Se um encontro nada convencional em um navio ou um teatro lotado, fizeram Lunna ter sonhos no mínimo impróprios com o visconde de Severn, beija-lo de forma tão ousada e íntima, sob uma árvore, a beira mar, a estavam levando a loucura quando tentava dormir.
Acordar com a respiração acelerada e um calor desconcertante, já estava se tornando parte da sua rotina, e a cada vez que precisava passar por algum constrangimento e inventar para alguém que eram apenas pesadelos, sentia a sua raiva pelo visconde aumentar ainda mais.
Até o seu humor estava sendo afetado por aquele homem, a viagem até o ducado, onde passaria a morar como acompanhante de Ivy, já era demasiadamente cansativa, e ter suas noites de descanso incomodadas por aqueles sonhos indecentes com James, eram um inconveniente que lhe tiravam do sério.
Apesar destes contratempos, as esperanças de Lunna estavam focadas justamente nesta mudança. Um novo lar, a mudança para o campo e a nova rotina ocupariam a sua mente e se tudo desse certo, logo esqueceria aquele acontecimento que nunca deveria ter acontecido e as lembranças daquele beijo tão intenso e daquele toque ardente lhe arrepiando a pele seriam esquecidas de uma vez por todas.
Após vários dias de viagem exaustivos, a comitiva finalmente avistou o ducado de Gloucester. Ao longo do caminho, os moradores dos vilarejos saiam de suas casas para comprimentar o duque e conhecer a sua nova duquesa, Lunna nunca vira nada igual, era realmente animador serem recebidos de uma forma tão amistosa. Na carruagem da frente, Ivy e Andrew sorriam e acenavam para as pessoas, enquanto Lunna apenas observava tudo de sua janela.
Quando chegaram, um verdadeiro batalhão de criados estavam as portas e pareciam realmente ansiosos. Até onde sabia, o velho duque, pai de Andrew, já não tinha a saúde tão boa para viajar e há muito não frequentava o ducado, sempre designava algum servo de sua confiança para cumprir as obrigações referentes ao título, mas residia com a sua jovem esposa na propriedade de Londres.
Ali, os criados foram designados pela governanta da casa, a senhora Gertrudes, a seguirem pela entrada dos fundos, enquanto apenas a carruagem do jovem casal, parou de frente a imponente porta de entrada da mansão.
Pelos fundos da casa, Lunna entrou em uma espécie de salão social, onde os servos se reuniam nas horas vagas e faziam as refeições, na enorme cozinha, homens e mulheres trabalhavam agilmente para receber os novos moradores da casa com um banquete digno da nobreza. Ao longo do caminho, a senhora Gertrudes a apresentava a cada novo servo que surgia, mas eram tantos que Lunna jamais conseguiria gravar. Todos a olhavam de uma forma estranha e alguns m*l disfarçavam o espanto. A verdade é que não era comum que uma criada se vestisse como ela estava vestida no momento, praticamente como uma lady da nobreza. Por isso tentava sorrir para todos pelo caminho, não queria ser julgada de forma errada, como as vezes costumava acontecer, e alguns criados a julgavam por esnobe.
O quarto que a senhora Gertrudes lhe mostrou, era na verdade muito parecido com o que já tinha em Burlington, pequeno, porém limpo e organizado. Lunna organizou os seus pertences sob o olhar atento da governanta.
- nunca conheci uma serva que quisesse tanto estar no lugar da sua senhora.- disse a mulher mais velha, enquanto a encarava.- como consegue trabalhar vestida desta forma?
- perdão, senhora, mas a senhora está muito enganada, eu jamais ousaria cobiçar o lugar da minha lady. Somos amigas antes de tudo! Além disso, a minha vestimenta não atrapalha na minha função, todas as minhas roupas foram um presente da duquesa e da sua família pra mim.
- acontece, que a duquesa está em lua de mel, e neste caso os seus serviços devem ser bem pouco solicitados. Então por hoje, descanse da viagem, amanhã use uma roupa um pouco mais apropriada para nos ajudar com a limpeza.
- farei como desejar, senhora. Não tenho medo do trabalho.
A governanta estava certa ao afirmar que os seus serviços já não eram mais solicitados. Desde que Ivy casou, nunca mais precisou da sua ajuda a noite, para retirar qualquer vestido e durante aqueles dias, Andrew também fazia questão de lhe fazer companhia durante a maior parte do tempo, restando a ela apenas se afastar e deixar os recém casados aproveitarem a privacidade. Também era verdade que não tinha medo do trabalho árduo. Cresceu vendo a mãe e as tias se esforçarem muito, e ainda criança aprendeu o ofício. Seria até bom pra passar o tempo e poder conhecer melhor todos os empregados do ducado e também para mostrar para eles que não se julgava superior a nenhum.
No final das contas, seus planos afinal, haviam dado certo. Toda aquela mudança e a pespectiva de fazer algo novo lhe roubaram os pensamentos, mesmo enquanto dormia, e quando acordou na manhã seguinte sem nenhum indício de que estivera algum sonho libidinoso, sorriu aliviada e muito bem revigorada, como a muito tempo não se sentia.
Depois de se vestir de forma simples, como a senhora Gertrudes lhe havia pedido, ela caminhou até o salão dos criados, onde o desjejum já começava a ser servido. Com a sua presença o restante da turma silenciou o que falava e ela sentiu que precisava se enturmar por conta própria.
- bom dia. Hoje ajudarei vocês na limpeza, mas vou precisar de um guia, para não me perder nesta casa.
- se eu não fosse o jardineiro, seria um prazer para mim acompanha-la. Me chamo Sammir, eu não estava por aqui quando a senhorita chegou ontem a tarde, mas já ouvi falar muitas coisas sobre a senhorita.
O jardineiro era um homem muito bonito, e bem apresentável, e tinha estampado no rosto um sorriso um tanto torto, que era extremamente charmoso.
- é um prazer conhecê-lo, senhor Sammir, eu espero que tenha escutado coisas boas sobre mim.
- sim, sim, mas nada comparado com a realidade.
Diante dos óbvios galanteios do jardineiro, os outros empregados gargalhavam e Lunna ficou um tanto sem graça. Após este desjejum, ela cumpriu as ordens da sua nova governanta e se afastou acompanhada de duas outras criadas, Léia e Dorothy, para limparem alguns cômodos.
Enquanto esfregava os vidros da enorme janela, na sala de visitas, Lunna ouviu o som de passos firmes se aproximando rapidamente. Seus olhos foram guiados imediatamente para o local de onde vinham e ela se espantou ao notar Ivy, ainda despenteada e com um robe por cima da roupa de dormir a encarando indignada.
- mas, o que você pensa que está fazendo Lunna?
- me perdoe, milady. É que a senhorita tem solicitado poucas vezes a minha companhia nos últimos dias, então, tomei a liberdade de ajudar os outros criados nas tarefas.
- Lu, você não precisa fazer isso! Essa casa tem dezenas de criados, e você não irá fazer falta nos serviços, tem apenas que me ajudar, e nas suas horas livres pode ler, ou cavalgar, ou tocar um instrumento... Nada será diferente do que era em Dorset.
- eu sei, não se preocupe, milady. Eu não acho que está me desprezando ou algo assim, mas, eu entendo que está em lua de mel e deve passar muito mais tempo com o seu marido.
- Claro que você entende, porque é uma amiga maravilhosa. Me diga, Lunna, foi alguém que mandou você fazer esse serviço?
Apesar de continuarem limpando como se nada estivesse acontecendo, Léia e Dorothy também estavam bem atentas na conversa e se surpreenderam com a i********e com que a lady Windsor, tratava sua criada e principalmente com a recíproca que a criada também a tratava.
- Ivy, eu já disse que quis estar aqui, não importa se alguém pediu, mas para mim era uma forma de me aproximar dos outros servos. Agora venha, vamos dar um jeito na sua aparência, que está péssima.- disse enquanto largava o serviço para acompanha-la
- deve ser porque eu não tive uma dama de companhia esta manhã.
- eu iria ajuda-la, mas você acordou muito cedo hoje.
Enquanto as duas se afastavam, as outras servas também largaram o serviço quase imediatamente e correram até a senhora Gertrudes, ansiosas para informa-la sobre o ocorrido e quem sabe, ganhar algum prestígio com a governanta para garantirem os melhores serviços.