No dia seguinte, as três mulheres haviam optado por fazer mais um passeio, enquanto Leandro e Ruan saíram para jogar poker, Charles disse de forma rígida: — Estarei por perto, mas não o suficiente para atrapalha-las. - Elas riram em uníssono.
O sol da manhã iluminava as ruas de Lisboa com uma luz dourada, refletindo nas fachadas antigas e deixando o ar fresco e perfumado com o cheiro do mar próximo. Bella caminhava ao lado da mãe e de Suzzie, absorvendo cada detalhe das lojas, praças e pequenas fontes que encontrava pelo caminho. A cidade, tão diferente de sua rotina em casa, parecia convidá-la a explorar cada esquina e descobrir cada segredo.
— Vejam só este lugar! — exclamou Suzzie, apontando para uma pequena confeitaria decorada com flores e frutas frescas. — Temos que entrar, Bella!
— Concordo — disse Isobel, sorrindo. — E você, minha querida? Aproveite este tempo. Conheça, veja coisas novas, converse com pessoas interessantes. — Ela lançou um olhar significativo para a filha, como quem dizia: “O mundo é seu por um dia”.
Bella riu discretamente, mas seu olhar se desviou por um instante, captando uma figura distante observando-as. Era Charles, encostado discretamente na sombra de uma coluna, os olhos fixos nela, um leve franzir de sobrancelhas e os braços cruzados. A presença dele a fez sentir um calor no peito, misturado com aquela pontada de curiosidade.
Ela ergueu a sobrancelha, olhando de volta para ele como se percebesse o pequeno vigilante silencioso. Um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios — um sorriso sutil, mas carregado de intenção.
— Acho que estamos sendo observadas — murmuro Suzzie, inclinando-se discretamente. — E pelo meu favorito crítico particular.
Bella sorriu enquanto se deliciava com a situação. Continuou caminhando pelas ruas, acenando para comerciantes locais, olhando vitrines e comentando com entusiasmo sobre pequenos detalhes das peças e artesanatos. O que ela queria, secretamente, era sentir a inquietação de Charles crescer um pouco mais. Cada vez que ele desviava o olhar, ela se voltava para alguém próximo, rindo, gesticulando, tornando-se a garota cheia de vida que sempre fora, mas agora com um leve toque de provocação.
— Esta loja tem os melhores tecidos de Lisboa — comentou Bella, pegando um pedaço de seda e deixando-o escorregar entre os dedos. — Imagine um vestido feito disso… Eu ficaria encantada.
Para Charles vê-la assim, tão viva e independente, provocando, sem sequer perceber o efeito que causava, era uma tortura silenciosa.
Caminharam até a praça central, onde músicos tocavam canções leves e crianças brincavam ao redor da fonte. Bella se deixou envolver pelo ambiente, dançando de leve ao som de uma melodia, atraindo olhares de curiosidade de transeuntes e, claro, a atenção silenciosa de Charles. Ela jogou o corpo de um lado para o outro de forma graciosa, rindo com Suzzie e comentando sobre a habilidade do violinista, e notou uma pequena frustração em Charles quando desviou-se para cumprimentar um rapaz que se aproximava. Um ciúme mínimo, mas perceptível, que a fez sorrir com prazer.
O efeito foi imediato: Charles endireitou-se de longe, franzindo o cenho, e por um instante, parecia querer atravessar a praça para intervir, mas conteve-se. A rigidez que o mantinha sempre correto, sempre reservado, permanecia intacta — mas o coração traíra pequenas reações que ele não conseguia controlar.
Quando o sol começou a se aproximar do ponto mais alto no céu, as mulheres decidiram fazer uma pausa em uma pequena cafeteria com vista para o rio. Bella sentou-se, ainda rindo das histórias que Suzi contava, mas observou Charles do lado de fora da janela, de pé, imóvel, como se cada gesto dela pudesse alterar o ritmo de seu coração. Ela segurou a colher por um instante, brincando com o açúcar na xícara, e percebeu claramente a inquietação dele.
— Ele está mais confuso do que nunca — murmurou Bella para si mesma. E decidiu fazer um pequeno teste: inclinou-se levemente para trás na cadeira, apoiando a mão no encosto, enquanto falava com Suzi sobre a vista do rio. Um sorriso discreto, uma risada leve, e os olhos de Charles, mesmo de longe, seguiram cada movimento dela com atenção absoluta.
— Minha querida, quer continuar explorando? — perguntou Suzi, levantando-se. — Há tantas coisas para vermos hoje.
— Claro! — Bella respondeu com entusiasmo, levantando-se rapidamente e ajustando o casaco sobre o vestido de seda rosa que usava, ainda sentindo o calor percorrer-lhe o corpo ao perceber Charles ainda observando.
Caminharam pelas ruas estreitas, explorando livrarias, pequenas galerias e lojas de antiguidades. Bella comentava sobre livros, apontava obras de arte e ria de histórias de Suzi, mas cada vez que se distraía com algo ou alguém próximo, a sensação de ser observada por Charles a fazia sorrir discretamente. Ele a seguia à distância, o coração acelerado, a mente confusa entre o dever de protegê-la e a incompreensível atração que sentia.
Ao final da tarde, quando retornaram à propriedade dos Hunt, Bella sentiu uma mistura de satisfação e leve frustração. Charles a esperava discretamente próximo ao lago, os olhos fixos nela, braços cruzados, mas com uma postura que mostrava tensão e cansaço. Ela caminhou até ele, respirando fundo e sorrindo de forma leve.
— Viu? Não me meti em confusões hoje. — disse Bella, provocando-o de leve.
Ele deixou escapar um suspiro contido. — Foi um dia encantador, há tanto para ver em Lisboa ainda. Posso mostrá-la em breve. — Ele franziu a testa, desviando o olhar por um instante antes de olhar novamente para ela. Não era uma boa ideia, mas maldição… Já havia dito aquelas palavras e sabia que ela não se esqueceria.
Bella sorriu discretamente. — Seria encantador.
Ela tocou levemente o braço dele. — Prometo que não vou colocar você em apuros — disse, com um brilho travesso nos olhos. — Mas, quem sabe, podemos passear juntos mais tarde novamente? Só nós dois.- Ela mordeu a língua, não devo ter dito aquilo.
Ele ergueu os olhos para ela, hesitante, mas finalmente assentiu. — Sim… seria encantador - Ele riu, usando o mesmo tom que outrora ela usará. — Mas agora, vamos voltar antes que nossas mães percebam que desaparecemos.
Enquanto caminhavam juntos de volta à mansão, um silêncio confortável se instalou, cheio de tensão, entendimento e pequenas provocações discretas. Charles ainda não sabia como lidar com o turbilhão de sentimentos, e Bella brincava com a situação de forma sutil, percebendo cada gesto, cada olhar, e permitindo-se sentir o efeito de sua presença sobre ele.
A tarde terminava com a certeza de que aquele dia seria lembrado não apenas pela beleza da cidade, mas pelo jogo silencioso, intenso e cheio de significado que eles agora compartilhavam — mesmo sem palavras de amor, mesmo sem declarações formais, mesmo com o peso de uma promessa…
Charles prometera protegê-la, e cuidar dela, mas sabia que não era bom o suficiente para isso …