Acordo com a sensação de que meu corpo é só um eco. Fraco, bambo, meio dormente. A fome aperta como um buraco dentro de mim, um vazio que não é só físico; é emocional, também. Passei o dia de ontem fugindo, carregando a Alice, vivendo de adrenalina, mas e agora, sem o medo imediato empurrando minhas pernas, tudo desaba de uma vez.
Abro os olhos devagar. A casa é simples, velha, mas silenciosa. Não tem grito, não tem porta batendo, não tem ameaça vindo da sala. Só existe o barulho leve da respiração da minha filha ao meu lado e a claridade fraca entrando pela janela torta. Mesmo assim, meu corpo ainda reage como se o perigo estivesse do outro lado da porta. Demora alguns segundos pra eu lembrar: eu tô longe dele. Pelo menos por agora.
Alice mexe no meu braço, os cabelinhos grudados na testa, as bochechas murchas de tanto cansaço.
— Mamãe... tô com fome... — ela murmura, a voz fininha, quase envergonhada, como se pedir comida fosse errado.
Meu peito aperta com força. Ela deve ter ido dormir no colo da fome, e eu nem percebi. No desespero de fugir, não sobrou tempo, nem comida, nem lógica. Só instinto.
Eu me sento devagar, sentindo o estômago doer. Coloco a mão nas costas dela.
— Eu sei, meu amor, a mamãe tá com fome também. A gente vai dar um jeito, tá? — digo tentando não tremer.
Levanto e começo a vasculhar a casa. Não tem geladeira funcionando. Não tem fogão ligado. Só um armário vazio, uma pia com louça velha deixada pelo antigo dono e poeira acumulada nos cantos. A sensação de fracasso me dá um soco no peito, mas eu engulo. Não posso cair agora. Não posso desmoronar na frente da minha filha.
Vou até a janela e olho o morro acordando lá fora. Gente subindo, gente descendo, vendedores abrindo barracas, motos cortando as vielas. Tudo pulsando vida. E eu ali, parada, tentando decidir por onde começar a reconstruir o que restou da nossa.
Eu sei que não posso depender daquele homem pra tudo. Ele me ajudou ontem, sim, mas isso não significa que vai sustentar duas desconhecidas. Eu não quero dever favor a ninguém. Quero ficar limpa. Solta. Livre. Preciso trabalhar. Preciso achar um emprego. Qualquer coisa. Faxina, cozinha, lavar, passar, cuidar de criança, o que aparecer eu agarro.
E antes disso, preciso cumprir o que prometi. A faxina na casa dele.
Pelo menos é um começo. Uma forma de mostrar que não tô ali só pra pedir ajuda. Uma forma de me manter digna, respirando.
Pego a Alice no colo, porque sei que ela não vai aguentar andar muito com tanta fome, e começo a descer as escadas estreitas da casa vermelha. O sol bate forte, o morro já está fervendo de gente e movimento. Pergunto mentalmente: onde é que mora o tal chefe? Eu não sei o nome dele. Não sei onde mora. Não sei nada além do olhar pesado que ele lançou ontem e da promessa silenciosa que trouxe um pouco de paz ao meu peito pela primeira vez em anos.
Desço a viela e vejo alguns vapores reunidos. Eles me olham de um jeito curioso, sem hostilidade dessa vez, talvez porque sabem que o chefe deixou. Eu respiro fundo, seguro Alice mais firme e tomo coragem.
— Com licença... — minha voz sai baixa, mas firme. — Vocês podem me dizer onde fica a casa do... do chefe? Ele pediu pra eu ir limpar hoje.
O vapor mais velho ergue o queixo, me analisando. Ele não parece desconfiado, só surpreso.
— Ah... a casa do Edgar? Lá em cima. Última laje da segunda subida. Não tem erro. É grande. Porta marrom.
Edgar. O nome dele. Finalmente tenho um nome pra vincular àquele homem enorme que apareceu na minha frente como se soubesse exatamente quem eu era antes mesmo de eu abrir a boca.
Agradeço e começo a subir com a Alice no colo. As vielas parecem mais íngremes do que ontem, o sol mais quente, meu corpo mais fraco. Mas eu vou. Porque preciso. Porque não tenho escolha. Cada passo é uma prova de que eu ainda existo, ainda respiro, ainda luto.
Alice encosta a cabeça no meu ombro, cansada.
— A gente vai comer, mamãe?
— Vai sim, meu amor. A mamãe promete. Depois que a gente trabalhar um pouquinho, a gente vai comer direitinho.
Sinto o coração bater mais rápido, não só pelo esforço, mas pela incerteza. Não sei como vai ser encontrar Edgar de novo. Não sei se ele é realmente seguro. Não sei o que ele vai esperar de mim.
Mas alguma coisa dentro de mim diz que, seja como for, eu cheguei no lugar certo e que, minha vida vai mudar de um jeito que eu ainda não consigo entender.
A subida até a casa do Edgar parece não ter fim. Cada degrau de concreto machuca meus pés, cada curva estreita faz meu coração acelerar um pouco mais. O sol bate forte nas lajes, refletindo na parede branca das casas e deixando tudo ainda mais quente. Alice está mole no meu colo, cansada e com fome, mas tenta não reclamar. De vez em quando ela se ajeita, esfrega os olhos e pergunta se está chegando, e eu digo que sim, mesmo quando não tenho certeza.
A viela fica mais silenciosa conforme subo. O movimento diminui, e as casas ficam mais afastadas, maiores, algumas com grades reforçadas, outras com portões bem pintados. E então vejo: a última laje da segunda subida, como o vapor disse. Uma casa grande para os padrões do morro, com uma porta marrom escura, pesada, que combina com a aura dele. A laje é ampla, tem plantas secas encostadas num canto, e um silêncio estranho pairando no ar, como se aquela casa fosse respeitada até quando está dormindo.
Meu estômago ronca tão alto que chega a doer. Alice aperta meu pescoço com mais força, procurando segurança. Eu fecho os olhos por um instante, respiro fundo e tento reunir toda minha coragem. Não quero parecer fraca. Não quero chegar pedindo nada. Vim cumprir o que prometi. Vim trabalhar. Vim mostrar que ainda consigo me erguer mesmo com o mundo desabando em cima de mim.
Ajeito Alice no colo, e bato na porta devagar. O som ecoa grave, como se a madeira fosse mais firme do que tudo em mim. Espero. O silêncio se alonga num tempo que parece grande demais. Estou prestes a bater de novo quando ouço passos pesados vindos de dentro da casa.
Meu coração dispara.
A maçaneta gira, e a porta se abre devagar.
Edgar aparece no vão: alto, enorme, ombros largos ocupando metade da entrada. Ele está de bermuda, camiseta simples, barba por fazer, com o rosto marcado por noites m*l dormidas. Mesmo assim, parece firme, sólido. O tipo de presença que enche o espaço. Os olhos dele descem até a Alice no meu colo e depois sobem de volta para mim, demorando alguns segundos que me deixam sem ar.
Ele não fala nada de imediato. Só observa. Como se estivesse tentando entender quem sou, de verdade e então, a voz dele quebra o silêncio, grave, baixa, quase rouca da manhã.
— Tu veio mesmo.
Sinto minhas pernas quase falharem, mas fico firme.
— Eu disse que vinha. — Minha voz sai suave, mas controlada. — Vim fazer a faxina.
Os olhos dele estreitam de leve, não em desconfiança, mas em análise. Em algo que eu não entendo. Ele encosta a mão na porta, como se pensasse no que dizer, e só então abre espaço para eu entrar.
— Então entra, Rubi. — Ele move o queixo para o interior da casa. — Vamos resolver isso.
Dou um passo pra frente, com Alice ainda no colo, atravessando a porta.