O jantar na mansão Hunt tinha começado de forma tranquila, mas logo se transformou em um animado burburinho. Bella e Ruan estavam sentados lado a lado, e ela não perdeu tempo em provocar o amigo. Passava-lhe o guardanapo de forma exagerada, ria de cada comentário bobo que ele fazia e, em alguns momentos, até empurrava delicadamente a mão dele para brincar. Ruan revidava com gestos igualmente infantis, arrancando risadas contidas de Suzzie e Isobel, que apenas sorriam diante daquela leveza inesperada.
Charles observava tudo em silêncio, sentado à outra extremidade da mesa. Ele não precisava interagir para entender a dinâmica; sempre soube que Bella e Ruan tinham uma cumplicidade especial. Para ele, aquilo era normal, confortável, e ainda assim… cada risada dela atingia-o de forma diferente. Um leve calor subiu ao seu peito sempre que a via inclinando-se para o irmão, entregando-lhe aquela espontaneidade que Charles sempre admirara, mas que agora despertava algo mais confuso dentro dele.
O jantar se desenrolava com mais leveza à medida que os drinks eram servidos. Bella, cautelosa, mas um pouco desinibida, tomou um gole a mais do que deveria. Nada que comprometesse sua postura ou boa educação.
— Eu juro que não sei como você consegue me fazer rir até assim, Ruan — disse ela, inclinando-se sobre a mesa, os olhos brilhando sob a luz das velas. — Sério, parece que você tem o dom de me fazer rir!
Ruan gargalhou, batendo-lhe de leve na mão. — Bom… É o meu talento secreto. Mas olha, não me culpe se você também gosta disso.
Charles observava de longe, mantendo a expressão neutra, embora os músculos de sua mandíbula estivessem levemente tensos. Ele sentia uma pontada estranha de ciúme, mas não precisava intervir. Eles sempre foram amigos, sempre foram próximos, mas agora… ver Bella tão próxima de outro homem, mesmo que fosse Ruan, provocava nele uma inquietação que ele não queria admitir.
A noite avançava, e todos começaram a se levantar da mesa, satisfeitamente cansados. Bella sentiu o efeito do drink e soltou um suspiro leve, soltando os dedos entrelaçados com os de Ruan de forma inconsciente. Ela o desejou boa noite e ganhou um beijo demorado na bochechaZ
— Espero que a noite não acabe sem aquele passeio prometido… — murmurou.
Charles, que estava parado à porta da sala, apenas assentiu. Ele também estava ansioso, mas o rosto permanecia firme e sereno, ocultando perfeitamente o turbilhão que sentia.
Quando todos finalmente se recolheram para os quartos, Bella se apressou em trocar o pijama pelo casaco leve que levara consigo. O ar fresco da noite a envolveu assim que saiu discretamente pela varanda, e lá estava Charles, apoiado junto à margem do lago, olhando para a água como se buscasse respostas invisíveis.
— Chegou cedo — disse ela, tentando disfarçar a ansiedade com um sorriso leve.
— Não queria que você me esperasse muito tempo — respondeu ele, erguendo a cabeça e mostrando o leve sorriso que raramente aparecia. — A noite estava bonita demais para não aproveitar cada minuto.
Eles caminharam juntos em torno do lago, passos lentos e compassados. A conversa fluiu naturalmente; falavam sobre trivialidades do dia, pequenos detalhes da cidade, lembranças engraçadas de momentos passados juntos, mas cada frase carregava uma tensão invisível, um jogo silencioso de aproximação.
— Então você finalmente está bêbada o suficiente para contar verdades — Comentou com um meio sorriso, percebendo a ponta de sinceridade no olhar dela.
— Bêbada o suficiente, mas ainda consciente — ela rebateu com uma risada baixa, os olhos brilhando. — Não se preocupe, não vou te contar nada que você já não saiba… ou pelo menos que não tenha notado. - Murmurou.
Charles esticou a mão, pegando a dela de forma sutil. — Eu sempre noto, Bela. — Um arrepio percorreu seu braço com o toque dela. — Mas acho melhor você não exagerar nas verdades… Algumas eu não estou pronto para ouvir. - Disse com um meio sorriso nos lábios.
Ela riu, inclinando-se ligeiramente, quase encostando a testa na dele. — Que injusto… Não existe meias verdades, senhor Visconde.
Ele fechou os olhos por um instante, respirando fundo, tentando organizar pensamentos e emoções que teimavam em se misturar. — Eu te disse isso uma vez. — Olhou novamente para ela, e algo na expressão dele mudou, mais vulnerável, mais humano. — Eu deveria ser apenas seu amigo, como sempre fomos… Mas agora, é diferente. E eu não posso deixar que isso nos confunda. - Pigarreou.
Ela sorriu suavemente, inclinando-se para ele sem perceber que se aproximava perigosamente. — Então não vamos nos confundir. Vamos apenas aproveitar o momento. — E, antes que pudesse pensar melhor, ela pressionou os lábios nos dele.
Nunca fora beijada antes, e nunca sentira nada comparado àquele momento. Seu coração saltava rápido no peito e m*l podia respirar.
O beijo foi intenso, ardente, mas respeitoso. Charles correspondeu por alguns segundos, segurando-a com firmeza, mas com cuidado, como se o mundo inteiro pudesse desaparecer ali. Mas, instintivamente, ele se afastou, os olhos presos aos dela, carregados de conflito e desejo contido.
— Desculpe… — murmurou Bella, a voz baixa, quase temerosa.
— Não… eu que… — ele respirou fundo, segurando a própria inquietação. — Eu que peço desculpas. — O tom dele era firme, mas suave, cheio de uma sinceridade que nenhuma palavra poderia transmitir. — Isso não devia ter acontecido.
Eles ficaram alguns segundos assim, respirando pesadamente, ainda próximos, mas mantendo a distância segura. O lago refletia a lua, as árvores dançavam na brisa, e o silêncio entre eles era confortável, carregado de expectativa.
— Então… por hoje, é melhor encerrarmos por aqui — disse ela, sorrindo levemente, tentando quebrar a tensão. — Mas foi… bom. Muito bom.
— Sim — respondeu ele, soltando uma risada baixa, quase aliviada. — Mas precisamos manter nossos limites… por enquanto.
Bella assentiu, um sorriso leve ainda nos lábios. — Por enquanto.
Eles se despediram com um último olhar carregado de significado, e cada um seguiu seu caminho para dentro da casa. O coração de Charles ainda batia acelerado, confuso. E Bella, embora levemente desapontada, sentia o calor do toque dele e a intensidade do momento como uma chama suave, que prometia muito mais para os dias seguintes.