Episódio 10

1855 Palavras
Estou dirigindo, tentando não pensar muito, mas, como sempre, não funciona. O sol já se inclina para o horizonte, lançando uma luz suave sobre a rua, e estou seguindo um caminho familiar até o restaurante escolhido por Alice, a noiva de Mark. Normalmente, gosto dessas viagens de campo — elas me ajudam a visualizar, imaginar cada centímetro do espaço, pensar nos detalhes. Hoje é um pouco diferente. Sei quem vou ver de novo. E embora, surpreendentemente, eu esteja calma, o meu coração ainda palpita lá no fundo. Mark... Ele não é Timur. Repito isso como um mantra. Mas não adianta quando o vejo. Ele está sentado sozinho a uma mesa perto da janela, calmo, atento. Está navegando em algo no celular. O seu perfil parece esculpido na memória. Maçãs do rosto altas. O nariz reto. Aqueles olhos. Paro na porta por um instante antes de dar um passo à frente. — Boa noite. Digo calmamente, profissionalmente, embora ainda haja um tremor na minha voz. Ele levanta o olhar e os seus olhos brilham. Ou talvez seja só impressão minha… — Bom. Ele responde, e um leve sorriso surge nos seus lábios. — Alice ainda está a caminho, está um pouco atrasada Assinto com a cabeça e sento-me em frente a ela. Tento não olhá-lo por muito tempo, pois senão começarei a notar o quanto ele se parece com ela. E como é doloroso entender isso. — Certo, então, enquanto esperamos. Abro o meu caderno. — Quero falar com o administrador, dar uma volta pelo salão, ver se será adequado para o número de convidados. Esclarecer os detalhes do serviço. Se Alice realmente quer este lugar, precisamos agir rápido. — Ela quer. Tenho certeza. Ele diz, e há algo no seu tom que me incomoda. Muito seco. Sem calor. Sem envolvimento. Entendo que este é um casamento sem amor e, para ser honesta, é um pouco ousado para mim. Mas, por outro lado, fico feliz que Mark tenha apontado isso logo de cara. Agora não tenho perguntas desnecessárias. Embora, na verdade, eu tenha. Será que Mark realmente não se importa de ter que viver com uma mulher por quem não sente nada depois do casamento? Ficamos em silêncio por alguns segundos. Olho para a disposição das mesas no meu tablet, anoto algo nas margens. E um turbilhão de pensamentos me invade a mente. Este homem ao meu lado não é Timur. E, no entanto… por algum motivo, o meu coração não concorda com isso tão facilmente quanto a minha mente. E por mais que eu me convença do contrário, cada encontro com ele não é apenas trabalho. É um teste. — Tem certeza de que realmente quer fazer isso? Mark pergunta, como se tivesse lido os meus pensamentos. A sua voz é baixa, mas sincera. — Sabe, ainda não é tarde para recusar. Ainda não assinamos o contrato. Levanto o olhar lentamente. Não há ironia nem desprezo no seu olhar. Há preocupação. A mesma preocupação que me assusta. — Você mesmo queria isso. Respondo calmamente, aludindo àquela conversa em que ele insistiu para que eu organizasse o casamento. — Eu queria. E ainda quero. Mas agora vejo como é difícil para você... Ele dá de ombros. — Talvez eu estivesse errado. — Não. Digo baixinho. — Você não estava errado. Eu cuido disso. Estou fazendo o meu trabalho. Mark me olha mais atentamente. — Se Alice... bem, passar dos limites. Diz ele com cautela. — Você me avisa, ok? Sem cerimônia. Quero que você se sinta normal. Para que ninguém a pressione. Abro a boca para responder, mas não tenho tempo. Alice aparece no salão e, como um raio em céu azul, todas as atenções se voltam para ela. Por alguns segundos, simplesmente não consigo tirar os olhos dela. O seu vestido branco é curto, como uma camisa, o decote é tão profundo que involuntariamente quero cobrir o peito com a mão. O seu cabelo brilha como se tivesse saído de um comercial de xampu. Ela literalmente irradia confiança e poder. — Finalmente! Ela exclama em voz alta, sem nem olhar para mim, mas imediatamente para Mark. — Então, vamos começar? Aperto os dedos no tablet e ainda sorrio. Esta noite vai ser longa. — Sim, vamos. Respondo e me levanto. — Vamos dar uma volta pelo salão agora mesmo. Tem certeza de que quer a cerimônia aqui? — Absolutamente. Ela diz e gira o quadril, dando um passo à frente em pernas de p*au, como se estivesse desfilando numa passarela. — Quero que todos fiquem boquiabertos. E eles se lembraram disso por muito tempo. Dou uma olhada em Mark. Ele está em silêncio e parece completamente indiferente. Será que ele realmente se importa? Será que ele está disposto a tolerar essa atrevida em nome do lucro? Acho que não entendo nada, porque esse tipo de relacionamento é tabu para mim. Nem tenho tempo de tomar um gole d'água quando Alice já está parada na minha frente com um sorriso radiante que não reflete em nada a sua verdadeira natureza. — Vamos começar pela entrada. Diz ela, balançando os seus cachos brilhantes. — Quero que os convidados tenham um impacto imediato ao entrarem. Este restaurante é realmente lindo — com salões espaçosos, grandes janelas panorâmicas e uma iluminação incrível. Mas mesmo eles terão dificuldades para lidar com a grandiosidade da fantasia de Alice. Começamos pela entrada principal. Alice imediatamente se opõe à sugestão de colocar um arco na entrada. — Não, não aqui. Quero um arco na janela central, para que haja um lago ao fundo. Bem, ou pelo menos lanternas, como em Paris. Você consegue providenciar isso, não é? Ela lança um olhar cheio de expectativas infladas. Em silêncio, anoto tudo e fervo lentamente. Mark caminha um pouco atrás, e sinto o seu olhar sobre mim. Constantemente. — E quantos convidados podem ser acomodados aqui? Alice pergunta ao administrador. — No salão de banquetes – até 120 pessoas. Se houver um bufê – até 200. — Certo, então um bufê. Mas as mesas ainda precisam ter cadeiras. E um bufê. E uma pista de dança! Alice acrescenta com ares de vencedora. Assinto e aperto os dedos no tablet. O silêncio é a chave para a sobrevivência. — E onde será o palco para o apresentador? E onde fica a orquestra? Quero música ao vivo. Com violino, saxofone e, talvez, até harpa. E também precisamos de um espaço para fotos. E um lugar para presentes. E… ah! Um cantinho com coquetéis personalizados. Vocês organizam isso também? — O que você quiser. Respondo calmamente. — Mas vamos definir as áreas exatas. Isso vai ajudar no planejamento do espaço. Percorremos todo o restaurante. Alice muda de ideia, depois volta às opções anteriores. Ora o arco perto da janela, ora perto do palco, ora na rua. Ela liga para a estilista duas vezes. Porque, como se vê, o estilo do vestido também precisa combinar com a atmosfera geral. Mark me lança um olhar rápido. Há compaixão nele. Ele já se arrepende de ter me arrastado para isso. Duas horas se passam. Duas horas de esclarecimentos, discussões, demonstrações de iluminação, negociações com o gerente do restaurante, desenhos no tablet e anotações num caderno. E sempre a mesma coisa… — Bem, vou pensar nisso. Mas não se preocupe. Eu definitivamente te aviso quando decidir. Alice vai ao banheiro, e eu me afundo numa cadeira e fecho os olhos. A minha cabeça está a mil. O meu corpo está cansado. Mark se senta à minha frente. — Desculpe. Ele diz baixinho. — Não imaginei que seria tão difícil. Eu sorrio à força. Estou acostumada. Faz anos que não organizo nada parecido. — Tudo bem. Digo. — Já tive tarefas mais difíceis. — Tudo bem. Ele suspira. — Eu sei que a Alice consegue chegar a qualquer um, então… se ela passar dos limites, me avisa. Tá bom? Eu aceno com a cabeça, mas não respondo. Apenas escondo o olhar no meu tablet. O problema não é a Alice. Não é a dimensão do casamento. E nem mesmo o fato da minha têmpora estar latejando. O problema é ele. Porque toda vez que Mark olha para mim, parece que ele respira um pouco mais fundo. Chego em casa tarde da noite e sinto-me completamente destruída. Fecho a porta silenciosamente e tiro as minhas sandálias em algum lugar do corredor. O meu corpo está zumbindo de cansaço, mas minha cabeça está ainda pior. A voz da Alice, todos os “eu quero”, “eu não gosto disso”, “faça diferente” – ecoam nos meus ouvidos como um eco. Passo pelo vaso de rosas que coloquei na mesa da cozinha de manhã. Elas ainda estão frescas. Passo os dedos pelas pétalas delicadas e sorrio levemente. O telefone toca. Vibra na mesa. Vejo que é a Samanta. E o meu coração se aquece. — Olá, maninha. — Olá. A sua voz é tão radiante que consigo até imaginar involuntariamente o brilho dela. — Você pode falar? — Posso. Acabei de voltar de uma reunião. — Ah, então este é o momento perfeito, porque não consigo mais ficar quieta. Ela ri um pouco nervosa. — Max e eu fomos ao médico hoje. Ouvimos o coração do bebê. Você consegue imaginar? Fico em silêncio por alguns segundos. É como se uma onda de calor me atingisse – e de dor ao mesmo tempo. — Você está falando sério? Finalmente, respiro fundo. — O coração dele já está batendo? — Você consegue imaginar? Nós também estamos chocados! — Samanta… Cubro os olhos, tentando me controlar para que a minha voz não falhe. — Isso… isso é uma notícia maravilhosa. Estou tão feliz por você. — Sarah… A minha irmã hesita por um momento. — Tem certeza? Você está bem? — Sim. Respondo rapidamente. — Estou só… um pouco cansada. Tem muito trabalho. Mas estou muito feliz. Você vai ser uma mãe incrível. — Tenho estado tão nervosa ultimamente. E tão feliz. Há lágrimas na sua voz, mas lágrimas de alegria. Escuto por mais alguns minutos enquanto ela fala sobre os seus primeiros sintomas, como Max reagiu, como segurou as suas mãos, como a olhou com tanta devoção que ela chorou. Sorrio. Sinceramente. Estou muito feliz por ela. Ela merece essa felicidade. Mas há algo mais dentro de mim. Um espinho. Um vazio. E dor. Quando terminamos a conversa e eu desligo o telefone, fico sentada em completo silêncio por mais um minuto. Olho para a escuridão, onde apenas a luz indireta da cozinha está acesa. E penso… Será que algum dia conseguirei me livrar dessa dor? Será que algum dia conseguirei parar de me sentir destruída quando outra pessoa conquista o que eu também sonhei um dia? Mas Agora é noite. E estou sozinha. E talvez seja em momentos como este que você deva se permitir ser frágil. Enxugo as lágrimas, pego a minha taça, sirvo o resto do vinho e bebo tudo de uma vez. Infelizmente, é tudo o que me resta. ESTE LIVRO FAZ PARTE DA DUOLOGIA AMORES. O PRIMEIRO LIVRO É O MINHA FILHA É DO MEU EX ‍​‌
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