— Desculpe. Digo involuntariamente, e ela se encolhe, dando meio passo para trás.
— Tudo bem. A sua voz está um pouco tensa. O seu olhar se move rapidamente. Ela não esperava me ver aqui. É óbvio.
Sarah quer ir embora, mas, inesperadamente até para mim, toco o seu cotovelo. Levemente. Quase imperceptivelmente. Mas ela congela.
— Sarah. Digo baixinho. — Você está bem?
— Sim. Ela acena com a cabeça, e eu a solto.
Sarah dá mais um passo para longe de mim. E então o mesmo homem com quem ela estava sentada à mesa aparece atrás dela.
— Está tudo bem? Ele se vira para ela, colocando a mão no seu ombro.
Percebo como Sarah se enrijece um pouco, mas acena com a cabeça.
— Sim. Está tudo bem.
Permaneço onde estou e os observo partir. Sinto algo estranhamente apertado no meu peito. Eu não gosto do cara com quem a Sarah saiu. E por que eu não gosto dele? Nem eu mesma sei responder...
SARAH
Saímos e o ar fresco bate no meu rosto. Respiro fundo, como se tentasse expelir tudo o que acabou de acontecer aqui dentro. Mark. O seu olhar. O seu toque. O seu… silêncio.
Olho para Denis – ele está caminhando ao meu lado, dizendo algo, sorrindo. E tento prestar atenção, mas sinto uma ansiedade pulsando no meu peito. Ainda não é forte, mas já é familiar.
Entendo que este encontro com Mark no restaurante é apenas uma coincidência, mas têm ocorrido muitas dessas coincidências ultimamente. E é isso que está me estressando.
Quando Denis ligou hoje antes do almoço e sugeriu que nos encontrássemos no restaurante, aceitei sem hesitar, mas agora a sensação de felicidade foi se dissipando aos poucos.
— Provavelmente tenho que ficar. Digo baixinho quando paramos perto do meu carro. — Ainda preciso voltar para o escritório, tenho outra reunião hoje.
— Claro. Denis não se opõe, apenas me olha com um olhar um pouco introspectivo demais.
Pego a chave, aperto o botão e as fechaduras travam. Estendo a mão para a porta, mas assim que agarro a maçaneta, Denis coloca a mão na porta e não me deixa abri-la.
— O que você está fazendo? Pergunto, um pouco confusa. O meu olhar encontra o dele automaticamente. Sério, atento, como se ele estivesse procurando algo no meu rosto.
— Pode explicar o que está acontecendo? A sua voz é calma, mas mais grave que o normal. — Você conhece aquele homem que a seguiu no restaurante?
— De quem você está falando? Sinto a minha garganta secar, embora eu já saiba perfeitamente de quem estou falando.
Eu esperava até o último momento que Denis não percebesse nada, mas ele não é idio*ta, afinal.
— Aquele homem de terno com quem você trocou olhares. Ele faz uma pausa. — Quem é ele?
— Meu cliente. Estou organizando o casamento dele. Respondo. — Um evento de grande porte, aliás.
— Claro. Denis acena com a cabeça, mas parece-me que não está satisfeito com a minha resposta. — Podemos nos encontrar à noite?
— Não sei. Sussurro. — Vou te ligar.
Dou um beijo rápido em Denis e me afasto. O beijo é breve, difícil de chamar de beijo. Sei que o fiz para encerrar esta conversa mais rapidamente.
Na verdade, não estou pronta para revelar quem Mark realmente é. Ainda não. Que ele continue sendo apenas meu cliente, nada mais. Estou pronta para me convencer disso e convencerei todos ao meu redor.
Volto para o escritório. Participo de uma reunião e tento não pensar em nada. Infelizmente, não é tão fácil quanto parece, pois há tantos pensamentos na minha cabeça que começa a doer.
Bate os dedos na mesa, sem nem perceber. Como se o meu corpo estivesse buscando uma válvula de escape para a energia que sobrou depois daquela reunião. Ou depois das palavras de Denis. Ou depois do olhar de Mark, que ainda me incomoda um pouco, lá no fundo.
No monitor, vejo a planta aberta das áreas do restaurante — a mesma que me atormentou junto com Alice. Preciso confirmar os detalhes, fazer algumas ligações, mas meu olhar se desloca de uma linha para outra, sem que eu veja nada.
Mark não é Timur. Mas toda vez que o vejo, algo dentro de mim parece se quebrar. A semelhança às vezes é dolorosa, às vezes assustadora, às vezes mágica. Como hoje. Como naquele momento em que eu estava no corredor do restaurante e senti a mão dele no meu cotovelo. Quando vi nos seus olhos as perguntas que não quero — ou não consigo — responder.
E Denis. O olhar dele depois do meu "Vou te ligar" não me sai da cabeça. Vi a dor. As dúvidas. Talvez até o ressentimento. Mas agora não consigo explicar a ele por que é tão difícil para mim. Porque me fecho. Porque até o toque de outro homem me faz sentir culpada. Mesmo sem eu estar fazendo nada. Com ninguém. Nunca.
Eu simplesmente ainda não aprendi a viver normalmente. Não aprendi a deixar o passado para trás. E quando me pareceu que eu tinha dado um grande passo à frente, por ter me dado a chance de ser feliz com Denis, por algum motivo, Mark se instalou nos meus pensamentos.
Isso está certo? Definitivamente não! Posso consertar isso de alguma forma? Posso tentar.
Suspiro, ligo a música nos meus fones de ouvido, abro o meu caderno e começo a fazer uma lista de prioridades para amanhã.
O trabalho é a única coisa que sempre me manteve em forma. Todo o resto é instável, doloroso, relativo. E aqui, pelo menos, tudo depende apenas de mim.
Ou talvez eu esteja apenas me convencendo de que nada nunca dependeu de mim.
Quando termino todo o trabalho, o sol ainda está brilhando lá fora. Para mim, isso é um mau sinal, porque não gosto de chegar em casa tão cedo. Há também tantos pensamentos agora, que são como um turbilhão girando em círculos na minha cabeça.
Paro junto ao meu carro, olho para o céu sem nuvens e a decisão surge instantaneamente.
Não visito Timur com frequência. Para mim, cada visita ao cemitério é como uma facada nas costelas, mas hoje, por algum motivo, eu queria… conversar.
A última vez que estive lá foi há alguns meses. Eu só queria muito vê-lo, pelo menos daquele jeito. Hoje tenho a mesma sensação. Uma necessidade urgente… dele.
O carro para perto de um cemitério familiar. Eu saio. Compro rosas-vermelhas numa lojinha e, apertando-as com força entre os dedos, sigo em direção à entrada principal.
Caminho devagar. Fileira após fileira. Tantos nomes. Tantas vidas interrompidas precocemente. Em cada lápide, uma história. Dor. A perda de alguém. E aqui estou eu, diante do seu túmulo.