Ele continuou me encarando por alguns segundos, como se estivesse juntando as peças do que vê: uma mulher cansada, tremendo, segurando uma criança que tenta esconder o medo no ursinho.
— Tu tem lugar pra ficar? — ele pergunta enfim, a voz baixa, firme, sem rodeios.
Eu balanço a cabeça. O nó na garganta aperta.
— Não... não tenho ninguém. Só queria um canto seguro por uns dias. Eu... eu não sei pra onde ir.
Alice aperta meu pescoço e sinto o corpinho dela tremer. Isso faz ele olhar pra ela de novo e algo muda no olhar dele. Uma sombra mais suave. Ou talvez respeito.
Ele solta um longo suspiro.
— Tem uma casa vazia na parte de cima — ele diz, apontando com o queixo. — Era de um parceiro meu que foi preso. Tá trancada, mas eu tenho a chave. Tu pode ficar lá um tempo.
Meu coração quase desaba de alívio.
— Eu... eu não tenho como pagar agora — digo rápido. — Mas eu posso... fazer alguma coisa. Trabalhar. Ajudar. Não quero ficar devendo nada, moço.
Ele arqueia uma sobrancelha, como se não tivesse entendido por que eu tô falando de dívida logo agora.
— Ninguém tá falando de dívida, não — ele responde seco.
Mas eu insisto, porque meu corpo inteiro aprendeu que nada vem de graça.
— Eu posso fazer comida, posso limpar, posso lavar roupa... qualquer coisa. Eu não quero que pareça que tô abusando da sua boa vontade.
Ele fica me olhando por longos segundos. Depois a boca puxa um meio sorriso, não de deboche, mas de surpresa. Quase como se achasse engraçado que alguém quisesse pagar por algo que ele deu porque quis.
— Tu é cheia de regra, né? — diz, passando a mão na barba.
Eu abaixo os olhos, envergonhada.
— Eu só... preciso fazer as coisas direito.
Ele estala a língua, pensa um pouco e diz:
— Tá. Então se tu quer mesmo pagar de algum jeito... — Ele cruza os braços, firme. — Vai na minha casa amanhã de manhã e dá um geral lá. Uma faxina. A casa tá um caos. Eu não tenho tempo pra essas porras.
Eu o encaro, surpresa. Ele não tá brincando.
— Assim... fica justo pra você — ele continua. — E tu para de achar que tá me devendo. Serve?
Meu peito enche de um alívio que quase dói.
— Serve — digo, sincera, segurando a mão da Alice. — Serve, sim. Obrigada.
Ele faz sinal com a cabeça, chamando um dos vapores.
— Leva elas lá pra cima. E me traz a chave de volta depois.
O vapor obedece sem discutir. Mas antes de eu seguir, Edgar me chama.
— Ei, Rubi.
Eu paro. Ele olha pra mim como quem faz uma promessa simples... mas enorme.
— Fica tranquila, se tu andar no sapatinho, ninguém vai mexer contigo.
O vapor faz um sinal rápido para um carro prata estacionado perto de uma viela estreita. Ele abre a porta traseira.
— Sobe aí, dona. O chefe mandou levar vocês direitinho.
Eu ajudo Alice a entrar primeiro. Ela sobe tímida, segurando o ursinho com tanta força que os dedinhos ficam brancos. Depois entro atrás dela, fechando a porta devagar, como se qualquer barulho pudesse desmoronar a coragem que ainda me mantém de pé.
O carro liga, e o motor faz aquele barulho forte que ecoa pelas ruas do morro. O vapor assume o volante, sério, sem uma palavra a mais do que o necessário.
Quando o carro começa a subir, a Rocinha se desenha pela janela, uma mistura de casas empilhadas, gente conversando nas portas, motos rasgando ladeira acima, roupas coloridas nos varais. É caótico, vivo, assustador... e, ao mesmo tempo, tão diferente de tudo de onde eu vim que meu peito aperta.
Alice encosta a testa na janela.
— Mamãe... a gente vai morar aqui?
— Por enquanto, sim, meu amor — respondo, acariciando o cabelo dela. — Mas vai dar tudo certo. Eu prometo.
Ela assente, embora eu saiba que ela não entende completamente. Mas confia. E isso é o que mais dói.
O carro passa por uma curva fechada, e eu me seguro no banco quando vejo a vista lá de baixo. O mundo parece pequeno. Minha vida antiga parece ainda menor.
— O chefe é gente boa — o vapor diz de repente, quebrando o silêncio. — Meio brabo, mas justo. Se ele disse que vocês tão seguras... então tão mesmo.
Eu só faço um sinal com a cabeça. Não sei se agradeço, se choro, se respiro. Tudo parece grande demais.
Depois de mais algumas curvas, ele estaciona numa ruazinha estreita. Casas simples, portas coloridas, uma escada lateral que sobe mais um pouco.
Ele desce do carro, abre nossa porta e entrega a chave na minha mão.
— É a vermelha ali, ó. Segundo andar. A chave é dessa casa. — Ele gesticula a subida. — Qualquer parada é só chamar.
Eu seguro a chave como se fosse ouro. Como se fosse liberdade. Até porque é exatamente isso. Minha liberdade, eu vivendo minha vida.
— Obrigada — digo, com a voz fraca.
Pego a bolsa, seguro Alice pela mão e começo a subir os degraus quentes. Cada passo é um passo longe do homem que destruiu minha vida... e um passo mais perto do homem que pode mudar tudo.
Quando chego na porta branca, paro por um momento, respirando fundo.
Giro a chave a fechadura cede e eu entro. O ar cheira a poeira antiga, mas é silêncio. É vazio.
É nosso, pelo menos por hoje.
Alice entra atrás de mim e olha tudo com os olhinhos curiosos.
— Mamãe... essa casa é da gente?
Eu me abaixo e a abraço forte.
— É por enquanto, meu amor. Mas já tá muito melhor do que qualquer coisa que a gente deixou pra trás.
E pela primeira vez desde que fugi eu me permito respirar um pouco mais fundo.