4. Rubi

1012 Palavras
O barulho da moto ao longe me empurra para a parada de ônibus como se minhas pernas soubessem o caminho antes da minha cabeça. Não sei se é ele. Não quero descobrir. Chego na parada quase correndo. Tem três pessoas esperando. Ninguém olha pra mim por mais de um segundo, ainda bem. Quanto menos atenção, melhor. Alice está no meu colo, respirando rápido, escondendo o rosto no meu ombro. O vento quente traz o cheiro de poeira, gasolina e fritura de algum lugar perto. Meus olhos se enchem de lágrimas que eu não posso deixar cair agora. Não agora, não enquanto luto para conseguir fugir do cativeiro que passei anos da minha vida. Então eu vejo: o farol do ônibus virando a esquina. Eu não faço ideia pra onde ele vai. Não olho letreiro. Não pergunto nada. Só sei que é longe dele. Quando ele para, a porta se abre com um chiado alto, e o motorista me encara com aquele olhar cansado de quem já viu muita gente fugindo de muita coisa. — Vai pra Rocinha — ele diz antes mesmo de eu perguntar, como se quisesse saber se eu topo. Eu topo. — A gente vai — respondo, e meu próprio tom me surpreende. Não é um pedido. É uma decisão. Entro rápido, quase tropeçando. Passo as notas amassadas pela catraca, sem contar quanto dei, sem esperar troco. Só quero sentar. Só quero andar. Quero distância. Me sento no fundo, abraçando Alice com a bolsa pressionada contra o corpo. O ônibus arranca. Meu coração quase desaba junto, mas continua batendo: forte, desesperado, vivo. O bairro vai ficando para trás pela janela: a rua onde eu já chorei, a vendinha onde ele já gritou comigo, o portão onde Alice esperou por um pai que nunca quis ser um. Tudo ficando pequeno, distante, quase imaginário. Eu passo a mão no cabelo da minha filha. — Mamãe, pra onde a gente vai agora? — ela pergunta sem levantar a cabeça. Respiro fundo, olhando a cidade se abrir em ruas desconhecidas, curvas que não sei onde levam, prédios que nunca vi. — A gente vai começar de novo — digo. — Num lugar onde ele nunca vai te machucar. Ela aperta meu pescoço, como se isso bastasse pra acreditar. O ônibus sobe uma ladeira alta, entra em vias estreitas, e a paisagem muda para casas simples, ruas vivas, movimento constante, gente indo e vindo, conversas altas, vida pulsando. E eu sinto: não sei o que me espera lá em cima. não sei quem vou encontrar. não sei se é seguro. Mas é longe dele e isso já é liberdade. O ônibus para numa área movimentada do morro. O barulho é outro: motos subindo a milhão, crianças correndo, funk baixo vindo de alguma casa, gente falando alto. Vida pra todo lado. Desço com Alice no colo, a bolsa pendurada no ombro, sem saber onde estou, só sabendo onde não estou mais. O chão é quente, o sol bate direto, e o medo lateja atrás dos olhos. Dou três passos pra frente e, antes que eu entenda o território, dois caras surgem da esquina. Traficantes. Jovens, armados, olhar afiado. Eles param a conversa imediatamente quando me veem. Um deles dá um passo à frente, franzindo a testa. — Qual foi? Quem é tu? — pergunta, olhando de cima a baixo, desconfiado. — Tu tá no nosso território, gata. O outro já chega mais agressivo, puxando a camisa pela frente. — Fala logo aí: quem te mandou subir? Hein? Tá fugindo de quê? Meu coração bate tão forte que dói. Eu aperto a mão de Alice. — Eu... só tô procurando um lugar pra ficar — digo, a voz quase falhando. O primeiro dá uma risada seca, debochada. — Lugar pra ficar? Aqui? Sem avisar ninguém? — Ele balança a cabeça. — Aqui não é pousada, não, princesa. Aqui é área fechada. O segundo chega mais perto, irritado. — Responde direito: quem é tu? Antes que eu te faça responder no grito. Eu dou um passo pra trás. Alice me abraça, assustada. Meu corpo inteiro congela. — Porra... — o mais agressivo faz menção de me segurar pelo braço — Foi m*l, mas tu não vai ficar subindo o morro assim, sem avisar... Mas então a sombra aparece atrás deles. Uma sombra grande. Muito grande. Os dois vapores param imediatamente. O clima muda como se o ar tivesse ficado denso. — Qual é, chefe — diz o primeiro, tenso. — A gente só tava resolvendo aqui... Eu não consigo ver o rosto dele ainda, só o tamanho. Alto. Largo. Ombros enormes. A energia que chega primeiro do que o corpo. A voz dele vem pesada, calma, profunda e, ainda assim, perigosa. — Resolve nada. Pode deixar que eu resolvo. Os dois vapores se afastam na hora, abrindo espaço. É quando eu finalmente o vejo. Eu quase saio correndo, aquele homem era literalmente mais assustador que o Diego, e nem falo só em questão da cara fechada, e a expressão de que poderia me matar se olhasse errado. Mas também os dois metros de altura, - no mínimo - pele quente do sol, olhar que parece enxergar o que eu quero esconder. Tatuagem no braço. Mão grande segurando o rádio. Postura de quem manda sem precisar levantar a voz. Ele me olha como quem avalia um problema grave... e ao mesmo tempo como quem não esperava ver alguém como eu ali. — Quem é você? — ele pergunta, mas não é uma ameaça. É quase uma análise. Meu coração corre mais rápido do que minhas pernas poderiam. — Meu nome é Rubi — digo, segurando Alice como se fosse parte do meu corpo. — Eu só... precisava sair de casa. O olhar dele cai em Alice. Depois sobe pra mim de novo. Alguma coisa endurece no rosto dele, não raiva, não violência. Proteção. Mesmo que ele ainda não entenda por quê. Ele dá um passo à frente. — Tá tranquilo. — diz, sem tirar os olhos dos vapores. — Podem deixar a mulher passar. Os garotos assentem rápido.
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