O whisky já não fazia efeito. Nenhum fazia. Nos últimos dias, eu havia dormido pouco, comido menos e trabalhado como um homem em fuga — e talvez fosse exatamente isso que eu era. Fugido de mim. O espelho do escritório refletia um estranho. Olheiras profundas, barba por fazer, camisa amassada. O homem que todo mundo admirava nas manchetes não passava de um castelo de gelo derretendo por dentro. Peguei o copo sobre a mesa. O líquido âmbar me encarava, tentador. Engoli num gole só. Ardeu. Mas não o suficiente. Nada era suficiente. As vozes ainda ecoavam na minha cabeça. As manchetes, os sussurros, os olhares. Mas nenhuma delas doía tanto quanto a voz dela. “Você conseguiu matar o que ainda restava de mim.” Essa frase me perseguia até nos sonhos. Ou pesadelos. Não fazia mais

