Assim que a porta se fecha atrás de Alice, permito-me expirar pela primeira vez no dia. Profundamente e lentamente. E com essa respiração, todo o ar sai dos meus pulmões – sinto-me como um limão espremido.
É difícil explicar por quê. Poderia parecer um trabalho rotineiro, mais um casamento, ainda que difícil. Mas esta reunião… parece ter drenado todas as minhas forças. Talvez porque este casamento não seja apenas mais um trabalho, mas uma nova etapa. A minha terapia pessoal. Uma tentativa de encarar o passado de frente e permanecer inteira.
Mas parece que a terapia será difícil.
O casamento é grandioso, ambicioso, com todo o pathos e brilho possíveis. Tudo é para o espetáculo. Para as fotos. Para o “vejam como podemos”. E nada de amor. Porque não há cheiro de amor entre eles. Apenas o cheiro de dinheiro, status e acordos mútuos. E eu nunca vou entender isso. Nem quero tentar.
Assim que termino o meu trabalho, saio rapidamente do escritório. Levo o buquê comigo. Rosas-brancas que já começaram a desabrochar um pouco, arrasto-as para casa e coloco-as no meu vaso transparente favorito, em cima da mesa da cozinha. Combinam perfeitamente com o espaço – simples, mas elegantes. Como tudo o que amo.
O banho me traz um pouco de volta aos meus sentidos. A água morna escorre pelos meus ombros, levando embora as preocupações e o cansaço. Respiro aliviada novamente.
Escolho um vestido – preto, de seda, com alças finas. Ele toca suavemente a minha pele, envolvendo os meus movimentos numa leve ondulação. Enrolo o meu cabelo em cachos suaves, maquiagem leve, sandálias de salto alto – clássico, discreto, como todo o meu visual. Mas há algo especial nesta noite… algo especial.
Olhando-me no espelho, inesperadamente me deparo com um sorriso. E paro por um instante. Quando foi a última vez que sorri assim – sinceramente, sem dúvidas, sem tensão interna? Nem me lembro. Mas hoje estou de bom humor. E quero que continue assim.
Vinte minutos depois, entro num salão aconchegante e semi-escuro, com luz suave e música discreta. O meu olhar o encontra imediatamente – Denis está sentado a uma mesa perto da janela, vestido de forma simples, mas elegante. Ele me nota e se levanta. Levanto a mão, aceno com um leve sorriso. E o meu coração dá um salto de alegria.
Inesperadamente, sinto que estou realmente feliz por este encontro. Não por obrigação, não por arrependimento, não por algo do passado. Simplesmente porque… eu quero.
Sentamo-nos à mesa e olho ao redor do salão mais uma vez – aconchegante, quente, a luz agradável dos abajures brinca com os copos e um murmúrio suave de conversas preenche o ambiente. Mas quando olho para Denis novamente, percebo o seu olhar sobre mim.
— Você está diferente hoje. Diz ele calmamente, até um pouco surpreso. — Não só porque você está linda. Você tem… um sorriso nos lábios.
Não consigo conter o riso.
— Imagine, às vezes eu também tenho dias bons.
— É uma pena que seja raro. Combina muito com você.
As suas palavras são suaves, sem pressão. Apenas uma constatação. Mas pego-me pensando que ninguém me disse algo assim com tanta simplicidade e sinceridade há muito tempo. Talvez nunca.
Fazemos o pedido. Eu escolho massa e uma taça de vinho, Denis – algo com carne e chá. A conversa flui naturalmente. E decido contar sobre o dia.
— Tenho um novo grande projeto. Digo, girando a faca nas mãos. — Um casamento grandioso e muito complicado. Mas eu aceitei.
— Claro. Você sempre escolhe o difícil, não é? Ele sorri. — Algum tipo de oligarca?
Balanço a cabeça e hesito por um instante.
— A noiva… é um pouco intrometida. Mas acho que consigo lidar com isso. Isso é mais do que um simples evento para mim. É um desafio.
Estou deliberadamente mantendo os detalhes em segredo. Não estou dizendo que o noivo é uma cópia exata do meu primeiro amor, que já faleceu.
Eu poderia dizer isso. E talvez devesse. Mas não agora. Não aqui, não nesta noite, onde tudo é tão aconchegante e humano. Não quero romper essa bolha de paz, porque ela é frágil demais.
Denis fala algo sobre o trabalho dele, conta uma história engraçada sobre um colega, e eu escuto, sorrindo. Mantenho a conversa fluindo – brinco, respondo, às vezes interrompo com perguntas. De fora, provavelmente parece o jantar mais comum entre dois apaixonados. Mas por dentro – em mim – algo está mudando aos poucos.
Não penso no passado. Não penso no medo. Não penso na saudade que me consome há tanto tempo que quase me acostumei com a sua presença. Hoje, estou apenas aqui. E isso provavelmente é o mais importante.
Aconteça o que acontecer, depois. Mas quero me lembrar desta noite. Exatamente como ela é.
Depois do jantar, convido Denis para minha casa. Ele aceita sem hesitar. Cada um entra no seu carro, mas eu o vejo pelo retrovisor durante todo o caminho para casa.
Destranco a porta e convido Denis a entrar com um gesto leve. No meu apartamento, a luz quente e suave contribui para a inti*midade do momento. Tiro as sandálias e caminho descalça pelo piso de madeira, como se estivesse voltando a mim mesma.
— Entre. Digo a ele. — Fique à vontade. Vou trazer vinho.
Um vaso de rosas-brancas já está na cozinha. Olho para elas e sorrio involuntariamente. Elas se abriram lindamente, cada pétala perfeita. Surpreendentemente, não me cheiram a dor. Apenas a lembrança de que alguém quis fazer algo agradável para mim hoje.
Sirvo vinho em duas taças, volto para a sala de estar, onde Denis já tirou o paletó e está olhando os livros na minha estante. O seu semblante é tão descontraído que me sinto um pouco à vontade. Entrego-lhe a taça e sento-me ao seu lado no sofá.
— A que vamos brindar? Pergunto.
Ele inclina a cabeça, olha nos meus olhos por mais tempo do que o necessário e diz:
— Aos sorrisos que finalmente estão voltando. Ao fato de eles estarem se tornando parte da sua vida novamente.
Assinto, porque não consigo evitar. Os copos tilintam suavemente e brindamos.
***
Abro os olhos lentamente. Os raios de sol já conseguiram atravessar as cortinas, acariciando a minha bochecha. Estendo a mão — e sinto apenas a frescura do lençol. Denis não está lá.
Viro a cabeça e vejo que o espaço ao lado está vazio.
Sento-me, espreguiço-me e lembro-me da noite passada. Um sorriso surge involuntariamente no meu rosto. Foi uma boa noite. Sem palavras desnecessárias, sem expectativas, sem promessas exageradas.
Estendo a mão para a beira da cama, encontro a sua camiseta azul-escura e a visto. Tem o cheiro dele. Algo fresco, um pouco picante e, ao mesmo tempo, aconchegante. O tecido toca a minha pele suavemente. Caminho descalça em direção à cozinha, onde ouço o tilintar abafado dos pratos e sinto o cheiro de algo fritando. Paro na porta.
Denis está de costas para mim, perto do fogão. Ele veste apenas calças, e o seu torso nu parece saído da capa de uma revista. A luz do sol realça o contorno dos seus músculos, e cada movimento seu é tão concentrado que, involuntariamente, congelo, encostando o ombro no batente da porta, apenas observando.
Ele não sabe que estou aqui. Não está representando um papel. Não está tentando agradar. Está apenas fazendo algo normal. Está fritando pão, preparando café… como se sempre tivesse morado aqui.
E me pego pensando que estou bem. É incrivelmente bom observá-lo. E ao mesmo tempo. Assustador. Porque ainda não sei o que sinto. Este não é o amor que arrebata tudo e despedaça o coração. Não o que eu já vivi. É algo diferente. Mais tranquilo. Estável. Confiável.
Talvez este seja o solo fértil onde algo novo possa brotar.
Eu quero tanto sentir por ele o mesmo que ele parece sentir por mim. Quero acordar e não ter mais dúvidas. Mas por enquanto, estou apenas aprendendo.
E se ele estiver realmente pronto para esperar... farei de tudo para não apenas olhá-lo com ternura, mas também amá-lo.
Ele se vira e me nota.
— Você está acordada, bela adormecida? Ele sorri. — O café da manhã está quase pronto.
— Que cheiro delicioso... Digo e finalmente entro na cozinha. — O que você está fazendo, preparando uma surpresa para mim?
— Não. Eu só queria te desejar um bom dia. Ele responde e pisca. — Embora... esta seja a primeira vez que te vejo com a minha camiseta. E, devo dizer, é uma forte concorrente à minha surpresa.
Eu rio e sinto o peito aquecer. Definitivamente, gosto desse tipo de café da manhã.
Denis coloca um prato com torradas, abacate e ovo pochê na minha frente e se gaba do seu talento culinário.
— A propósito. Diz ele casualmente, sentando-se à minha frente. — Estava pensando… Vou ter uns dias de folga em breve. Férias. Podemos dar uma escapadinha para algum lugar? Faz tempo que você não tira férias, né?
Olho para ele, um pouco confusa, mas agradavelmente surpresa.
— Escapar? Pergunto, arqueando uma sobrancelha. — É como nos filmes? Comprar passagens para o primeiro voo e fugir do mundo?
— Exatamente. Ele concorda com a cabeça. — Onde tem sol, mar, drinks, nada de trabalho e só nós dois. O que você acha?
Fico parada com uma xícara na mão. Parece… tão tentador. E, ao mesmo tempo, um pouco assustador.
— Se ao menos não houvesse um ‘mas’. Respondo lentamente. — Estou começando os preparativos para o casamento. Preparativos grandes.
— Era disso que você estava falando? Ele esclarece. — Uma grande festa?
Eu aceno com a cabeça. Tomo um gole de café enquanto tento decidir exatamente o que devo lhe contar e o que é melhor guardar para mim.
Ele sabe que perdi um ente querido. Sabe do acidente. Mas nunca pediu detalhes. E eu nunca contei a ele. Porque não foi apenas um trauma. Foi a perda de um mundo inteiro. A perda de um futuro.
Ele não sabe que não poderei mais ter filhos. E que o que perdi era o irmão gêmeo do noivo deste casamento.
E não posso falar sobre isso agora. Simplesmente não posso. Porque se eu começar, terei que tirar todas as camadas de proteção, e ainda não estou pronta. Não estou pronta para me abrir tanto. Nem mesmo para ele.
— Então... Respiro fundo e coloco os meus dedos sobre a mão dele. — Não sou contra férias. Pelo contrário, eu realmente quero. Só que... um pouco mais tarde. Depois do casamento.
Ele sorri.
— Certo. Então você trabalha. Eu espero. E eu planejo o nosso voo perfeito. Só me diga para onde você quer ir. Maldivas, Grécia, Bali?
— Qualquer lugar. Digo, com um sorriso suave. — Contanto que seja longe daqui.