ARIELA
As horas passam em completo silêncio, a lua brilha intensamente, e ainda assim minha alma se sente tão quebrada e vazia que m*l consigo respirar. Ficar presa no meio desse inferno está lentamente corroendo minha paz de espírito.
Fechei os olhos tentando minimizar minha tensão. Lembrei-me então, ali, no meio da escuridão, das histórias infantis que mamãe costumava sussurrar em meu ouvido para me ajudar a dormir. Diferentemente de todas as mães comuns, a minha baseou essas histórias em suas próprias experiências e até mesmo mudou os finais daquelas que eu conhecia, dando a elas seu próprio toque aterrorizante.
Ela nunca me assustou e eu amava quando a noite chegava para que eu pudesse finalmente ouvir suas histórias. Talvez até então eu não pudesse ver o quão löuca ela era. Lembro-me de uma em particular, Chapeuzinho Vermelho. Eu gostava dela mais do que de qualquer outra, e minha mãe costumava dizer que eu era essa garota.
“No final, Chapeuzinho Vermelho jogou a cesta fora e foi com o lobo”, lembrei-me de suas palavras, o que me fez sorrir.
Naquela época parecia uma história infantil, mas agora era exatamente assim que eu me sentia. Sendo uma Chapeuzinho Vermelho que estava jogando tudo para o alto pelo lobo mau. Não pensei nas minhas decisões e quando Michael foi embora pensei que tudo estaria acabado. Que toda tortura finalmente chegaria ao fim. Mas isso foi apenas o começo de uma provação, do meu próprio mundo.
Preciso me concentrar no que é importante, e pensar no lobo mau não está me fazendo bem.
— O que você está fazendo aqui?
Gostaria que ele parasse de voltar para minha vida daquele jeito. Michael apareceu no meu campo de visão. Ele ainda estava usando seu suéter preto e parecia cansado, a julgar pelos ombros caídos e pelo olhar vazio.
Fique em silêncio por alguns segundos. O debate começou na minha mente e rapidamente chegou ao meu coração. Eu sei perfeitamente como essa história vai terminar.
— A culpa foi do lobo por acreditar que a Chapeuzinho Vermelho não morderia mais ninguém além dele. — murmurei com um sorriso nos lábios.
A bebida que eu estava tomando, estavam me afetando, mas eu realmente não queria ficar quieta agora.
Olhei para ele e seu olhar encontrou o meu. Nossa, ele é tão perfeito que não acredito que é real. É um pecado que haja tanta beleza e não nos deixemos levar por ela. Ele se aproximou lentamente, sentou-se ao meu lado, pegou o cigarro que eu estava segurando, levou-o aos lábios e deu uma longa tragada.
Olhei para ele, seu cheiro inundou meus sentidos, e então me lembrei do que me atraiu tanto nele. Michael costumava ser diferente, ele costumava ser muito mais relaxado, mais desequilibrado e incorreto. Ele nunca me impediu de fazer nada, podia ser eu mesma. Nunca precisei me comportar do jeito que a sociedade queria, do jeito que Felipe merecia, talvez porque Michael e eu sejamos tão parecidos que não precisamos fingir ser outra pessoa quando estamos juntos.
— O lobo sempre será o vilão se ouvirmos apenas a versão da Chapeuzinho Vermelho.— Ele sussurrou.
Virei-me para olhá-lo, ele soprou fumaça pela boca quando seu olhar encontrou o meu. Aqueles olhos me encaravam com tanta intensidade que rasgavam minha alma.
— Você é um filho da püta... — murmurei com uma risadinha.
— Eu sei. — Ele levantou o canto do lábio, me deixando completamente hipnotizada.
Permanecemos em silêncio. Olhei para Michael. Eu pretendia repreendê-lo por ser tão i****a, mas... Mais uma vez, uma sensação estranha tomou conta de mim, e dessa vez se transformou em um arrepio quente que percorreu toda a minha pele.
Por um momento, não vi nem ouvi mais nada. Como se fôssemos só ele e eu naquele barco.
Michael desviou o olhar para meus lábios e estreitou os olhos enquanto cerrava o maxilar. Eu costumava conseguir ler as pessoas quase imediatamente, mas não conseguia ter noção do que se passava em sua mente naquele exato momento.
Aquele lobo estava fugindo de mim. Ele olhou para mim tão intensamente que eu m*l conseguia respirar. O rosto dele era o que qualquer mulher veria em seus sonhos. E pode parecer exagero, talvez até fosse, mas eu não conseguia parar de pensar em sua beleza incrível mesmo depois de tantos anos.
De fato, assim como quando éramos crianças, ele ainda era o mais bonito dos Andrews.
Michael umedeceu suavemente os lábios antes de falar novamente e quebrar a magia daquele momento.
— Não quero te ofender, Ariela. Você sabe disso... — ele deu outra tragada no cigarro. — Mas eu também não quero que você acabe com o que há entre nós. Mesmo assim, não posso te dar o que você quer e nunca darei.
Ele queria me fazer sentir vulnerável, eu sei disso. Não sei por que ou quando entrei nisso, mas estava claro para mim que meu problema com Michael não era falta de paixão, era mais falta de afeto. Eu o amava, ele não sentia o mesmo. Mas a mäldita esperança de que talvez isso mude algum dia é o que me mantém nesta encruzilhada.
— Eu não te pedi nada para você. — Peguei o cigarro dele.
— Você pede. — ele afirmou. — Toda vez que você se mostra com o felipe, você me pede para sentir ciúmes. — Ou estou errado?
Olhei para ele com espanto.
— Não! Você me considera tão mesquinha?
— Se você brincar com fogo, aqueles ao seu redor inevitavelmente se queimarão.
Eu odiava mais do que tudo no mundo alimentar o ego daquele homem. Não tirei o olhar dele, estava perdida em quão lindos e brilhantes eram seus olhos, que pareciam mostrar o bem e o m*l ao mesmo tempo.
— O mundo não gira em torno de você, Michael Andrews.— Eu disse.