Quando Bella, sua mãe e Suzzie retornaram à mansão, o crepúsculo já tingia o céu de tons alaranjados e violetas. O ar estava pesado com o silêncio quase constrangedor que se instalara no jantar. Leandro estava ocupado demais relatando seus encontros e compromissos com figuras importantes da sociedade, e Ruan, sentado à mesa, olhava de um lado para o outro sem entender direito o que se passava. Tentava fazer piadas, mas elas caíam sem graça no ar, e Bella percebia o quanto Charles mantinha-se rígido, observando cada gesto dela com uma atenção quase desconcertante.
O jantar se arrastou entre conversas cordiais, pequenas risadas nervosas e olhares discretos de Charles em direção a Bella, que por sua vez tentava disfarçar o rubor que subia às faces. Ela notava o quanto ele se mantinha distante, rígido, quase como se o peso do mundo o impedisse de relaxar, e o coração dela apertava.
Após o jantar, Bella subiu para seu quarto com um suspiro, sentindo-se exausta. O silêncio do quarto parecia confortável, mas também solitário. Ruan ainda tentava entender o que acontecera entre ela e Charles durante o dia, mas Bella não tinha palavras que pudessem explicar os sentimentos que borbulhavam em seu peito. Leandro, exausto de seus compromissos, já dormia profundamente, Isobel e Suzzie ocupavam-se em papéis de organização e conversas discretas no andar inferior.
Sozinha, Bella se recostou na janela, perdida em pensamentos, quando notou um som leve: pequenas pedrinhas batendo suavemente no vidro. Seu coração acelerou — Charles. Ela abriu a janela e encontrou o Visconde com a expressão tensa, mas algo nos olhos denunciava que ele queria se desculpar.
— Perdoe-me por hoje… fui rígido demais — disse, a voz baixa e quase embargada. — Não queria que nosso reencontro se tornasse estranho.
Bella sorriu levemente, colocando um casaco sobre o pijama. — Charles… não precisa se preocupar, eu entendo. — E antes que ele pudesse responder, ela desceu correndo os degraus e o encontrou já esperando do lado de fora, junto à escadaria que levava ao lago da propriedade.
O lago refletia a luz das lanternas que a cercavam, e o vento suave trazia consigo o cheiro das flores próximas. Eles caminharam lado a lado, em silêncio por alguns instantes, cada um absorvendo a atmosfera tranquila e reconfortante do lugar.
— Sabe… — começou Charles, quebrando a quietude — é difícil, às vezes, ser o que sou, ter responsabilidades que… não posso compartilhar, nem com meu irmão, nem com minha mãe. E ontem, com você… fui muito rígido.
Bella olhou para ele, sentindo a sinceridade em cada palavra. — Charles… você não precisa se desculpar. Sei que carrega muito, e… agradeço por se preocupar comigo.
Ele parou por um instante, apoiando as mãos nos bolsos do casaco. — Eu me preocupo, mais do que deveria. Mas ontem, ao vê-la… senti que fui duro demais. É… difícil explicar.
Bela sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. — Charles… você não precisa carregar isso sozinho. — Sua voz estava calma, mas carregava ternura e firmeza. — Eu confio em você.
Ele suspirou, quase em silêncio. — Sempre a vi… como uma garotinha, como alguém que eu deveria proteger e cuidar. Mas agora… você cresceu, e as coisas estão estranhas para mim. Não sei como agir. Não quero que fiquem estranhas entre nós. Eu … Eu me preocupo com você, Bela.
Bela caminhou um pouco mais perto, diminuindo a distância entre eles. — Não precisamos nos preocupar com nada disso agora. Só… aproveitemos este momento.
Charles olhou para ela, e por um breve instante, o mundo parecia se reduzir àquelas margens do lago, ao reflexo da lua sobre a água, e à respiração compartilhada entre os dois. — Prometo tentar… — murmurou. — Prometo não deixar que a rigidez estrague o que temos.
Eles continuaram caminhando ao redor do lago, conversando suavemente sobre pequenas coisas: as flores, o vento, o silêncio confortável que finalmente podia existir entre eles. Charles compartilhava, sem perceber, pequenas confissões sobre suas obrigações, sua rotina e os desafios que surgiam ao administrar títulos, propriedades e responsabilidades sociais.
— Sabe… — ele disse finalmente, encarando o reflexo da lua na água — você sempre fez com que eu me sentisse melhor, mais caldo diante das minhas dúvidas e incertezas.
Bella sorriu, sentindo a proximidade reconfortante. — Nem sempre podemos controlar tudo, Charles. Mas podemos escolher como viver cada momento. E agora, este momento é nosso.
Ele ergueu os olhos para ela, reconhecendo a força tranquila em seu semblante. — Sim… este momento é nosso. — E por um instante, ambos simplesmente caminharam, lado a lado, sem palavras, sem pressa, permitindo que a conexão silenciosa entre eles falasse por si mesma.
Quando voltaram para a mansão, o ar estava mais leve. Não havia declarações de amor, nem grandes gestos, apenas uma compreensão mútua de que, apesar de tudo, ainda havia confiança, proximidade e o início de algo que Charles não sabia nomear, mas que não queria perder.
Ele se aproximou mais do que o apropriado e ela m*l pôde respirar. Charles lhe deu um beijo demorado na testa.
- Boa noite Bela.
- Boa noite, Charlie.
Bella subiu para seu quarto com o coração mais leve, enquanto Charles ficou por um instante à beira do lago, observando a lua refletida na água, pensando no pedido de Aurélio e no segredo que guardava — a proteção que se transformara em uma confusão de sentimentos que ele ainda precisava entender. Mas uma coisa era clara: não queria que aquele elo que tinham se quebrasse, e faria o possível para que a relação deles, apesar da tensão e do segredo, permanecesse intacta