Ouvi vozes ao meu redor quando meus sentidos voltaram a funcionar. Antes disso tudo não passava de um vazio escuro e sem som, mas não demorou muito tempo para eu sentir a luz forte invadir meus olhos tentando iluminar aquela sala vazia.
Deixei que a claridade me levasse para onde ela queria que eu estivesse e logo ela imundo à sala vazia tirando-me dali antes que o medo do escuro me tomasse.
Já devia ser de manhã, pois aquela luz só poderia ser o raiar do dia. Senti meu corpo arder e minha cabeça latejar conforme ia despertando. À dor crescia a cada segundo e um bip constante apitava próximo de mim dando pequenas pontadas na dor que eu sentia.
Abri os olhos e não reconheci o lugar onde eu estava, pois ao invés do meu quarto em tons roxos, o local era branco e azul-claro. Tinha janelas pequenas e a cama onde eu estava era fofa e confortável, mas alta demais para um ambiente comum. Havia também uma televisão LCD no alto na parede esquerda. Algo não tão moderno, mas não tão antigo e as demais coisas brancas no quarto faziam à cor da luz se intensificar em meus olhos.
— Ei. — Dylan segurou meus dedos. Estava sentado ao meu lado em uma poltrona grande da cor azul bebê com sua cabeça em alerta parecendo ter acabado de se erguer. — Como você está?
— Baqueada… Onde estou? — Minha voz saiu falha e baixa demais.
— No hospital, meu bem. O segurança encontrou você jogada no chão próxima das escadas, você rolou um andar de dois lances com escadas de quatro degraus cada. Quebrou a perna e bateu a cabeça muito forte. — As partes de mim que eu conseguia ver eram roxas e vermelhas, hematomas grandes e cortes com pontos se espalhavam pelo meu corpo em pontos dolorosos que me faziam gemer. Passei a mão em meu rosto sentindo o corte costurado em minha bochecha e um pequeno ferimento cuidado da testa.
— Eu sou desastrada. — Falei fazendo Dylan sorri fraco, seus olhos preocupados não deixaram o sorriso durar muito. Ele passou a mão livre levemente em meu rosto se certificando de não tocar os hematomas.
— Alguém te empurrou, Camz.
— Quem faria algo tão monstruoso assim? — Questionei tentando me erguer, mas doeu fazer aqui e me deitei novamente. Dylan respirou fundo.
— Olharam nas cameras de segurança e na hora que você perdeu o equilíbrio uma mão apareceu na imagem tocando suas costas. A pessoa correu antes do censor acender, então não sabemos quem foi, mas está sendo investigado.
— Investigado? — Ele assentiu e me deu um beijo em meu lábio.
Dylan nada mais disse depois de me revelar aquilo. Ficou um bom tempo ao meu lado me acariciando e me mimando e enquanto eu pensava em quem teria feito algo tão terrível naquele nível. Uma pessoa sem coração ou amor ao próximo com toda certeza.
— Com quem você estava falando? Ouvi alguém conversar com você. — Perguntei finalmente ao recordar que tinham mais vozes na sala quando despertei. A cada fala um músculo ou osso doía e me fazia gemer.
— Com a enfermeira. Ela me disse que logo você acordaria e que eu não poderia te deixar agitada.
Dei um meio sorriso e pressionei levemente a mão do moreno. Ele roçou o nariz no meu, o que me fez cócegas deliciosas arrancando-me um riso bobo. Aquilo me causou dor, mesmo que eu não quisesse mostrar. Fomos interrompidos por uma jovem que entrou na sala agitada. Ela vestia um short listrado de surf e uma camisa branca larga combinando com os chinelos de dedo. Os cabelos longos e escuros jogados para frente estavam bagunçados e o rosto assustado me olhou com ternura ao perceber que eu estava acordada, logo a reconheci e sorri.
— Olga. — Disse Dylan me fazendo franzir o cenho.
— Oi gigante! — A garota respondeu e caminhou até nós.
— Vocês se conhecem? — sussurrei.
— Sim, se não, como viria te ver no hospital? Dylan me ligou. — Olga notou meus olhos confusos e isso à fez dar um meio sorriso. — É uma longa história.
— Olga é uma velha amiga. Foi a primeira pessoa que soube da minha queda por você e parece que foi fazer suas investigações. — Ele fuzilou a garota com os olhos e eu só me confundia mais.
— Eu precisava saber se Camz era boa o suficiente para você, ora bolas. — O professor revirou os olhos e minha cabeça latejou fazendo-me gemer e apoiar a mão na cabeça. — Calma fofa, não precisa entrar em órbita. Eu vou explicar. Quando soube que meu amigo estava com você, depois de ouvir milhares de vezes como você era perfeita e talentosa, resolvi saber se você era real ou uma Nathally da vida.
Ela colocou dois dedos na boca fingindo forçar um vômito.
— Enfim, cheguei em sua escola sem saber como faria à abordagem e no mesmo instante te vi correr para a rua chorando. Fui atrás de você e cara como você corre hein! Menina, fiquei sem ar tentando ir atrás de ti. — Deixei o riso escapar e ela também. — Bom, enviei uma mensagem a Dylan dizendo que sabia onde você estava e logo iria embora, então conversamos sobre aquela música, nos tornamos amigas e estamos aqui!
Lembrei-me do dia e dei outro sorriso ao entender o que aconteceu. Parecia que Olga queria me ver ao lado do seu amigo, então.
— Corrompeu a mente dela. — Dylan quebrou o silêncio que tentou surgir naquele instante. Ele torcia o nariz demonstrando sua irritação fazendo-me achar graça daquilo também. Fiz um pequeno esforço para puxar o rosto dele e dei-lhe um beijo demorado.
— Ela me animou. — Falei deixando os olhos de Dylan carinhosos.
— Sim, sim. Agora vamos falar do que interessa. Eu sei que não estou de farda, mas vamos deixar as formalidades de lado. — Olga retirou um bloco de notas do bolso do short e uma caneta, em seguida puxou a corrente de dentro da camisa e o símbolo da polícia de Miami feito em dourado surgiu pendurado no objeto de prata colado a um fundo preto arredondado. — Camila, preciso que me diga exatamente o que aconteceu naquela noite.
— Você é policial? — O susto me deu dor nos ossos.
— Sim, ela é policial.
— Vamos ao caso — disse a mulher balançando os braços no ar para que agilizassemos e eu assenti. — Conte a partir do momento que Dylan foi para casa.
— Eu subi para a biblioteca e comecei a arrumar alguns livros que encontrei fora do lugar para que aquilo não atrapalhasse nosso expediente quando voltássemos. Como eu já estava lá procurando um livro para minha aula, primeiro coloquei os livros nos seus lugares, aí ouvi alguns alunos que foram devolver os emprestados e depois me distraí terminando a tarefa, quando dei por mim estava muito tarde então tranquei tudo e desci as escadas para ir embora. Foi quando caí no segundo andar.
— Bom Dylan, não parece culposo, apenas acidental. — O professor olhou em direção a sua amiga com fúria, em seguida me olhou fixamente.
— E a mão no vídeo foi um fantasma, Olga? — Rebateu ele e a policial deu de ombros. Ele voltou à me olhar de maneira preocupada. — Você não está esquecendo nada, Camz?
— Acho que não… — Respondi pensativa. Dylan pressiono meus dedos entrelaçados nos dele e beijou as costas da minha mão, me motivava a pensar com calma e eu vasculhei minha mente atrás de respostas para ele. — Bom, eu me lembro de ter colocado um livro de volta no sistema da biblioteca alguns minutos antes de fechar tudo, mas as alunas foram embora assim que acabei.
— Otimo isso é bom. Temos um suspeito, tente lembrar quem foi. — Eu não conseguia, as únicas coisas que recordava eram os sapatos azuis correndo depois da minha queda. Forcei-me mais e o bip da máquina ao meu lado tornou-se frenético.
— Me lembro de sapatos caros da cor azul.
O rosto do meu professor ficou sombrio, furioso e cheio de ódio. Sua mão que estava apoiada no travesseiro o apertou com tanta força que pude ouvir um ruído baixo do tecido.
— Tente um pouco mais, querida. — Olga sussurrou depositando sua mão em meu joelho dolorido.
— Nathally! — O lampejo me veio e Dylan se colocou de pé. — Ela me entregou o livro, estava com uma amiga. Agora me lembro.
Não pude ver o rosto do professor depois daquilo. Ele saiu em disparada do quarto enquanto eu gritava por seu nome. Vero pediu para que eu tentasse me acalmar, e correu atrás do amigo me certificando que nada aconteceria. No entanto, pelo pouco que eu conhecia do senhor Hill, ele cometeria algum erro, se não fosse impedido a tempo e eu torci para Olga ser bem forte naquele momento.