8. Rubi

970 Palavras
Entro devagar na casa dele, sentindo o cheiro leve de poeira misturado com o perfume masculino que parece impregnado nas paredes. A sala é grande, espaçosa, mas desarrumada: sofá com roupa jogada, uma mesa com documentos espalhados, uma garrafa de água pela metade, duas canecas esquecidas. Não é sujeira, é descuido. É solidão. É o tipo de bagunça que um homem sozinho faz quando não tem ninguém para notar. Edgar passa por mim sem encostar, mas a presença dele é tão grande que parece empurrar o ar. Ele vai até a cozinha, pega um copo, enche de água da torneira e bebe como se tivesse esquecido que o tempo existe. Depois olha por cima do ombro, direto para mim e para Alice. — Vocês tomaram café? — ele pergunta, do nada, com aquela voz grave que não combina com delicadeza. Eu hesito. Não quero parecer pidona. Não quero que ele ache que vim atrás de comida. — Ainda não. — digo, tentando soar neutra. — Eu ia trabalhar primeiro, depois resolver isso. Ele franze a testa, um movimento pequeno, quase imperceptível, mas que deixa claro que não gostou da resposta. — Não. — Ele deixa o copo na pia, batendo de leve. — Aqui ninguém trabalha com o estômago vazio. Ele diz isso como quem dita uma regra. Simples. Inquestionável. Eu abro a boca para protestar, mas ele levanta a mão, cortando meu argumento antes mesmo de eu dizer. — Tu vai tomar café. A menina também. — O olhar dele cai em Alice, que se esconde um pouco atrás de mim. — Depois tu começa. E só depois. Alguma coisa solta dentro de mim. Uma parte pequena, silenciosa, que não está acostumada a alguém, cuidar. Mesmo que de forma dura. Ele aponta para a cozinha. — Tem pão, manteiga, café passado. Serve pra vocês. Fica à vontade. A palavra à vontade parece estranha com a timidez desse homem gigante que m*l olha nos meus olhos por mais de três segundos. Ele não sorri, não tenta ser simpático, não tenta parecer bom. Ele simplesmente faz, como se fosse natural. Como se fosse o mínimo. E então, sem esperar resposta, ele passa por mim, indo em direção ao corredor que leva aos quartos. Ele fala sem virar o rosto: — Come. Te ajeita. A casa é tua por enquanto. Eu volto daqui a pouco. E entra no quarto dele, fechando a porta, me deixando sozinha na sala enorme que parece grande demais pra ele, e agora grande demais pra mim. Fico parada por alguns segundos, segurando a Alice, o coração batendo rápido demais. Não sei o que pensar dele. Não sei se é perigo, proteção, solidão... ou tudo junto. Só sei que ele não falou muito, mas disse mais do que parece. Alice me olha com os olhinhos baixos. — Mamãe... a gente pode comer agora? Eu a aperto contra mim e respiro fundo. — Pode sim, meu amor. Hoje pode. Vou até a cozinha devagar, ainda tentando entender que tipo de homem oferece café antes de cobrar trabalho. E por que isso mexe tanto comigo. Levo Alice comigo, e a sensação de estar ali é estranha, quase proibida. A cozinha dele é simples, grande e funcional, mas carregada daquela energia que só casas de homem sozinho têm: pratos empilhados de qualquer jeito, panelas limpas porém largadas no escorredor, um cheiro leve de café velho misturado com o perfume dele, que parece grudar no ar. Alice sobe na cadeira de madeira e abraça o ursinho, tímida, olhando ao redor como se estivesse num lugar onde não pode tocar nada. Meu coração aperta. Ela cresceu assim, pisando devagar, falando baixo, medindo cada gesto. Abro a lata de pão e encontro alguns pães franceses, ainda do dia anterior, mas bons. Corto um ao meio, passo manteiga com a ponta da faca, tremendo levemente. Coloco numa pratinho e empurro na direção dela. — Come, meu amor. Alice olha para o pão como se fosse um presente de Natal. Ela pega com as duas mãos, dá a primeira mordida e fecha os olhos... de tão gostoso que deve ter sido depois de tanta fome. A expressão dela me desmonta por dentro. É como ver minha filha voltando a ser criança por alguns instantes. Eu preparo o meu também, mas quase não sinto o sabor. Minha atenção está em cada mastigada dela, cada suspiro, cada movimento pequeno que ela faz com alivio, como se estivesse reaprendendo o que é comer tranquila. Encho duas xícaras com o café que Edgar disse que tinha. O cheiro me abraça de uma forma que eu não esperava. Sento ao lado dela, e pela primeira vez em muito, muito tempo, o silêncio não dói. — Aqui é bonito, né, mamãe? — ela pergunta, balançando as perninhas curtas. Olho para a cozinha bagunçada, para a mesa com marcas de copo, para a janela aberta que dá vista para o morro inteiro. — É sim — digo com um sorriso fraco. — Aqui parece diferente. Alice toma um gole de café com leite e suspira. Ela parece pequena demais naquela cadeira, com aquele ursinho velho no colo, mas pela primeira vez desde ontem, ela não parece assustada. Só cansada. Só faminta. Só… viva. E nesse momento, sentado ali naquela cozinha que não é minha, percebo algo que me dá vontade de chorar: nós estamos seguras. Pelo menos agora. Pelo menos aqui. Pelo menos por alguns minutos. A porta do quarto do Edgar continua fechada, silenciosa. Eu imagino ele lá dentro, sentado na cama, talvez pensando na vida dele, talvez só respirando. Ele é um homem que fala pouco, mas cada gesto dele pesa. E o fato de ele ter deixado essa cozinha disponível, é maior do que consigo entender. Termino meu café devagar, observando a Alice comer mais tranquila do que em meses.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR