— Como você está? — Ela me perguntou ao quebrar o silêncio.
— Me sinto melhor, mãe. Como estão todos em casa? — Perguntei sussurrando, pois parecia ter batatas na minha boca que me impediam de falar mais alto. Tenho certeza que era medo de ter minha mãe ali naquele momento da minha vida.
Ela me deu um meio sorriso e respirou um pouco antes de falar.
— Bem querida. Todos preocupados com você também, seu pai está fazendo o possível para poder vir lhe ver, mas as ações não o deixam viajar por hora.
Dei um meio sorriso escapar, era um certo alívio de não ter o patriarca da família ali para me dar mais pavor. Envolvi minha mãe em um abraço terno. O mais forte que consegui fazer naquele momento e me recordei que estava com muitas saudades daquele abraço.
Me peguei lembrando da minha infância por um instante, quando eu a abraçava daquela forma a cada dez minutos, deixando-a meio irritada com tanto amor que eu a enchia. Era bom voltar no tempo às vezes. Pensar no passado me fazia não sentir tanta dor, mas logo voltei a realidade ao ouvir o som de sua voz mais madura do que anos antes.
— Agora você precisa descansar. Seu professor foi muito gentil em se oferecer para cuidar de você até sua recuperação, eu me sinto mais aliviada. Mas estou aqui e posso assumir tudo.
Mal sabia ela que eu não saí daquela casa nos últimos dias por um outro motivo e eu queria que isso continuasse em segredo até que eu achasse uma forma melhor de lhe contar tudo, ainda não era hora e eu não queria causar um infarto em minha mãe. Tiraria um tempo para contar tudo com calma e quando todos estivessem reunidos em casa para pular várias explicações, além de receber todas as broncas no mesmo dia. Seria pesado, mas melhor do que embromar mais.
Só de pensar nisso minha barriga já se enchia de borbulhas medrosas. Eu tinha certeza que meu pai tentaria me m***r.
— Fico contente em poder ajudar. Camila é uma aluna muito querida por todos os professores. Por sorte moro em frente a casa dela e fica melhor para ajudá-la do que os outros professores, então decidimos que ela poderia ficar aqui até que pudesse voltar à fazer tudo sozinha. Estamos revezando os cuidados dela entre nós.
Minha mãe sorriu e segurou a mão de Dylan com ternura. Era uma cena bonita de se ver, aparentemente eles se davam bem. Por um instante eu imaginei minha família se reunindo com Dylan para o churrasco de domingo onde ele estava comigo em uma relação feliz e estável. Em outro minuto eu me questionei do porquê estava pensando naquilo, pois nossa relação ainda não estava tão avançada daquela maneira para flutuar tão longe.
Também tinha a questão de ser professor da universidade e isso não ficaria muito bem para os olhos do meu pai, eu teria que explicar sobre a idade dele e rezar para que papai aceitasse.
Minha mãe iria surtar, seu coração não aguentaria e ela teria um infarto. O medo do desconhecido fazia meu corpo inteiro tremer como se ventos fortes quisessem me derrubar. Dei um longo suspiro, enquanto tentava me manter focada na conversa das duas pessoas naquele quarto.
— Bom, minha menina. Eu só vim ter notícias suas e graças a Deus está bem, mas preciso voltar para casa, pois deixei certos assuntos pendentes e fico tranquila vendo que está sendo bem tratada. Você se sente bem? Quer que eu fique?
— Mãe, acho que sou adulta — brinquei e ela sorriu para mim de forma discreta. — Vou ficar bem sim, mãe e se acontecer qualquer coisa você será a primeira à saber.
— Não minta, Camila. Você sempre omite as coisas que vão me preocupar. — Ela se voltou para o professor. — Olha Dylan, deixei o telefone com à reitora. Vocês podem me ligar, mandar mensagem e o que for. Volto correndo se precisar, mas me dêem notícias. Essa desnaturada iria morrer e não falaria nada.
O professor riu das palavras da mamãe assim como eu enquanto ela continuava se lamentando por todas as vezes que lhe deixei preocupada. Era estranho falar com minha mãe livremente ali perto dele, minha língua coçava para contar as coisas magníficas que estavam acontecendo em minha vida. Eu desejava tanto poder me abrir mais e dizer à menos um pouco sobre meu quase relacionamento, mas Samara saberia que eu escondia algo e me obrigaria a dizer tudo. No entanto, só de pensar em dizer sobre Dylan sem prepará-la física e mentalmente, ela voaria em meu pescoço.
Minha mãe me abraçou uma vez mais quando terminou seu discurso descolado. Tinha sido um abraço tão gostoso que eu quase implorei para que ela ficasse mais para que ficasse para sempre. Porém respirei fundo junto com ela, pude notar que não era apenas um desejo meu quando a senti esmagar minhas costelas e nos separamos no fim de tudo.
— Cuidarei dela senhora Chaves, todos da universidade cuidarão. — Minha mãe se levantou e sorriu para Dylan, pressionou o ombro do professor com ternura e se retirou do quarto. O professor me lançou uma piscadela saindo em seguida para acompanhar minha mãe, deixando-me sozinha no quarto com meus pensamentos.
Eu ainda tremia de medo pela situação. Pois por mais compreensiva que minha mãe fosse ela ainda assim não aceitaria essa união, mesmo que eu precisasse contar a eles eu iria guardar aquilo por alguns dias, pois sabia como cada um reagiria.
Eu precisava criar uma maneira segura de contar e com cuidado.
Cuidado, essa era uma boa.
Eu queria entender como contar algo assim para alguém com cuidado, pois em minha cabeça eu só faria a pessoa enfartar calmamente ou repentinamente e por Deus eu não queria m***r meus pais mesmo que isso fosse acontecer de qualquer forma.
Só de pensar naquilo minha cabeça já latejava e girava igual carrossel.
O que eu iria fazer?
Dylan entrou no quarto horas mais tarde com o prato de sopa de feijão em suas mãos. Isso me arrancou uma carranca que o fez sorrir. Ele sentou-se ao meu lado na cama e deixou o prato em meu colo depois de colocar um travesseiro embaixo para não queimar minhas pernas. Cruzei os braços emburrada e Dylan deu outro sorriso pegando novamente o prato. Ele se virou de frente para mim e encheu a colher com o líquido e as batatas trazendo até minha boca tentando me induzir a comer.
Soprei um pouco e suguei a sopa deixando-a descer pela minha garganta para esquentar meu corpo.
— Acho que você está ficando mimada. — Ele disse provando um pouco da sopa. Dei a lingua para o homem e senti um beliscão na barriga.
— Não. Tô doente.
— Own. Ela tá dodói, que fofa. — Dylan se aproximou e mordeu meu lábio.
— Não fala assim. É tão brega. — Disse e ele tombou à cabeça para o lado dando-me outro puxão no lábio inferior enquanto me lançava um olhar meigo.
Senti um tremor percorrer por todo meu corpo e segurei firme em seus ombros para beijá-lo deliciosamente deixando o gosto da sopa se misturar aos toques dele. Passei as mãos pelos cabelos do moreno puxando seu rosto para um beijo intenso, caloroso e posso jurar que aquilo estava apaixonante.
— Não faz isso, vou acabar atacando você toda enfaixada mesmo. — Ele brincou fazendo-me rir. O soltei deixando-o voltar a me dar sopa.
— Eu gostei da sua mãe. — À voz de Dylan saiu embargada. Mordi o lábio, pois eu sabia que uma hora entrariamos naquele assunto. — O que foi?
— Eu não sei o que fazer quanto aos meus pais. Estou morrendo de medo de contar a eles sobre nós, eles vão m***r você e me trancar em uma gaiola.
Dylan deu um sorriso terno, colocou o prato em cima do móvel ao lado da cama e pegou em minhas mãos olhando em meus olhos.
— Olha, não precisa ter pressa, tá bom? Eu posso esperar. Quando você tiver certeza que é isso o que quer e que irá ficar comigo de verdade, nós contaremos juntos aos seus pais mesmo que eles não me aceitem ou se distanciam de você, eu estarei aqui ao seu lado. E caso eles tentem me m***r eu fujo, bolo um plano e te resgato da gaiola para levar você embora comigo. — Seu indicador brincou com meu queixo me fazendo rir.
— Promete?
Ele sentou ao meu lado me puxando para seu colo voltando a me olhar nos olhos. Tocou os lábios nos meus e alisou meu rosto.
— Eu juro, pequena. — Ele disse me beijando carinhosamente.
Respirei fundo e deixei que os lábios cálidos do profissional encontrassem os meus. Eu me sentia totalmente segura, amada e aquilo estava começando a me agradar a cada instante. Talvez eu estivesse errada ao dizer que m*l tínhamos algo, pois ele estava cuidando de mim com todo seu sentimento e disse que estaria ao meu lado. Isso era bom.
Percebi que Dylan estava me conquistando aos poucos e eu estava começando a adorar… não eu estava amando aquilo.