Incapaz de ignora-lo, não demorou muito para que Bella seguisse os seus passos ela o encontrou sozinho no corredor.
— Charles — começou, tentando soar firme — não precisa se preocupar comigo, não dessa forma. Sabe que não tem essa obrigação, não é?
Ele ergueu os olhos, fixando-os nela por um instante, e a atmosfera ao redor pareceu silenciar. Não houve sorriso, não houve gentileza exagerada; apenas o olhar firme de quem tinha responsabilidades demais para se permitir emoções.
— Bella — disse, a voz controlada e distante — você está sob minha tutela enquanto estiver aqui. Não porque queira, mas porque é necessário. Enquanto estiver sob meu teto, minha obrigação é proteger você. É meu dever, ponto final.
Ela engoliu em seco, sentindo o peso daquelas palavras. Não eram duras, mas também não eram acolhedoras. Era um lembrete de que, por mais que quisesse, não poderia brincar ou se aproximar dele livremente.
— Entendo — murmurou, tentando controlar o aperto no peito. — Não queria que se sentisse obrigado…
Ele não respondeu. Apenas ajeitou o relógio novamente, o gesto firme e metódico. Bela percebeu que, por enquanto, qualquer diálogo sobre sentimentos estava fora de questão.
— Certo, vou… — ela hesitou, sentindo um nó na garganta. — Vou me juntar à mamãe e Suzana. Passearemos um pouco pela cidade.
Charles apenas acenou, sem emoção aparente, mas ela percebeu o leve endurecer de seus ombros, como se cada passo dela para longe fosse sentido por ele de alguma forma. Ela suspirou, tentando não se deixar abater.
Ao se juntar à mãe e Suzana, sentiu uma mistura de alívio e tristeza. Era bom ter companhia, mas doía sair do meio dos irmãos, do convívio com Charles, mesmo que ele a tratasse com uma distância que a fazia doer por dentro.
— Bella, você precisa conhecer a cidade — disse Suzzie com entusiasmo, ignorando totalmente o clima tenso da manhã. — Há tantos lugares interessantes, e também bons cavalheiros que circulam por aqui. É hora de expandir seus horizontes.
— Sim — concordou Isobel, sorrindo. — Um passeio pela cidade, ver pessoas novas, conversar, se divertir… Não precisa ficar presa à casa ou aos irmãos.
Bela deu um pequeno sorriso, apesar da tristeza que ainda permanecia. As ruas vibravam com mercadores, artistas e o movimento cotidiano, e o calor do sol parecia abraçá-la, trazendo uma sensação de liberdade que não sentia desde que chegara.
— Parece bom — murmurou, observando as pessoas e o comércio. — Um momento só para mim… para esquecer as preocupações, mesmo que seja por pouco tempo.
Suzana segurou seu braço com delicadeza, sorrindo: — É importante. Aproveite, respire. Ninguém aqui vai exigir nada além do que você quiser fazer.
Enquanto caminhavam, Bela notava como Leandro estava completamente absorvido em seus compromissos, conhecendo pessoas importantes e deixando claro que o mundo da sociedade o chamava mais do que a companhia da irmã. Ruan e Charles, cada um à sua maneira, continuavam sendo figuras de grande influência e mistério, mas por ora, ela tinha a chance de ser apenas Bella — sem títulos, expectativas ou deveres.
O passeio pelas ruas estreitas e coloridas de Lisboa trouxe-lhe um conforto inesperado. O cheiro do pão recém-assado, o riso das crianças na praça, o canto suave de músicos de rua… Tudo parecia um bálsamo para a alma cansada de Bella.
— Que bom que viemos — disse ela, finalmente permitindo que a tristeza se misturasse a um pequeno sorriso. — Só nós três, sem pressa, sem ninguém para vigiar cada passo.
Isobel sorriu, segurando sua mão por um instante: — Aproveite, querida. Vá conversar, observar, conhecer novos lugares e pessoas. Lembre-se, esta é uma oportunidade para crescer, socializar e, quem sabe, se encantar com alguém interessante.
Bela suspirou, sentindo a realidade pesar novamente, mas decidiu ignorar por ora. Seguiu suas amigas pelas ruas, permitindo-se pequenos prazeres, mesmo que a distância dos irmãos e de Charles fosse difícil de suportar.
O sol já começava a descer, tingindo os prédios com tons dourados e laranjas, e Bella percebeu que, apesar da tutela, da distância e do coração apertado, havia algo de reconfortante em ter tempo só para si. Por algumas horas, poderia ser apenas Bella, e não a protegida.