Dia vai e dia vem. O mês passou tão rápido que nem percebi que estávamos de recesso. À apresentação final chegaria dali alguns dias, mas eu poderia visitar minha família e tentar convencê-los de viajar comigo para me ver cantar.
Durante os dias de aula eu pude pensar com carinho sobre meu relacionamento e percebi que meu professor já tinha tomado sua decisão sobre nós, só faltava eu. Então eu precisava me entender e falar de uma vez por todas o que éramos e o que seríamos dali em diante.
Respirei fundo e o convidei para enfrentar algumas feras.
O avião pousou em São Paulo às 11 horas depois de muito tempo voando. Eu e Dylan saímos do portão 13 e seguimos para o balcão próximo a porta de saída onde meu professor começou a falar com um rapaz ruivo de olhos verdes e pele clara. O jovem usava o uniforme da linha aérea que nos prestou serviço. Ele sorriu calorosamente para nós enquanto Dylan tentava falar em um português terrível com ele sobre alugar um carro. Eu não pude me conter com aquela cena, pois o professor era muito bom em muitas coisas, menos em falar português e isso o fazia tentar gesticular com as mãos fingindo estar dirigindo um automóvel o qual ele chamou de "charrete". Deus sabe onde ele aprendeu à falar meu idioma.
Resolvi ligar para minha mãe e avisar sobre nossa chegada. No segundo toque o telefone foi atendido para o meu alívio, enquanto Dylan ainda fazia sua mímica.
— Mãe? — falei ao ouvir a voz dela.
— Camila, meu amor. Estamos esperando por você. Quer que vou lhe buscar no aeroporto?
— Na verdade não, mãe. Um amigo alugou um carro e está tentando encontrá-lo nesse momento. Acho que estaremos aí daqui uma hora. — Voltei os olhos para o professor ao longe ainda em sua tentativa de fazer o atendente rir, pois tenho certeza que o rapaz já havia entendido perfeitamente, mas estava tão divertido que era impossível pedir para Dylan parar. Dei um longo suspiro. — Talvez duas horas.
— Amigo? Que amigo? — Perguntou minha mãe do outro lado e tive que engolir em seco.
— O senhor Hill, mãe. — Ela nada disse, ficou um tempo na linha respirando pesadamente e isso me fez petrificar. Dylan me puxou pelo ombro com as chaves balançando em mãos, em seguida ele apontou para o automóvel de maneira vitoriosa e eu empurrei o carrinho com ambas as mãos, seguindo-o até o carro. Lembrei de minha mãe ainda respirando na linha. — Mãe?
— Senhor Dylan Hill você diz?! Seu professor? — Estremeci, e soltei apenas um pequeno som que saiu tremido como meu corpo estava. Entrei no carro depois que Dylan colocou as malas no carro e entrou no banco do motorista. Ele apertou meu joelho dando-me um tipo de incentivo para que à conversa se seguisse ainda que minha mãe fizesse paradas longas o suficiente para me causar um infarto. Respirei fundo outra vez. — Ai que bom amore da mãe! O seu pai queria mesmo conhecê-lo para agradecer por ele ter tido tanta dedicação com você. Não sabíamos como convidá-lo, mas venham logo. Vou ter que desligar, estão fazendo uma zona com minha decoração e eu vou m***r alguém.
Sua última frase foi dita aos berros e entendi porque ela parava de falar comigo toda hora. Ela deveria estar controlando as pessoas que a ajudaram na decoração. Mesmo assim, soltei um gemido como se tivesse me ferido. Afinal meu estômago se revirava dentro de mim e minhas borbulhas se tornavam ácidas me queimando por dentro.
Dylan pressionou um pouco mais meu joelho tentando me deixar mais calma, ainda que eu pudesse sentir as futuras palavras dos meus pais gritando em minha cabeça para não usar mais o meu sobrenome. Só de imaginar a cena eu já queria saltar do carro em movimento e ser atropelada por um caminhão.
— Filha? — Minha mãe me chamou, fazendo-me voltar à realidade.
— Ele irá vê-lo e poderá agradecer pessoalmente, tenho que desligar também, mãe. Vamos entrar no túnel.
Nem ouvi o "Te amo filha", apenas desliguei e fechei os olhos deixando o celular cair em algum lugar do carro. Tentei organizar meus pensamentos e os batimentos do meu peito. Minha vida parecia correr mais próxima da morte a cada quilômetro percorrido pelo carro e estava começando a desejar voltar para Miami para fingir que não havia feriado prolongado e que eu ainda estava doente.
Naquele instante me questionei do porquê melhorei tão rápido justamente quando havia chegado o feriado. Parecia que o destino estava me pregando uma de suas peças e era uma peça que só tinha graça para ele mesmo.
— Tenho certeza que vai ficar tudo bem. Eu vou estar com você o tempo todo. — Talvez aquilo não tenha me ajudado, pois me fez imaginar meu pai lançando a churrasqueira no professor enquanto gritava que ele havia me corrompido. Engoli em seco e Dylan encostou o carro no meio fio da avenida Presidente Dutra. — Camila? Quer deixar para falar na próxima vez que viermos?
— Ai é que está. Todas as vezes que tentarmos acontecerá a mesma coisa comigo. Meu estômago vai explodir e minha gastrite atacar, vou estremecer enquanto infarto lentamente ou morro de medo sem saber o que realmente acontecerá. Até parece que vou me casar…
Dylan deu um suspiro cansado e me olhou triste, aquilo cortou meus pulsos. Eu não fazia ideia de que minhas palavras o machucariam daquela forma.
— Você quer terminar? — Perguntou ele sem me preparar para aquilo e me assustei com isso, meus olhos se arregalaram e ele esperou minha resposta.
— O que?! Dylan não!
— Você parece não querer estar comigo ou que está vergonha.
— Vergonha?! Dylan eu não sinto vergonha de você. — Ele desviou os olhos de mim e mirou a estrada em nossa frente. — Dylan… Olha para mim.
— Não Camila, eu não quero te forçar a viver comigo. Você tem sua vida e parece que estou destruindo isso. Seus pais não vão me aceitar e sua reação já confirma tudo. Posso te deixar lá e voltar para Miami sem problema algum. Não temos algo sério mesmo, não é?
— Não? — Gritei nervosa. — Olha aqui garoto, eu não fico com alguém por ficar, tá legal? Se estou sentindo algo por você é por que eu quis e deixei que isso acontecesse, a ideia de esconder nosso namoro foi sua! E eu quero sim contar aos meus pais, só não sei como. Então ligue a d***a desse carro e dirija para o Arujá agora mesmo!
— Estamos namorando? — ele perguntou e eu gritei o mais alto que pude.
— Claro que estamos Dylan Hill! — Isso fez ele arregalar os olhos. — Eu amo você, c*****o!
Meu professor me olhou por alguns segundos como se eu tivesse lhe contado algo incrível e delicioso. Ele não soube reagir aquelas palavras e quando entendeu com clareza algo que eu mesma não acreditei ter dito, ele me puxou para um beijo cálido e vitorioso.
Nos beijamos ardentemente e deixei-me envolver nos braços de Dylan. Ele fechou as janelas do pequeno automóvel e me puxou para o seu colo de uma forma tão forte e delicada ao mesmo tempo que quase fui ao céu.
Passei as mãos em seus cabelos enfiando meus dedos em suas madeixas enquanto as mãos dele caiam em minha cintura pressionando-as.
— Disse que me ama. — Ele sussurrou entre os beijos e eu afirmei sem tirar os lábios dos dele. — E que estamos namorando.
Novamente afirmei enquanto sentia suas mãos deslizarem por dentro da minha blusa fina de algodão.
— Dylan, para. Temos que ir. — Ele fingiu não ouvir mesmo que eu estivesse tentando me desvencilhar de seus dedos que me pressionavam ainda mais contra o corpo quente do moreno.
— Eu te amo também. — Disse ele atacando meu pescoço.
— Então se controla, seremos presos fazendo amor em uma rodovia em plena luz do dia. — Ele não se controlou e riu loucamente, mas viu que eu estava certa ao dizer aquilo e me deixou voltar ao meu lugar.
Ao menos eu estava ofegante, não por estar nervosa, mas por ter sido devorada pela boca carnuda do meu professor e eu teria que retocar o batom para não perceberem.
Dylan girou a chave aquecendo o motor do carro, o que fez ele criar vida novamente e voltar para a estrada. Levamos mais de uma hora com nossa parada de 15 minutos para discutir a relação. Até achei divertido aquilo, pois era nossa primeira discussão e tudo havia acabado em "pizza" ou melhor dizendo em desejos.
Respirei fundo e vi a rua onde cresci surgir em frente ao meu olhar. Eu conseguia lembrar da época que eu cantava para todos ali depois de um longo dia de travessuras onde tentavam me pegar quando eu pregava peças em alguém.
Essa recordação me fez sorrir e relaxar, porém quando o carro parou do lado da casa cinza claro com janela de madeira branca e porta dourada cintilante, algo em meu peito explodiu e meu coração estava a mil por hora.
Minha mãe surgiu na porta sorridente me fazendo pressionar o pano do meu vestido azul e até senti o suor escorrer pela minha testa.
Dylan segurou minha mão firmemente me levando à olhar em seus olhos.
Eu só conseguia pensar em como descer do carro, sem que minhas pernas bambeassem ou sem que eu desmaiasse. Eu precisava de ar.
— Quando quiser. — Sussurrou o moreno. Novamente respirei fundo e destravei a porta do automóvel. — Um passo de cada vez.
Falamos juntos saindo do carro.