Eu acordo antes do sol. Não por hábito. por necessidade. No morro, quem manda dorme leve. Quem dorme pesado morre rápido.
Abro os olhos e a casa está no mesmo silêncio de sempre. Grande, espaçosa... e vazia. O tipo de silêncio que ecoa. O tipo de vazio que ninguém vê, mas todo mundo sente quando entra.
Levanto, vou até a janela e olho a Rocinha acordando lá embaixo. Vapores trocando turno, motos descendo as vielas, gente indo trabalhar. É meu território. Minha responsabilidade. Às vezes meu peso também.
Meus 43 anos pesam no corpo. Mas pesam mais na alma.
Vou pra cozinha e pego o café frio da garrafa. Não tenho paciência pra esquentar. Também não tenho quem faça isso por mim há muito tempo.
A casa é grande demais pra um homem só e é pequena demais pra guardar tudo que eu perdi.
A foto da minha esposa continua na estante da sala. O sorriso dela nunca mudou, mas eu mudei inteiro depois que ela morreu. Depois que tiraram ela de mim. Depois que eu precisei me tornar mais frio, mais perigoso, mais chefe do que homem.
Desde então, ninguém mora comigo. Ninguém entra demais e ninguém fica. Eu respiro fundo, jogo água no rosto e pego o rádio.
— Tô descendo. Mantém geral ligado. — Minha voz sai seca, firme.
Desço a rua, e os vapores fazem sinal de respeito. Aqui todo mundo me conhece. Todo mundo sabe do que eu sou capaz. Mas quase ninguém sabe quem eu sou de verdade.
Um líder não pode ter fraquezas porquê fraqueza, vira alvo.
Vejo um dos meninos discutindo por causa de ponto. Resolvo em duas palavras. Vejo outro vacilando no serviço. Chamo de canto. Falo firme. Ajeito. Liderança não é só violência, é controle. É cuidado. É saber quem é seu e quem pode te derrubar.
E, apesar do poder, da arma na cintura, do respeito que ecoa quando eu passo... eu sei que minha vida não tem nada de leve.
Não tem toque.
Não tem afeto.
Não tem cor.
Só rotina, responsabilidade e fantasmas.
Eu sigo andando, observando tudo, como sempre faço. Chefe que não observa morre cedo. Mas, no fundo, a verdade é simples: minha vida não tem surpresa.
Não tem novidade e nada que mexa comigo de verdade. Pelo menos... antes eu tinha.
A manhã segue como sempre. Eu passo pelo beco do "Pé de Vento", confiro se o caixa bate com o relatório, aviso dois moleques sobre postura, ajeito a entrega que atrasou. Tudo normal.
Mas a cabeça... não tá normal hoje.
A cada passo que dou, sinto aquela velha sensação voltando: um aperto no peito que eu aprendi a ignorar, mas que sempre encontra um jeito de me pegar desprevenido.
Talvez porque o dia esteja quieto demais. Talvez porque dormi m*l. Ou talvez porque, no fundo, eu nunca superei merda nenhuma.
Subo a viela maior do morro, e quando passo pela laje da "Dona Zilda", o cheiro de pão caseiro me invade. A memória vem como uma pancada.
Minha esposa fazia esse pão. Todo sábado. Eu paro por um segundo, respiro fundo, mas o ar não entra direito.
— Porra... — murmuro, passando a mão no rosto. — De novo, não.
Mas vem.
Sempre vem.
Vejo ela na lembrança: cabelos presos de qualquer jeito, avental florido, rindo de alguma piada i****a que eu fazia só pra ver aquele sorriso. O sorriso que me tirava do sério. O sorriso que ninguém mais conseguiu imitar.
Ela era meu equilíbrio, meu ponto fraco e minha maior força. Até o dia em que ela saiu de casa pra comprar remédio e... não voltou.
A notícia chegou rápido: um assalto, uma briga que não era dela, uma bala perdida. Eu cheguei tarde demais.
E naquele mesmo dia, jurei duas coisas: nunca mais deixaria ninguém que eu amo vulnerável e nunca mais deixaria meu coração aberto pra ninguém.
Eu cumpri as duas promessas, e até demais.
Eu endureci, fiquei frio e sozinho. E a solidão virou hábito. Um hábito que adoece, mas mantém vivo.
Chego perto da minha casa: grande, silenciosa, estéril. Piso dentro e o eco dos meus passos me lembra que aqui só mora um homem... e seus fantasmas.
Vou até a sala. A foto dela me encara da estante. Eu deveria esconder essa p***a, mas não consigo. Aproximo os dedos da moldura, mas paro antes de tocar. Não sei por quê. Talvez medo de apagar o pouco dela que ainda lembro.
— Se você tivesse aqui... — murmuro, a voz falhando — ...eu não era esse homem, né?
O silêncio responde por ela.
Eu me sento no sofá e apoio os cotovelos nos joelhos. Fico lá. Respirando o passado que não volta. Pensando no futuro que nunca planejei.
A vida virou rotina e essa merda de rotina virou sobrevivência.