Acordei um pouco dolorida. Cada fibra do meu corpo gritava para que eu me mantivesse imóvel por um tempo, como se ficar parada afastasse toda à dor que se alastrava por mim. Senti o apertar de uma mão em meus dedos enquanto meu corpo ia reagindo lentamente ao raiar do dia e o beijo cálido foi selado em minha bochecha.
Eu queria me espreguiçar como fazia todos os dias pela manhã, mesmo que não fosse crescer mais nenhum centímetros, era gostoso ouvir meu corpo despertar e ainda mais gostoso poder me movimentar daquela forma, mas por causa da dor estridente eu tinha que continuar sem minha rotina por algum tempo.
Ainda estava no hospital, isso já fazia uns dois dias. O que me preocupava demais, pois eu dizia constantemente que estava perdendo todo o ensaio para o show, mesmo que as pessoas tentassem me fazer pensar em outras coisas, minha preocupação sempre me levava de volta para o campus onde tudo deveria estar uma loucura com as substituições.
Olhei para meu lado direito e pude ver Dylan me observar com seu olhar doce. Um olhar que me causava paz e tranquilidade fazendo-me desejar que ele sempre estivesse ali comigo. Meu interior estava começando a suplicar por ele.
Dylan sorriu com ternura para mim, um sorriso que parecia estar muito além do que um simples carinho e aquilo inundou meu coração.
Sua blusa xadrez vermelha e preta de mangas longas estava amarrotada, o que dizia que ele havia dormido longe da sua cama e deveria estar com as costas doendo por isso. Os costumeiros jeans pretos com botas de cano curto também se faziam presentes deixavam as curvas fortes de seu corpo visível e eu pude notar à rigidez que emanou de seus ossos. Os longos cabelos do professor estavam jogados para frente e um boné da com da sua camisa no alto da cabeça talvez para esconder o estado que suas madeixas estavam depois de ficar dias sem lavar direito.
Ele corria para o hospital sempre que liberavam as visitas, eu duvidava muito que estivesse ao menos se alimentando direito.
— Como está se sentindo? — Perguntou o professor. Tentei dar meu melhor sorriso naquele instante para mascarar o que sentia, mas percebi que seria impossível esconder tanto assim.
— Hoje me sinto melhor. Ainda dói tudo, mas não como antes. — Dylan entrelaçou nossos dedos e me deu um beijo nas costas de minha mão. — Ei.
— Diz.
— O que você fez? — Questionei-o e mordi o lábio inferior ao me recordar da sua ira quando descobriu sobre meus agressor. — Com Nathally…
— Nada. — Ele disse bufando. — Olga me impediu antes que eu chegasse no carro. Disse que iria investigar e puni-la da forma correta se ela fosse a culpada. Mas se eu fizesse algo, poderia acabar m*l para mim.
— Ainda bem. — Ele me lançou aquele seu olhar furioso.
— Eu queria m***r aquela garota e se ela vier a te tocar outra vez vou m***r de verdade.
— Para vai. Eu estou bem. Bom… quase, mas vou melhorar e tudo vai voltar ao normal. — Acho que minha positividade deixou Dylan um pouco melhor e isso me acalmou.
A enfermeira entrou no quarto caminhando em direção ao fio que saia do soro e se conectava ao acesso em meu braço. À agulha fina abria caminho para o remédio invadir meu organismo e quando ela mexeu no objetivo senti o líquido entrar com mais intensidade. Meus olhos começaram à pesar.
— Hora de descansar, querida. — A voz doce da mulher de coqui falou e o peso percorreu todo meu corpo, Dylan pressionou minha mão levemente dizendo algo para à enfermeira que eu não consegui entender, pois meu corpo adormeceu por completo e o sono preencheu cada canto de mim.
Senti o ar gélido invadir as cobertas me fazendo encolher e tremer, senti algo quente ser colocado sobre mim e ouvi o barulho da janela ser fechada logo em seguida. Abri os olhos encontrando o quarto do meu professor, estava um pouco escuro, pois as cortinas vermelhas tinham sido fechadas, mas ainda era fácil entender que já estava de dia.
Faziam três dias que eu tinha saído do hospital e meu professor não me deixou ficar sozinha no duplex. Carregou-me para sua casa mesmo que eu tivesse protestado dizendo que ficaria bem. Ele me olhou de maneira tão meiga e preocupada que não sou dizer não.
Vi a sombra sair do quarto após cuidar de mim e ele fechou a porta para me dar mais privacidade ao despertar. Desde minha chegada na casa ele estava sendo prestativo e cavaleiro, até dormiu no sofá para me deixar em seu quarto. Isso me fazia seguir os cuidados pedidos pelo médico à risca, pois queria melhorar o quanto antes para lhe devolver seu espaço.
Sentei na cama lentamente após despertar sentindo um pouco de dor nos quadris, minha cabeça ainda girava e latejava, não como antes, pois pelo menos eu já conseguia me sentar sozinha. Às vezes ainda via o lugar girar e precisava me apoiar em algo para não cair, no entanto era por um breve momento.
Fora isso tudo estava voltando para o seu lugar.
Olga ainda investigava o caso do meu quase homicídio e todos do prédio que apareceram nas câmeras até as 21hrs eram suspeitos. Eu não estava indo para as aulas ou para o trabalho, havia pego alguns dias de repouso e isso me deixava angustiada. Eu precisava melhorar o quanto antes.
Levantei-me da cama caminhando devagar até a porta, a cada passo um de meus ossos ardia fazendo-me respirar fundo antes de dar o passo seguinte. Girei a maçaneta depois de muito tempo nesse processo até à madeira que me separava do corredor e o lado de fora surgiu para mim.
A casa estava toda iluminada pela luz do dia e pela claridade deveria ser bem tarde. Talvez o professor já estivesse no trabalho e por isso tudo parecia tão calmo.
Caminhei um pouco mais até poder ver a cozinha e comecei à ouvir as vozes vindo dali. Ao virar no cômodo pude ver uma mulher de costas para mim com os braços cruzados, usava um longo sobretudo branco que se misturavam aos seus cabelos longos descendo por suas costas ela afirmava com a cabeça para a explicação do professor que tentava não falar muito alto, talvez para que eu não ouvisse.
Me senti confusa e ligeiramente tonta ao tentar descobrir quem era à mulher. Apoiei-me no batente do corredor e Dylan me olhou assustado vindo em minha direção às pressas.
— Camila! O que faz em pé. Você precisa ficar deitada por mais alguns dias. — Sua mão passou meu braço por seu pescoço e apoiou a mão livre em meu estômago.
Pensei por um instante em sua forma de me chamar, pois o professor só falava meu nome daquela forma na sala de aula ou quando ia me dar alguma bronca. Talvez a pessoa na casa fosse alguém que pudesse colocá-lo em maus lençóis se descobrisse sobre nós e por isso ele se comportou ao falar comigo.
A jaqueta jeans dele roçou em mim por cima da camisola, não fosse ele estar me segurando eu já teria caído.
— Camila. — Disse a mulher, e eu com a visão meio turva ergui a cabeça para olhá-la. Eu conhecia perfeitamente aquela voz e por um segundo eu achei conhecê-la, mas minha cabeça rodopiou e tudo ficou escuro. À única coisa que senti foi o professor me tomando nos braços e ali eu me entreguei ao desmaio.
Abri os olhos encontrando o teto. Eu estava de barriga para cima aconchegada as cobertas e de volta ao quarto do professor. Me sentia quente mesmo que o ambiente parecesse estar na temperatura perfeita. Senti o calor em meus dedos e caminhei o olhar para minha mão esquerda. Dylan tinha seus dedos enroscados no meu e o olhar carinhoso de sempre.
— Oi. — Ele sussurrou.
— Oi. Tive um sonho estranho.
— Já passou. — Sua mão livre alisou minhas madeixas e enrolou uma mecha em seu indicador. — Você tem visita, está bem para ver alguém?
Franzi o cenho e assenti lentamente enquanto ele desvencilhava nossas mãos e se erguia. Dylan saiu do quarto e demorou um pouco, sentei-me na cama encostando na cabeceira. A porta foi aberta outra vez e a figura entrou no quarto. Foi então que percebi que não havia sido um sonho, eu havia visto ela de fato e mesmo com a visão h******l no momento em que à vi pude a reconhecer.
Ela sorriu para mim se aproximando lentamente, Dylan entrou em seguida e encostou seu corpo na porta observando-me. Os dois ali naquele mesmo local faziam meu corpo palpitar freneticamente, pois eu sabia o que ela pensaria de mim e sabia muito bem. Eu me senti desesperada por dentro, mas tentava não demonstrar, provavelmente sem sucesso.
— Fiquei preocupada e corri para cá assim que o hospital ligou. — Ela disse e claro que o hospital ligaria, ela era meu contato de emergência e alguém tinha que pagar a conta.
Respirei fundo e me preparei para falar com ela antes que ouvisse todo seu discurso. Eu havia entendido porque o professor me chamara de Camila, eu não tinha contado sobre nós para ninguém ainda. Porque eu esperava que não precisasse, mas uma hora ou outra teria que dizer e acho que aquilo não iria agradar minha família nenhum pouco.
Saber que sua filha estava iniciando um relacionamento com o professor da universidade poderia mexer bastante com a nossa relação familiar.