03 - Henrique Carter

1571 Palavras
Henrique Carter A noite foi divertida com o meu amigo Petter. Ficamos jogando até um pouco depois das 23h. Isso daria tempo para que eu não ouvisse coisas desnecessárias que pudessem estragar meu pensamento de que minha mãe é uma santa. Subimos para o meu quarto, e me deitei no chão junto com o branquelo do meu amigo. Ficamos vendo alguns lugares de Nova York que ele gosta de frequentar. Achei todos eles bonitos. Uma notificação chegou em nossos celulares, e abri para saber do que se tratava. Estávamos rezando para que fosse o adiamento da prova de segunda-feira. Mas era apenas um anúncio: o concurso para as bolsas de intercâmbio seria aberto, e qualquer aluno com média acima de B+ poderia concorrer. Se eu não fosse tão novo, e se minha mãe aceitasse, teria coragem de me candidatar para estudar fora e aproveitar a oportunidade de conhecer outros países, assim como o meu amigo fez. — No que tanto pensa aí, Carter? — Petter me perguntou ao perceber que eu estava muito pensativo. — Que talvez eu queira me candidatar a uma vaga dessas e ir conhecer a sua cidade. Ele ficou calado por alguns segundos, pensativo, mas logo começou a rir. — Te vejo congelando e pedindo para voltar correndo para o colo da sua mãe, implorando para voltar pra casa! Ele continuou rindo e voltou sua atenção para o jogo que estávamos jogando até pouco tempo atrás. Enquanto jogávamos, tentei voltar minha concentração para o que o Augusto estava trabalhando. Era muita coincidência ele estar envolvido em algo que trazia o nome de James Carter nos autos do processo. Pensei em tudo isso enquanto continuávamos a jogar, mas, em pouco tempo, o sono chegou. Decidi então voltar para a minha cama e dormir, enquanto Petter falava com o pai dele, já que lá em Nova York ainda era bem mais cedo. Na manhã seguinte, acordei e meu amigo já estava de pé, banho tomado e pronto para descer para o café. Acho que a criação dele deve ter sido militar. Passei o lençol pela cabeça e senti um chute na cama. Mostrei apenas o dedo do meio para que ele me deixasse dormir. Céus… Hoje é sábado e ainda nem eram oito da manhã. — Vamos, acorda! Sua mãe já deve ter descido para o café. Tirei a coberta de cima de mim e comecei a me espreguiçar para ir tomar banho e descer, só para satisfazer a vontade desse cara chato. Assim que me arrumei, chamei o pequeno soldado e desci com ele para a cozinha. Fomos tomar café e começar todos os afazeres que prometi para minha mãe e para o Augusto que iria cumprir. Petter se sentou ao meu lado na mesa, enquanto minha mãe trazia as coisas para o nosso café e se sentava de frente para mim. — Que sessão de cinema vocês querem pegar, meninos? — Augusto perguntou, enquanto lia as notícias no tablet, e minha mãe fazia cara feia, tentando puxar o aparelho da mão dele. — Sabe que na mesa não, Augusto! Olha o exemplo! — Ela o repreendeu. Ele apenas revirou os olhos para minha mãe. — São as notícias, mulher… Eles têm que começar a se interessar por essas coisas! Ele pensa que engana a dona Cleide… Tenho até pena dele quando minha mãe começar a surtar com essas atitudes. — Notícias de futebol, sei… — Ela consegue, por fim, tomar o dispositivo, e ficamos rindo dos dois. — Acredito que o horário das 17h está bom para a gente, não é, Petter? — Ele apenas concorda com a cabeça. — Quero levar a Cleide a um restaurante que fica no shopping. Vocês podem escolher uma sessão mais tarde, e acredito que consigam voltar com a gente. Se não, peguem um táxi para casa. O que acham, rapazes? — Olho para o meu amigo, e ele aceita a proposta do Augusto. Tomamos o café tranquilamente. Durante o dia, enquanto minha mãe arruma tudo o que precisa, eu e o Petter organizamos o meu quarto. Minha mãe troca todas as roupas de cama e leva para a lavanderia. Com tudo já em ordem, decido ir para o escritório estudar para a prova. Olho para todas as caixas que ainda estão no chão, pego os documentos espalhados pelo sofá, coloco-os em uma das caixas e fico observando tudo o que tenho em mãos. Percebo que o Petter se interessa pelo que estou lendo. — Parece ser um caso grande. Estou interessado em saber que fim vai dar. — Não preciso contar para ele que estou começando a suspeitar que o Augusto vai acabar mexendo com o monstro que insiste em se chamar de meu genitor. — Percebo que você terá um grande futuro na advocacia, se for isso o que quiser. — Enquanto guardo tudo, o pai dele liga e eles começam a conversar, enquanto termino de organizar as coisas do Augusto. — Não, pai… Ainda não consegui falar com a minha mãe sobre ir para casa. — Ele fica em silêncio por alguns segundos e respira fundo. — Não vou traí-lo. Vocês vão precisar ter paciência. Ele não fica muito tempo no telefone, mas sei o quanto odeia quando o pai tenta forçá-lo a fazer as coisas do jeito dele. Vejo que eles estão tendo muitos atritos por causa disso. Fico preocupado com meu amigo. Sei que o pai dele o ama, pela forma como o trata, sempre oferecendo o melhor ensino. Mesmo com os pais separados, sempre que pode, ele vem ao Brasil para passar o fim de semana com o filho. Acho que ele ainda ama a mãe do Petter, porque sempre faz questão de ir ao encontro dela com buquês de flores. Petter diz que eles não devem mais voltar a ficar juntos, porque parece que houve uma traição. Mesmo assim, o desejo dele é ver a família reunida novamente, seja aqui ou lá em Nova York. Depois que tudo ficou organizado, começamos a separar o material para estudar. Petter vai me ajudar com a história do país dele. Após horas no escritório, o Augusto entra para pegar uma pasta, enquanto fala ao telefone. Acredito que seja com o Eduardo, o pai da baixinha. — Temos que investigar talvez sobre esse James… Quem sabe, através dele, vamos conseguir livrar o Yan… — Ele continua a conversa e sai da sala. Saímos também do escritório e fico pensando no que ouvi do Augusto. Começo a ter medo de que ele vá mexer nessa história mais a fundo e acabe se machucando. Pelo que li, vi que James é chefe de uma facção muito perigosa em Nova York. Espero que seja apenas uma coincidência com os nomes. A tarde passa e o Petter, sempre prestativo, me ajuda a lavar as louças do almoço, para que tudo fique limpo antes de sairmos, sem nada pendente. A briga começa na hora de fazê-lo tomar banho. Nunca vi americano ter problema com banho… Acho que eles pensam que são como gatos, que se limpam com a língua. Fico pegando no pé dele até que ele, finalmente, vai para o banho, para podermos sair. Ouço minha mãe nos chamando lá de baixo e aviso que estamos quase prontos, que já vamos descer. — Vamos, Petter! Está parecendo a minha mãe… E, pelo visto, hoje ela correu, porque está nos chamando. — Ouço-o falando algo que não entendo e começo a rir, mexendo no celular, ainda deitado na cama. — Se eu não tivesse feito o que você falou, já estaria pronto. Mas essa mania que vocês, brasileiros, têm com o banho, faz qualquer um se atrasar. — Começo a rir dele e me levanto para descer antes que a minha mãe resolva subir para nos pegar pelas orelhas. Descemos e nos encontramos com eles, que nos esperavam na garagem, rindo de alguma coisa. Entramos todos no carro e seguimos em direção ao cinema. Quando chegamos à praça de alimentação, encontramos as minhas tias, Neide e Bia. Elas estavam com seus namorados e foram para o tal restaurante, enquanto nós seguimos para a bilheteria para comprar nossos ingressos. Na fila, acabamos encontrando uma das meninas mais populares da nossa sala. Ela ficou me olhando, e eu apenas sorri para ela. Acabamos sentando um ao lado do outro. Petter revirou os olhos quando me viu perguntando se ela queria um pouco de pipoca. Ela aceitou, e nossas mãos se encostaram. No meio do filme, ficamos nos olhando, até que acabei trocando um beijo com ela. A menina ficou toda feliz com a minha iniciativa. Passamos o restante da sessão conversando baixinho, enquanto Petter tentava ignorar o celular, que não parava de vibrar. Sei que a vontade dele era desligar na cara do pai, que só queria dar atenção e receber um pouco dela também. Confesso que senti até um pouco de inveja… Ele tem um bom pai, que se preocupa com ele e demonstra que o ama. A sessão acabou, e meus pais já tinham ido embora. Decidimos pegar um carro de aplicativo para voltar para casa, mas antes marquei um encontro com a Natália para a próxima semana… Sem meu amigo de vela. Quando chegamos, todos já estavam dormindo. Para irritar o Petter, resolvi pegar no pé dele para ir tomar outro banho. Fiquei rindo das desculpas esfarrapadas que ele me dava para evitar mais uma rodada de banho em tão pouco tempo.
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