Mark
Sigo o carro enquanto ele se afasta. Nem volto imediatamente ao restaurante – fico parado ali por mais alguns segundos, respirando o ar da noite. A minha cabeça está um pouco confusa. Não por causa do casamento. Nem por causa da organização. Por causa dela.
Sarah não sai da minha cabeça, não importa o quanto eu tente afastar esses pensamentos com outra coisa.
Volto para o salão. Alice ainda está no mesmo lugar – sentada à mesa, debruçada sobre o telefone. Os seus dedos deslizam rapidamente pela tela. Não me importo com quem ela está trocando mensagens. Mesmo que seja com o namorado dela – não me importo nem um pouco.
Quando me sento à sua frente, ela olha para cima e me dá um largo sorriso.
— Finalmente. Diz ela. — Pensei que você tivesse ido com ela.
Não respondo à piada. Apenas a observo guardar o telefone, mas seus dedos o alcançam mais algumas vezes, como se houvesse algo muito importante ali.
— Então, o que você acha? Ela pergunta, inclinando-se levemente para mim. — O que você acha da Sarah?
— Ela é uma profissional. Calma, centrada. Concordo com a cabeça. — Acho que ela vai dar conta do recado.
Alice sorri ainda mais:
— Claro que ela vai dar conta do recado. Parece que nasceu com uma agenda nas mãos. Até meio… certinha demais. Mas isso é bom. Tudo tem que ser impecável.
O tom dela me irrita. Confiante demais.
— Alice. Digo calmamente. — Estou te pedindo: não a pressione com exigências. Deixe-a trabalhar.
Ela paralisa e pisca algumas vezes.
— Como é? O sorriso no rosto dela desaparece. — Você… está me interrompendo agora?
— Estou pedindo que você vá com calma. O casamento será exatamente como você quer. Mas não pressione a Sarah. Já me sinto desconfortável por tê-la convencido, e você continua a bombardeá-la com exigências. Acho que ela sabe o que é melhor.
— Eu me pergunto. Alice responde friamente. — Por que você está defendendo-a assim de repente?
Dou de ombros, tentando não revelar muito.
— Porque eu vejo como você se comporta. E não gosto. Ela faz o trabalho dela, e faz bem.
— Ela ainda não fez nada. Alice dispara. — Além disso, os serviços dela não são baratos. Escuta, você nunca a conheceu antes?
Congelo por um momento. Não porque ela esteja certa. Mas, porque não sei o que dizer. Porque a verdade é complicada. E não é o tipo de verdade que se discute numa mesa de restaurante, entre um drinque e o pedido da comida.
— Não. Nós não éramos. Mas nós temos — Temos algo em comum. Respondo baixinho. — Mas isso não importa.
— Hum… Ela ergue as sobrancelhas, esticando os lábios num sorriso falso. — Tudo bem. Se você diz. É só que… eu não gostaria que a sua antiga amiga fosse a responsável pela organização do meu casamento.
— Não precisa se preocupar. Respondo com firmeza. — Prepare-se para o casamento e eu cuido de todo o resto.
Alice fica em silêncio por alguns segundos. Depois, vira-se para o celular. Os seus dedos começam a digitar na tela novamente. E eu fico sentada olhando para o copo d'água, onde a luz das lâmpadas se reflete na transparência.
Sarah me assombra desde o momento em que a vi pela primeira vez. E a cada dia que passa, fica mais difícil separar o passado do presente. E agora ela fará parte do meu futuro. Mesmo que seja apenas como organizadora de casamentos.
Na manhã seguinte, vou para o escritório, porque tenho muita coisa para fazer. Não gosto de deixar nada para depois. Deixei tudo para depois e tenho três reuniões antes do almoço.
Gosto de me concentrar no trabalho, porque assim não preciso pensar no que já está constantemente na minha mente. Ultimamente, Sarah tem estado presente, e não importa o que eu faça, não consigo me livrar desses pensamentos.
Quando batem na porta e ela se abre no instante seguinte, abro um largo sorriso, porque sempre fico feliz em receber essa visita.
— Então, Sr. Empresário, como vai a vida? Pergunta Vadim. Ele é meu amigo desde a escola.
Sentamos juntos na mesma carteira no penúltimo ano do ensino médio, nos inscrevemos juntos para a faculdade em Londres, comemoramos juntos os resultados dos vestibulares, moramos e estudamos juntos. E mesmo quando as garotas começaram a nos paquerar, e depois – os negócios sérios, os investidores, os primeiros contratos – ainda assim continuamos amigos. Essa é a única coisa estável. Ele é meu irmão.
— Estou trabalhando, como você pode ver. Digo com um sorriso.
— Pelo que sei, você também está se preparando ativamente para o casamento. Meu amigo se senta na cadeira à minha frente e me olha atentamente.
Não respondo de imediato. Sei o que ele vai dizer. Vadim sempre foi capaz de enxergar através das aparências. Mesmo quando eu estava me sentindo muito m*al depois da morte de Timur, ele foi o único que não fez perguntas desnecessárias. Ele simplesmente estava lá. Bebeu uísque comigo em silêncio quando eu não conseguia falar. Foi comigo ao cemitério mesmo sem eu pedir. Me ofereceu um ombro amigo quando os outros tinham medo até de se aproximar.
— Isso não é exatamente um casamento. Digo finalmente. — É um acordo. Um contrato de casamento, tudo é oficial. Depois disso, cada um segue sua vida.
— Mark. Ele me encara por um longo tempo, com os olhos demonstrando uma mistura de ansiedade e irritação. — Eu entendo tudo. Entendo que você não é mais o mesmo cara arrogante de quando tinha vinte e poucos anos. E que, depois da morte de Timur, você meio que pôs um fim a tudo relacionado a sentimentos. Mas, droga, Alice? Você mesmo não a ama.
— Não importa. Digo com mais firmeza do que gostaria. — Eu preciso disso. Eu. Negócios.
— Bem... concordo sobre os negócios, mas você definitivamente não precisa disso.
Permaneço em silêncio, irritada, porque Vadim me conhece muito bem.
— É por causa do seu pai, não é? Ele está te pressionando?
Levanto-me e vou até a janela. Olho para baixo, para o quintal. Fico em silêncio por um tempo, para me recompor e dizer o que preciso dizer.
— Meu pai quer que nos casemos. Digo. — Mas você sabe que a última palavra ainda é minha.
— Eu sei. Vadim se levanta e fica ao meu lado. — E também sei que você está assumindo responsabilidades demais. Seu pai... ele é um manipulador. Ele colocou tudo o que podia ser colocado sobre os seus ombros. Ele acha que você ainda tem vinte anos e que pode te controlar como bem entender. Mark… Eu entendo que você está fazendo isso por culpa, mas você não deveria viver a sua vida para agradar seu pai. Duvido que isso seja sequer possível.
Me viro novamente. Ele me olha sério, teimosamente. Vadim sempre foi capaz de arrancar a verdade, mesmo quando a enterrei profundamente. Talvez seja por isso que ele ainda está aqui.
— Talvez você tenha razão, mas farei isso de qualquer maneira. Respondo baixinho.
Vadim suspira, percebendo que essa barreira é intransponível, e então sugere que almocemos juntos. Não recuso o convite.
Fecho a porta do carro atrás de mim, entrego as chaves ao manobrista e sigo para a entrada do restaurante. Vadim está ao meu lado, tranquilo, um pouco relaxado, como sempre fica antes de uma refeição deliciosa. Costumamos almoçar juntos, desde a época da faculdade, quando qualquer ida a um restaurante comum era um evento. Naquela época, geralmente pedíamos pizza. Agora – outros tempos. Outra vida.
Escolhemos uma mesa aconchegante no terraço. Recosto-me na cadeira, observando o estabelecimento. De repente, os meus olhos param num rosto familiar. Sarah está sentada três mesas à esquerda. Não está sozinha.
O homem à minha frente diz algo, e ela sorri. O seu cabelo está preso hoje, levemente despenteado pelo vento. Ela veste um vestido bege simples. Mas parece a capa de uma revista. Tudo nela é leve, discreto, encantador.
E então percebo a mão dele cobrindo lentamente a palma dela sobre a mesa. Discretamente. Com confiança. Perto demais.
Algo dentro de mim me incomoda. Meus músculos se tensionam.
Viro-me. Finjo ler o cardápio. Mas não consigo enxergar uma única palavra.
— O que está acontecendo? Pergunta Vadim de repente. — Você conhece aquela moça?
A princípio, fico em silêncio, mas então, quando o seu olhar se torna mais intrusivo, abaixo o cardápio e digo:
— Aquela é a Sarah. Namorada do Timur. Vadim olha silenciosamente para aquela mesa. Eu sei: ele está refletindo sobre o que acabou de ouvir e vira a cabeça na minha direção novamente.
— O quê? Você a conhece? Ele sussurra.
— Sim. Aceno com a cabeça. — Ela está organizando o meu casamento com a Alice.
Nesse momento, Vadim cospe a água que acabara de beber e ignora completamente os convidados do estabelecimento que o olham com desagrado. Ele apenas me encara.
— Você está brincando agora? Ele pergunta.
— Eu pareço uma piadista? Não entendo por que estou irritado. Olho novamente na direção daquela mesa e o meu olhar encontra o de Sarah. Ela não esconde a surpresa ao me ver e então parece se lembrar de que não está sozinha e volta a conversar com aquele rapaz.
— Olha, eu nem sei o que dizer. Vadim passa a mão pelos cabelos, nervoso. — É tão estranho. Você… está falando com ela?
— Sim. Respondo secamente. — A própria Sarah me confessou que era namorada do Timur. E naquela noite eles sofreram um acidente juntos.
— É horrível. Suspira Vadim. — E seu pai? Ele já a viu antes?
— Ele viu, mas não reconheceu. Digo.
Vadim fica em silêncio novamente, provavelmente tentando entender tudo. Nesse momento, o nosso pedido chega e eu até fico feliz por finalmente ter um tempo sem conversa.
Começo a comer e olho para Sarah novamente. Ela está checando algo no celular e o homem sentado ao lado dela agora está olhando diretamente para mim.
Será que ele sabe quem eu sou? Será que Sarah contou a ele sobre o passado dela?
Se sim, o que exatamente? E ela se lembra de ter conhecido o irmão gêmeo do namorado falecido?
Levanto-me e digo rapidamente a Vadim:
— Já volto.
Passo pelas mesas e, claro… não consigo evitar sentir a presença dela. Pelo canto do olho, percebo como ela, ao me ver, desvia abruptamente o olhar para o celular. Ela finge estar lendo algo muito importante. Os seus dedos estão congelados sobre a tela e ela está sentada de forma estranhamente ereta. É até engraçado.
Passo por ela sem parar. Não olho diretamente para ela, mas consigo vê-la mesmo assim. E, droga, ela está ótima. Casual, mas… elegante. Embora este não seja o tipo de momento em que eu possa me dar ao luxo de pensar nisso em voz alta. Ou pensar nisso em princípio.
Quando saio do banheiro, não espero de jeito nenhum encontrar Sarah no corredor. Mas lá está ela – de costas para mim, procurando algo na bolsa. E então ela se vira abruptamente e… quase esbarra em mim de frente.