parada, olhando a porta aberta como se fosse milagre. Depois o cheiro do arroz começando a agarrar no fundo da panela me traz de volta.
Eu corro para o fogão e desligo tudo. A comida fica pela metade, carne m*l passada, arroz no meio do cozimento, cheiro de alho no ar. Não importa. Nada disso importa agora.
O silêncio da casa parece mais alto do que qualquer grito dele.
— Alice — chamo, com a voz firme pela primeira vez em muito tempo. — Vem cá, meu amor. Agora.
Ela aparece no corredor, assustada com o meu tom, mas vem sem questionar. Pegá-la no colo seria mais lento, então seguro sua mão com força e a guio até o quarto. Fecho a porta atrás de nós, não tranco, só encosto. O coração bate tão rápido que parece um tambor dentro do peito.
— Mamãe? Tá tudo bem? — ela pergunta, abraçando o ursinho.
Me ajoelho na frente dela, segurando seu rosto com as duas mãos.
— A gente vai sair daqui, tá? Bem rápido. Mas você tem que ficar bem quietinha e fazer tudo que eu falar.
Ela arregala os olhos, mas não chora. Alice sempre entendeu mais do que deveria.
— Tá bom, mamãe.
Levanto e vou direto para o guarda-roupa. Puxo uma bolsa velha que eu quase não uso: pequena, mas cabe o essencial. Minhas mãos tremem, mas eu continuo. Não posso parar.
Começo a colocar dentro: duas mudas de roupa dela, uma camiseta minha, o documento dela, que eu escondia dentro de um livro, minha carteira e uma garrafinha de água.
O restante fica pra trás. Tudo o que não cabe na bolsa, vai ter que caber na coragem. Alice fica perto da cama, observando em silêncio, apertando o ursinho contra o peito.
— Mamãe... e o papai? — ela pergunta baixinho.
Sinto o ar travar nos pulmões.
— A gente vai sair antes dele voltar — digo, sem desviar o olhar da bolsa. — A gente vai ficar longe dele agora, tá? Ele não vai machucar mais você. Nem a mamãe.
Ela não responde. Só vem até mim e segura minha perna, como se soubesse que esse momento é frágil e gigante ao mesmo tempo. Fecho a bolsa. O zíper parece fazer mais barulho do que o normal, denunciando minha decisão ao mundo inteiro.
Pego a bolsa numa mão, a mão de Alice na outra. A porta da frente continua entreaberta, como se tivesse sido deixada assim pelo destino: ou por milagre, só esperando por esse instante.
Sem olhar pra trás, eu solto o ar preso na garganta. Chegou a hora.
Seguro firme a mão da Alice e caminho até a porta da frente. Cada passo parece ecoar pelo chão. A casa, pela primeira vez, não parece só um lugar... parece um monstro que a gente está finalmente abandonando.
Abro a porta devagar. A rua está calma demais, o tipo de calmaria que dá medo. Ainda assim, meus pés se movem sozinhos.
— Fica do meu ladinho, tá? — digo para Alice.
Ela só balança a cabeça e aperta o ursinho contra o peito.
Saímos.
A luz do sol bate forte no rosto dela, e vejo seu olho piscar rápido, como se estivesse vendo o mundo pela primeira vez sem medo. Eu fecho a porta atrás de nós sem fazer barulho. Sem chave. Sem volta.
A rua está quente, poeira levantando com o vento fraco. Ninguém presta atenção em nós, todo mundo ocupado demais com sua própria vida. Isso é bom. Isso é perfeito.
Desço a calçada com passos rápidos, mas tento não parecer desesperada. Olho pra trás uma, duas, três vezes. Ele pode aparecer a qualquer momento. Pode virar a esquina. Pode desligar a moto e perguntar:
"Tá indo pra onde, Rubi?"
Meu coração ameaça sair pela boca.
— Mamãe... pra onde a gente vai? — Alice pergunta, com aquela voz fina que me corta.
— Um lugar seguro — digo, sem saber qual é esse lugar ainda. — A mamãe vai dar um jeito.
Passamos pela esquina da senhora que vende coxinha. Pelo boteco do Silvio. Pelo mercadinho que sempre fecha cedo. Todos cenários que eu sempre vi presa, mas que agora vejo em movimento, como se eu estivesse atravessando a última fronteira.
A cada passo, a adrenalina esquenta meu sangue.
A cada passo, a coragem cresce.
A cada passo, o medo grita: "Corre."
Eu acelero.
Alice tenta acompanhar, suas perninhas pequenas trabalhando dobrado. Eu a pego no colo por instinto, mesmo com o peso da bolsa, e quase corro sem parecer que estou correndo.
Chegamos na rua principal, onde passa ônibus. Onde tem gente suficiente pra ele não me arrastar de volta sem testemunhas. Onde eu posso respirar um pouco.
Onde eu posso fugir de verdade.
Olho para os lados, tentando decidir. Ir pra rodoviária? Pegar o primeiro ônibus pra qualquer lugar? Ir até a casa da vizinha que um dia disse pra eu pedir ajuda caso precisasse?
Meu coração bate tão forte que chega a doer.
Então, um barulho de moto ao longe faz meu corpo inteiro congelar. Engulo seco.
— Segura firme, Alice — digo, abraçando ela mais forte.
E dou o primeiro passo para longe de tudo que um dia me destruiu. Agora eu não paro mais.